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Os barrancos e os voos de Elza Soares, síntese colossal da alma brasileira

Elza Soares e Zeca Camargo, durante lançamento da biografia "Elza", no Teatro da Urca, em abril de 2019 - Flipoços/Divulgação
Elza Soares e Zeca Camargo, durante lançamento da biografia 'Elza', no Teatro da Urca, em abril de 2019 Imagem: Flipoços/Divulgação

Zeca Camargo

Colaboração para o TAB, de São Paulo

22/01/2022 10h44

Sentada num canto do seu sofá, de frente para a praia de Copacabana, aquela figura miúda lembrava vagamente a mulher poderosa que eu tinha visto apenas algumas semanas antes no palco cantando "Me deixem cantar até o fim / Até o fim eu vou cantar / Eu vou cantar até o fim / Eu sou mulher do fim do mundo". Era a minha primeira entrevista com Elza Soares para começar a escrever sua biografia, e aquele vozeirão que me acostumei a ouvir em shows e em discos me oferecia, então, em tom de sussurro, um mate gelado.

Nada poderia ter me desarmado mais para este começo. Eu tinha me preparado para conversar com um ícone, não só da música, mas também da cultura brasileira — e não seria exagero dizer que Elza representa a própria alma do nosso país. Das centenas de entrevistas que fiz na minha carreira, começando lá no final dos anos 1980, sabia que essa seria uma das mais desafiadoras. Afinal, eu tinha diante de mim uma trajetória de mais ou menos sete décadas para contar. Cheguei com a pompa de quem tinha diante de si uma grande história.

Aquela voz baixinha, no entanto, me tirou do eixo. No lugar de rufar de tambores, nossa conexão estava se abrindo com sininhos tilintando. E eu não tinha certeza se esse era um bom começo.

Claro que era! Sempre mais sábia do que eu, aliás, mais sábia que todos a sua volta, Elza quis se apresentar não como a grande artista que sempre foi — estatura que não dá sinais de diminuir mesmo com sua morte recente —, mas como uma pessoa simples e generosa, que estava ali para dividir sua vida comigo.

Meu GPS interno imediatamente alertou: "recalculando". E, no lugar de soltar as perguntas que eu tinha tão laboriosamente formulado, perguntei tentando reproduzir seu tom suave: "Qual história você quer contar primeiro, Elza?".

Estranhei seu pedido inicial. Sem rodeios, ela disse que não queria ficar falando de Garrincha, um dos maiores ídolos do futebol brasileiro, seu parceiro de 17 anos e, como ela reafirmaria várias vezes, nos nossos inúmeros encontros, o maior amor de sua vida. Entendi imediatamente seu pedido.

Garrincha, até a magistral biografia escrita por Ruy Castro (Companhia das Letras, 1995), sempre foi o centro gravitacional do casal. No seu livro "Estrela Solitária", Castro nos enche de motivos para acreditar que Elza era a pessoa forte da relação. Enquanto o craque afundava na bebida, ela, por amor, saía pelo Brasil cantando para colocar dinheiro em casa.

Elza tinha o desejo de que eu escrevesse uma história que fosse só sua. "Fiquei junto com o Mané [como ela carinhosamente o chamava] por 17 anos; sobram 70 anos da minha vida que eu também preciso contar", ela me explicou. Acatei na mesma hora. Mesmo sabendo que, no caso de uma biografia que preza a ordem cronológica dos fatos, isso me daria um trabalho danado, combinei que só falaríamos de Garrincha quando ela se sentisse à vontade. Com esse obstáculo fora do caminho, veio então a história da vaca.

Mané Garrincha e Elza Soares em 1970, na Itália - Keystone-France/GettyImages - Keystone-France/GettyImages
Mané Garrincha e Elza Soares em 1970, na Itália
Imagem: Keystone-France/GettyImages

Encaradas e lambidas

Era uma passagem da infância mais tenra de Elza, quando ainda vivia em Água Santa, bairro da periferia do Rio de Janeiro onde nasceu. Ela estava sozinha no mato quando uma vaca conhecida pelos vizinhos como "braba" aproximou-se dela. Ignorando os gritos de todos ao seu redor, a criança ficou esperando a vaca chegar. Houve silêncio quando as duas criaturas ficaram bem perto — silêncio de pânico, certamente. Mas, contrariando as expectativas, a vaca começou a lamber aquele rosto tão pequeno como se fosse sua cria. Dali em diante, todo mundo começou a falar de Elza como uma menina abençoada.

Fiquei imediatamente fascinado com essa história. Achei que seria um começo perfeito para o livro. Na minha cabeça, já tinha escrito o primeiro parágrafo: um jogo de palavras com a letra Z, em cima da coincidência absurda de seu nome, Elza, ser o pronome pessoal "ela", com a inicial de Zeca no meio, uma espécie de predestinação cósmica. A cena da vaca cairia perfeitamente depois disso na introdução de uma figura que, embora com os dois pés bem firmes no chão, é certamente mágica.

Mas, e depois? Bem, vieram as histórias que já conhecia, diga-se, que a maioria dos seus fãs já conheciam: sua estreia no programa de rádio de Ary Barroso; os primeiros flertes com Mané, na Copa de 1962; a relação polêmica dos dois nessa década (Garrincha era casado e tinha oito filhas); a passagem por Roma; as brigas do casal; o encontro com Caetano Veloso que resgatou sua carreira nos anos 1980; a perda do filho que teve com Garrincha; o silêncio dos anos 1990; a reinvenção no século 21.

Eram histórias mais ou menos manjadas que, simplesmente relatadas, pouco acrescentariam a uma biografia que pretendia ser especial. Nesse primeiro encontro, ela esboçou algumas delas e fiquei um pouco desencorajado. Que papel eu teria em apenas reproduzir passagens tão conhecidas?

Voltei para casa naquela noite extremamente frustrado. Primeiro porque exagerei no tempo de nosso encontro. Me estendi na casa de Elza por quatro horas, o que acabou sendo muito cansativo para mim — imagine para ela. E o que tinha, além da preciosa história da vaca, era um punhado de vinhetas que qualquer pesquisa em reportagens com Elza revelaria sem mistério. Seria preciso mudar de direção.

Três semanas depois, marcamos o segundo encontro e combinamos que passaríamos a nos ver todas as semanas, sempre às quintas-feiras, sempre às 19h. E, sem dizer a ela, decidi investir naqueles mesmos relatos surrados, mas com outra abordagem.

Elza Soares e Zeca Camargo - Zeca Camargo/Arquivo Pessoal - Zeca Camargo/Arquivo Pessoal
Imagem: Zeca Camargo/Arquivo Pessoal

Alfinete como talismã

Comecei então pelo "Calouros em desfile", o famoso programa de Ary Barroso na rádio Tupi. Elza resolveu participar do concurso sem contar para ninguém. Pegou um vestido da sua mãe, cujo tamanho vestiria três Elzas de então; encheu-o de alfinetes de segurança para modelá-lo no corpo magro (o alfinete seria desde então seu talismã; não importasse que roupa vestia, sempre tinha um lá espetado); pegou trem, ônibus e lá foi cantar.

O episódio em si, todo mundo conhece: ela escolheu a dificílima "Lama", de Paulo Marques e Aylce Chaves, para cantar; Ary Barroso a torturou com perguntas constrangedoras, como fazia com todos os calouros; ao ser perguntada sobre "de que planeta ela tinha vindo", ela respondeu sem piscar: "Do planeta fome"; saiu vencedora daquela tarde. Sem novidades.

Mas, eu quis então saber, o que passava na cabeça da Elza, aquela menina magrela de 15 anos, que já tinha tido dois filhos, quando viu uma plateia rindo da sua cara, com um apresentador sádico que ficava nas suas costas, esperando a hora de dar o sinal para o gongo tocar, com um silencioso aceno de cabeça? Isso me interessava até mais que o famoso diálogo. Quando cutuquei Elza, outras memórias começaram a vir.

Suas pernas tremendo. O riso alto e cruel do público. A insegurança quanto à escolha da música. O improviso do visual mal-ajambrado. O alívio de cantar a canção até o fim, sem ouvir o gongo. E a volta exultante para casa, convencendo o taxista de que ela o pagaria na semana seguinte, quando voltasse para pegar o prêmio. Um grande clichê tinha se transformado numa história de verdade.

Em outra das minhas passagens favoritas da biografia — seu encontro com Caetano no hotel Hilton, em São Paulo —, quis saber o que ela estava sentindo quando, por baixo, sem oportunidades, trabalhando numa creche para dar comida a seu filho com Garrincha, ela entrou naquele saguão luxuoso. Elza fechou os olhos e revelou então que nunca tinha se sentido tão pequena, tão frágil, tão insegura.

Buscando em suas memórias, consegui o retrato de uma decadência quase irreversível. Não fosse Caetano ter se emocionado com a situação de Elza, que disse a ele que estava desistindo de cantar, e de ele ter composto então, para ela, uma de suas mais belas canções, "Língua", talvez sua carreira tivesse mesmo acabado ali.

Novamente, a passagem é conhecida, mas esse "garimpo emocional" me permitiu contá-la de outro jeito. Descoberto esse processo, terminei a biografia como se estivesse mesmo escrevendo com as mãos de Elza, ou, no mínimo, pegando carona em sua mente brilhante.

Outros tantos momentos do livro foram costurados exatamente assim, com um pé nos detalhes que o coração de Elza muitas vezes não queria contar e outro na elaboração de um mapa emocional de uma mulher que aprendeu a driblar tudo que sentia. Era tudo por uma causa maior que ela, tenho certeza, nem desconfiava que um dia teria: a de inspirar gerações e gerações de pessoas que, seja pela porta de entrada de sua música, seja pela sua história pessoal, viram e continuarão vendo em Elza uma figura maior. Gigante. Colossal.

Que adorava ficar sentada quietinha no canto do seu sofá vendo o mar de Copacabana...

Elza Soares, fotografada em sua casa em Copacabana por Zeca Camargo, em maio de 2018 - Zeca Camargo/Arquivo Pessoal - Zeca Camargo/Arquivo Pessoal
Elza Soares, fotografada em sua casa em Copacabana por Zeca Camargo, em maio de 2018
Imagem: Zeca Camargo/Arquivo Pessoal