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Daniel e Jonas, atingidos por balas de borracha, ainda se perguntam por quê

Jonas Correia, atingido por bala de borracha em protesto contra o governo de Jair Bolsonaro em 29 de maio, no Recife - Brenda Alcântara/UOL
Jonas Correia, atingido por bala de borracha em protesto contra o governo de Jair Bolsonaro em 29 de maio, no Recife
Imagem: Brenda Alcântara/UOL

Alice de Souza

Colaboração para o TAB, do Recife

15/06/2021 04h01

Jonas Correia, 29, descia a ponte Princesa Isabel levando carne moída para jantar lasanha com os filhos. Viu a aglomeração e fez uma chamada de vídeo para a esposa. "Olha, terminei o trabalho aqui mas vou demorar, tá tendo um protesto", disse, filmando-se próximo aos protestantes e a linha cerrada de policiais.

A barreira do Batalhão de Choque notou a câmera e sua presença. Os policiais apontaram as armas para Jonas, que caminhava guiando a bicicleta ao lado. "Ainda falei para eles que era trabalhador, tinha ido descarregar um contêiner ali perto, tava voltando pra casa." O pedido não segurou o disparo: um policial deu dois passos para o lado e um tiro de bala de borracha acertou o olho direito de Jonas.

Daniel Campelo, 51, tem outra cronologia daquele sábado, cujo desfecho equivale ao de Jonas. Sabe exatamente o que fez do momento em que saiu de casa e passou em um restaurante para cumprimentar amigos até a hora em que se aproximou dos policiais e ergueu as mãos. "Fiz isso para eles verem que eu não estava no protesto. No mínimo, dá para ver que é um ato de rendição. Ainda disse: 'sou pai de família, trabalhador, não tenho nada a ver com isso'." Também foi alvejado.

29 de maio foi o dia em que o Brasil conheceu os pernambucanos Daniel Campelo e Jonas Correia. Os dois homens cegados pelas balas de borracha, entretanto, não conheceram a polícia militar de Pernambuco naquele dia. O encontro já havia acontecido de modos distintos e explica o sentimento de ambos, quinze dias após o ocorrido.

Daniel Campelo perdeu o olho esquerdo ao ser atingido por uma bala de borracha disparada pela PM de Recife em 29 de maio  - Brenda Alcântara/UOL - Brenda Alcântara/UOL
Imagem: Brenda Alcântara/UOL

Baculejo sem fim

Jonas, um jovem negro morador de Santo Amaro, bairro da periferia do Recife, era carta marcada nas abordagens policiais. Quase todas as vezes em que saía para jogar bola com os companheiros da ONG Grupo de Apoio Mútuo Pé no Chão, era obrigado a parar para apresentar documentos. Sofria o famoso "baculejo", a inspeção em busca de armas e drogas. Também via a polícia entrar, muitas vezes sem explicar o porquê, nas vielas da comunidade onde vive. Em 2009, cansado das cenas, resolveu usar a música como protesto.

Na época, apresentava-se como MC Jonas Racional, e cantava: "Santo Amaro não só tem ladrão, tem trabalhador e também tem cidadão, preste atenção".

No rap, já falava da violência policial. "Na minha periferia tem coisas boas, mas os policiais não quer [sic] saber de nada, não. Quando pega um de nós, dá rodo e joga no chão." Naquele mesmo ano, foi participar de um evento cultural na Praça da Independência, e tentou cantar a música, mas quase foi preso. "A diretora do projeto conversou com eles e aí me liberaram."

Nunca podia imaginar que, 12 anos depois, a menos de 800 metros de onde quase foi preso em 2009, voltaria a ter um embate com as forças de segurança do Estado. Até o último sábado de maio de 2021, aquela era a imagem de maior truculência da polícia na memória de Jonas, que cresceu dentro do projeto social, atuando como percussionista e MC, e já viajou para Áustria, França e Itália, em função da arte. Agora, a cena da quase prisão foi substituída pelas lembranças dos momentos que precederam a perda da visão do olho direito.

Depois de sete dias internado, ainda sem saber se perderá o globo ocular, Jonas quer justiça. "Quando vou ao banheiro e vejo que não tem luz do lado direito, fico revoltado. As pessoas que fizeram isso não são dignas de usar a farda. Essa farda tem que ser honrada, é pra proteger o cidadão, não para agredir."

Jonas Correia, atingido por uma bala de borracha da PM do Recife em 29 de maio - Brenda Alcântara/UOL - Brenda Alcântara/UOL
Jonas Correia
Imagem: Brenda Alcântara/UOL
Daniel Campelo, atingido no olho por uma bala de borracha em 29 de maio, em protesto contra o governo de Jair Bolsonaro, no Recife - Brenda Alcântara/UOL - Brenda Alcântara/UOL
Imagem: Brenda Alcântara/UOL

Respeito pela PM

O adesivador de táxis Daniel Campelo, atingido quando tentava chegar ao comércio do centro do Recife, tem relação afetiva com a polícia. Entre tios e primos, tem vários parentes que são ou foram agentes da PM. Recorda as visitas ao Batalhão de Choque feitas na juventude — o mesmo de onde partiram os militares que abriram fogo contra ele. Até o dia do protesto, Daniel nunca tinha passado por violência policial; no máximo, um baculejo quando andava de moto.

Daniel tem um discurso que dá nó em polarizados. Reconhece o direito dos manifestantes de pedir vacinas e auxílio econômico, mas evita falar sobre as motivações políticas do protesto. Enfatiza que a PM errou, mas ressalta que a força policial é necessária. "Nós precisamos da PM, mas eles precisam trabalhar com mais cautela. Pedir vacina e alimento é um direito."

A mira dele não é a polícia, mas o Estado. "Se há erro, o Estado tem que arcar com as despesas e o compromisso. A polícia é representante do Estado. Se for bater com os policiais, vai ser uma guerra e não vai resolver."

Sede de Justiça

As histórias de Jonas e Daniel se tornaram tragicamente semelhantes. Nenhum deles participava do protesto. Ambos estavam no centro da cidade em função do trabalho. Os dois têm filhos que dependem desse suor e avançaram por confiar na benevolência da polícia, porque não tinham nada a temer, porque estimam a condição de trabalhador.

Jonas e Daniel querem indenização, apoio financeiro no tratamento de saúde e para custear a vida paralisada pelos tiros de bala de borracha. Jonas Correia está sendo acompanhado pela Defensoria Pública. Daniel Campelo conseguiu um advogado, Marcellus Ugiette, antigo amigo e ex-promotor conhecido em Pernambuco.

Desde o dia 29, tiveram pequenas vitórias. O governo de Pernambuco concederá cestas básicas a cada 10 dias. Comprometeu-se a fazer reparos nos imóveis onde vivem para garantir conforto. Desde a alta hospitalar, Jonas está hospedado num hotel pago pelo governo. "Preferimos que ele fosse para lá, pois havia muita imprensa atrás dele, e ele precisava descansar", conta sua esposa, Daniela Oliveira.

Daniel não quis o hotel. Sente-se mais confortável próximo aos familiares. Isso também lhe garante mais liberdade. Junto de Jonas, que é sempre solícito, há funcionários da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos de Pernambuco. São pessoas que dão suporte na compra de medicamentos e nos deslocamentos, mas também observam todos os seus passos.

Jonas Correia, atingido no olho por bala de borracha, no Recife - Brenda Alcântara/UOL - Brenda Alcântara/UOL
Imagem: Brenda Alcântara/UOL

Foi assim na última sexta-feira (11), quando compareceu a mais uma avaliação médica e concedeu entrevista ao TAB. Jonas estava acompanhado de uma funcionária da secretaria, que além de pedir informações sobre a reportagem, dizia estar com pressa.

Nos 15 minutos em que esteve a sós com a reportagem, Jonas contou que a ficha ainda não caiu. "Tem sido uma rotina cansativa, porque eu nunca esperava estar nessa situação. Antes daqui, eu só tinha estado uma vez no oftalmologista, há dois meses, quando descobri que tinha 0,5 de miopia."

Havia acordado triste, mas naquele dia iria rever pela primeira vez os dois filhos. "Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Sou grato por mais essa oportunidade."

Ele e Daniel ainda não sabem quanto receberão de indenização e pensão. Por enquanto, foram acordadas três parcelas de dois salários mínimos de auxílio a cada um. Em nota, a Secretaria de Desenvolvimento Social, Criança e Juventude informou que foi realizado o pagamento da primeira parcela de R$ 2,2 mil ao adesivador Daniel Campelo e ao arrumador Jonas Correia, no dia 8 de junho.

O advogado Marcellus Ugiette conta que a negociação não tem sido fácil, mas ampara-se na recente decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que decidiu que o poder público deve indenizar o fotógrafo Alex Silveira, atingido por uma bala disparada pela polícia enquanto cobria um protesto em 2000.

"Essa decisão dá sustentação legal para o caso de Daniel, pois não é só a indenização pela estética, é pelo dano psicológico, moral, pela deficiência permanente", disse o advogado. A defesa de Daniel decidiu dar 15 dias como prazo limite para a definição do governo de Pernambuco, a contar da reunião do dia 10 de junho. "Depois disso, se não houver um acordo justo e digno, já temos uma demanda judicial pronta para entrar na Justiça com um pedido de tutela antecipada."

Daniel Campelo, cidadão atingido no olho por bala de borracha em protesto no dia 29 de maio, no Recife - Brenda Alcântara/UOL - Brenda Alcântara/UOL
Daniel Campelo e a imagem de Santa Luzia
Imagem: Brenda Alcântara/UOL

A dúvida dos atingidos

Passados 15 dias, os dois seguem se perguntando por que foram atingidos. Querem encontrar respostas, amenizar a dor, cada vez menos física e muito mais emocional.

Agitado, Daniel faz o questionamento, ainda retórico, sentado em um dos dois sofás de capa laranja da casa onde vive, opostos a um altar improvisado na parede, olhando as imagens de Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora da Conceição e Santa Luzia.

Essa última, como se fosse enredo do destino, é a protetora dos olhos e da visão, padroeira dos oftalmologistas. Está ali em memória da mãe do adesivador, morta três meses atrás aos 91 anos. Todo 13 de dezembro, Maria José, a Dona Nena, ia até a paróquia de Santa Luzia devotar pela vitória e vida dos sete filhos. Talvez ela fosse a única pessoa a quem Daniel quisesse recorrer hoje.

Na ausência de Nena, é acolhido pelas irmãs, pelas sobrinhas enfermeiras, pelos filhos e pelas netas. Passa os dias trocando curativos, esperando o roxo do segundo tiro que o atingiu sair das costas e as feridas nos cotovelos e joelhos — de quando caiu no chão após ser baleado no olho — cicatrizarem.

Tenta espairecer. Até brinca que pegou a bicicleta estacionada na sala para dar uma volta. É quando abre um sorriso, como quem deseja como nunca a vida de antes. Quando fecha os olhos ou ouve algum barulho, volta de imediato ao 29 de maio, ao momento em que tentava cruzar a ponte Duarte Coelho.

"Você fecha o olho, volta para aquele lugar e se pergunta o porquê. Quer entender por que aquela violência toda. Eram pessoas que não levavam perigo nenhum. Todas as imagens mostram que houve erro, e o Estado tem que reparar. E a gente... se apega com Deus, que é o que a pessoa humilde tem."

Evangélico da Igreja Shekinah há um ano, Jonas também recorre a Deus como o único capaz de o fazer entender o ocorrido. Quatro dias antes, havia pego o último documento para dar entrada no casamento no cartório. Iria se casar para se batizar na nova religião.

Os piores momentos para ele são durante a madrugada, quando acorda em sobressaltos e se dá conta de que o olho direito permanece na escuridão. A próxima consulta na Fundação Altino Ventura, a sexta desde o tiro, ocorre nesta terça-feira (15).

"Podia ter sido diferente a atitude dos policiais. Eu ainda falei para eles que era trabalhador", lembra. Agora evangélico, não faz mais rap, mas pediu à esposa lápis e papel. Prometeu escrever um louvor contando a própria vida.

Enquanto aguardam resoluções, Jonas e Daniel dividem mais uma preocupação: os filhos. Jonas, o único que botava dinheiro em casa, agora depende de doações para alimentar as duas crianças. Daniel tem cinco filhos, um deles, autista. Trabalhavam dia e noite pensando neles. Agora, lutam para garantir o futuro que ainda não sabem se poderão, pelo próprio suor do rosto, dar aos que amam.