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'Papagaios de pirata' do Rio colecionam gafes e risos em reportagens de TV

Os "papagaios de pirata" Célio Barreto (camisa do Brasil), Nil Ramos Soares (de chapéu) e Oseias da Conceição (camisa do Flamengo), em frente ao Theatro Municipal do Rio, durante velório de Elza Soares - Ricardo Borges/UOL
Os 'papagaios de pirata' Célio Barreto (camisa do Brasil), Nil Ramos Soares (de chapéu) e Oseias da Conceição (camisa do Flamengo), em frente ao Theatro Municipal do Rio, durante velório de Elza Soares
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Valmir Moratelli

Colaboração para o TAB, do Rio

27/01/2022 04h01

A repórter acaba de se pentear. Está prestes a entrar ao vivo com imagens do Theatro Municipal do Rio, onde é velado o corpo da cantora Elza Soares. Os termômetros da praça da Cinelândia beiram os 40°C na manhã de sexta-feira (21). Assim que ela inicia a transmissão, três senhores se posicionam estáticos ao fundo da imagem, do outro lado da calçada. São eles Nil Ramos Soares, 77; Oseias da Conceição, 51; e Célio Barreto, 74. O trio é conhecido como "papagaios de pirata" do jornalismo televisivo.

O termo é uma alusão a anônimos que fazem de tudo para aparecer como figurantes em reportagens de TV. Nos anos 1990, o grupo era um sexteto que, com o tempo, foi se desfazendo (alguns faleceram) e se mantém atualmente como um trio de papagaios inquietos. O pernambucano Nil Ramos Soares é o mais antigo em atividade. Está na cidade há mais de 50 anos e, há 30, se dedica a "sobrevoar" os repórteres de rua.

Nil é tão conhecido dos cariocas, que sempre interrompe suas caminhadas para fazer selfie ou cumprimentar quem o identifica. "Entro no ônibus e me chamam, ando até a padaria e me apontam, vou ao mercado e a caixa diz que me conhece de algum lugar. Adoro a fama, gosto de ser notado, me faz bem", diz ele, com os parceiros Oseias e Célio a tiracolo. Apenas Célio não é chegado a entrevistas. Os amigos ainda assim o incentivam a falar. "Para de besteira! Essa reportagem é toda só pra gente! Vai ter até foto", diz Nil, o mais animado. "Sou tímido pra falar, meu negócio é aparecer", responde Célio.

Vida de figurante

A paixão de Nil pela notoriedade começou, curiosamente, quando visitou uma estação de rádio, ainda em Recife. Tinha 14 anos quando foi a um programa matinal contar piadas. Ao voltar para casa, os vizinhos lhe parabenizaram. "Vi que era legal ser famoso e investi na carreira", diz. "Mudei pro Rio e tirei DRT [registro] de ator. Pago até sindicato dos artistas. Quer dizer, deixei de pagar há três anos, porque fiquei apertado."

Um dia, parou ao lado de um político, de que não lembra o nome, dando entrevista na rua. Era o começo dos anos 1990. Gostou da repercussão. Desde então, procura câmeras pelas ruas.

É cheio de histórias. Hoje aposentado, conta que dançou com Adele Fátima em 1988 nos palcos da TV Record num especial de Natal; foi mordomo do José Wilker em "O homem da capa preta", filme de 1986; fez figuração em "Os Trapalhões no reino da fantasia", de 1985. E aparecia vendendo pães numa birosca na primeira versão de "O Sítio do Pica-Pau Amarelo".

Ninguém conhece Sebastião Soares, como foi registrado. Nil é nome artístico. Mesmo com 1,50m de altura, não passa incólume pelas câmeras. Está sempre de chapéu de veludo preto. "É pra lembrar do Waldick Soriano, meu ídolo, o cantor de 'Eu não sou cachorro, não'. Mas pode ser também em homenagem a Paulo Gustavo. É bom falar dele, virou até nome de rua", diz, lacônico. Sem filhos, mora sozinho em Niterói (RJ).

Os 'papagaios de pirata' Nil Ramos Soares (de chapéu), Oseias da Conceição (camisa do Flamengo), Célio Barreto (camisa do Brasil), em frente ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro - Ricardo Borges/UOL - Ricardo Borges/UOL
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Ao lado de Fátima Bernardes

O chefe do grupo era Jaime Sabino, que morreu em 2013. Sempre de terno cinza, Jaime conseguia se encaixar em qualquer ângulo. Foi ao enterro de Cazuza e Oscar Niemeyer, além de ter sido testemunha ocular dos comícios de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro na campanha ao governo do Rio, em 1986. Os registros da época comprovam sua presença nos palanques.

O trio evita receber novatos. "Tem gente que fica de galhofa na frente dos repórteres. A gente não deixa", diz Oseias, cujo uniforme é uma surrada camisa do Flamengo. Fora das câmeras, ele ganha a vida como pedreiro no subúrbio. "Minha filha fotografa e me manda sempre que me vê nas reportagens", diz ele, há 20 anos na função.

Telejornais locais da TV Globo, como o "Bom dia Rio", são os mais requisitados devido à audiência. São unânimes ao eleger a melhor repórter. "Fátima Bernardes! Pena que não faz mais rua. Estive com ela no 'Jornal Nacional', quando cobriu o deslizamento do morro do Bumba, em Niterói [em 2010]. É gente boa!", recorda-se Oseias. "Só não gosto quando falam 'vagabundo, vai trabalhar'. Pago contas, tenho casa, não sou vagabundo", afirma Nil.

No dia a dia, a tática é de despiste. "Espero o repórter falar, acompanho pelo celular se já está ao vivo, finjo que não estou dando a mínima. Aí vou para a altura do ombro dele, e não tem como me tirar", diz ele, experiente.

Origem dos papagaios

Não se sabe ao certo quando surgiu a gíria "papagaio de pirata" para designar quem procura fama posando ao lado de pessoas em evidência. O nome deriva do fato de se posicionarem na altura dos ombros de quem dá entrevista. Oseias prefere outro termo: "Caçador de reportagens". O certo é que o meio político tem diversos personagens da mesma espécie.

O primeiro papagaio a ganhar notoriedade no país foi o deputado federal Wilmar Palis, ao surgir diversas vezes atrás do então candidato à presidência da República Tancredo Neves, em 1984. Durante o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, o então deputado federal Fabrício Oliveira (PSB) se posicionou rente à tribuna no Congresso, onde seus pares se dirigiam para fazer rápidos discursos "em nome de Deus e da família". A estratégia rendeu lucros políticos. No mesmo ano, Oliveira foi eleito prefeito de Balneário Camboriú (SC). E segue no cargo, tendo sido reeleito em 2020.

Entre os papagaios cariocas, a repercussão fez o prefeito Eduardo Paes brincar no Twitter recentemente, afirmando que pensava em criar extra-oficialmente o "sindicato dos papagaios de pirata".

Equipe de reportagem focaliza os 'papagaios de pirata' Nil (de chapéu), Oseias (camisa do Flamengo) e Célio Barreto (camisa do Brasil) - Ricardo Borges/UOL - Ricardo Borges/UOL
Equipe de reportagem focaliza os 'papagaios de pirata' Nil (de chapéu), Oseias (camisa do Flamengo) e Célio Barreto (camisa do Brasil)
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Bandido, não

Nenhum papagaio revela como sabe das pautas do dia. Bico fechado entre eles. Acordam cedo, por volta das 4h30, para que estejam no ar antes da primeira notícia no telejornal matinal. "Hoje foi fácil descobrir onde todas as TVs estariam. Elza era muito querida", diz Nil, que troca confidências das pautas com os parceiros.

Numa versão urbana e midiática das carpideiras do sertão nordestino, os papagaios são presença frequente em velórios de personalidades. É tiro certo que estarão no ar. Entre as situações mais absurdas que protagonizou, Nil relembra do velório do ator Jorge Lafond, em 2003. "Iam fechar a tampa do caixão quando cinegrafistas se aproximaram para o último registro. Me apoiei na tampa ao descerem o corpo. Caí na sepultura, fui primeiro que o morto! Foi desesperador sair do buraco", diz, aos risos.

A maturidade na função lhes fez serem mais seletivos. Antes apareciam nos telejornais de segunda a sexta. Agora, optam por duas a três diárias. Também escolhem melhor os enterros que frequentam. "Ia até em enterro de traficante, mas não quero que achem que sou parente de bandido. Quando é artista, aí sim, é bem frequentado, é velado no Theatro Municipal, vale a pena", diz Nil, que também "ajudou" a velar Tim Maia, Chico Anysio, Agnaldo Timóteo, João Gilberto, Bibi Ferreira. Não raro, recebe condolências de desavisados que o supõem parente do defunto famoso.

Vício igual cigarro

Em 2021, Oseias ganhou uma dentadura do jogador uruguaio Giorgian de Arrascaeta, ao aparecer com um cartaz para recepcionar jogadores do Flamengo no aeroporto. Dizia: "Me ajuda a comprar uma dentadura". Com sorriso estampado, ele resume o que os move. "É um vício igual cigarro para quem fuma. Se fico uma semana sem aparecer ao vivo, fico angustiado".

Nil concorda com o amigo. "Vou ficar em casa pensando besteira ou me entregando a bebidas, como muita gente da minha idade faz? Não! Prefiro vir pra rua atrás de reportagens."

Muito falante, avisa que está se lançando como compositor. Suas letras entregam o espírito jocoso das escapulidas. "Sou papagaio de pirata/ Moro na televisão/ Quando notícia no ar vai ter/ Pode ter certeza que vou aparecer". Ou ainda: "Empurra daqui e dali/ Eu quero é aparecer/ Fale mal quem quiser/ Sou papagaio de pirata e eles são mané (sic)".

Nem a covid-19 interrompeu a revoada de papagaios na televisão. Oseias só lamenta que a pandemia o fez ficar quase dois anos de máscara diante das câmeras. "Agora já tomei as três doses e a vacina da gripe, posso tirar a máscara para me notarem." Os papagaios têm seus motivos peculiares para torcer pelo fim da pandemia.