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Fisiculturista não se importa em viver menos para vencer Mr. Olympia

Lucas de Souza Lima não teme os efeitos dos treinos pesados para virar Mr. Olympia - Duda Gulman/UOL
Lucas de Souza Lima não teme os efeitos dos treinos pesados para virar Mr. Olympia Imagem: Duda Gulman/UOL

Felipe Pereira

Do TAB, em Suzano (SP)

30/04/2022 04h01

Lucas de Souza Lima, 24, pega os halteres da ponta do suporte, os mais pesados. Ele apoia o corpanzil no banco de supino e começa a fazer força. As costas e o peitoral incham, expondo o contorno dos músculos e tendões. As veias saltadas parecem o mapa hidrográfico da bacia amazônica. As costelas podem ser contadas de longe. Lucas puxando ferro é um atlas de anatomia.

Ele vai para o aparelho de tríceps e as costas ficam em evidência. É uma parede de músculos. De tão grande, a impressão é de que a distância entre a orelha e o ombro é o dobro da de uma pessoa comum.

Na ficha de treino lê-se que o exercício será repetido até o músculo falhar. Lucas é tão forte que, mesmo com quase todo o peso da máquina, isso demora a acontecer. Seu rosto fica incandescente de tão vermelho. É quando ele reencontra a sensação familiar de músculo queimando. A dor é bem-vinda. O sobe e desce só para quando os tríceps estão débeis.

Karina Silva do Nascimento, 25, não deixa o aparelho descansar. A mulher de Lucas também vai ao limite das forças. O sinal de que a falha do tríceps está próxima são os gemidos e os braços tremendo. À frente dela, Lucas olha com cara de paisagem.

Karina aparelho - Duda Gulman/UOL - Duda Gulman/UOL
Karina puxa o ar com força para que os músculos respondam erguendo muito peso
Imagem: Duda Gulman/UOL

No código do casal fisiculturista, desistir não é uma opção. Ela termina exaurida. Mexe os dedos como quem precisa se certificar de que ainda mantém o controle motor do corpo. Uma dupla de alunos da academia de bairro de Suzano (SP) acompanhava com rabo de olho. Eles acenam com a cabeça, reconhecendo a capacidade do casal de puxar ferro.

O que a dupla não consegue ver é que, naquele momento, Lucas e Karina estão renovando os votos matrimoniais. Aos 18 anos, Karina se impressionou com o menino fortão de 17 que apareceu na foto de um amigo do Facebook. Rolou stalkeada e pedido de amizade.

Lucas aceitou e os dois conversaram o dia todo. No final da tarde, já tinham virado crushes e ele a convidou para o primeiro encontro: irem treinar juntos. Os dois nunca mais se separaram.

No relacionamento deles, o fisiculturismo é exercício de amor e onde está abrigado o projeto de vida do casal: tornar Lucas campeão do Mr. Olympia, o principal título de fisiculturismo do mundo. Para isso, ele precisa passar pelo Arnold Sports Festival, evento em São Paulo que reunirá 85 mil aficionados por academia entre sexta-feira e domingo (29 de abril a 1º de maio).

Lucas pose - Duda Gulman/UOL - Duda Gulman/UOL
Lucas faz pose para o celular. Ele manda fotos para o treinador avaliar a evolução dos músculos
Imagem: Duda Gulman/UOL

Últimas forças

O treino acima aconteceu quarta-feira (27) e foi o último antes da participação de Lucas no Arnold. Pagou R$ 1.600 para concorrer. O campeonato também é a linha de chegada das complicadas 13 semanas que o antecedem.

Nesse período, chamado de pré-contest, Lucas se submeteu a uma rotina espartana. Levantou às 6h da manhã para fazer 50 minutos de exercício aeróbico em jejum. Na sequência, mandou fotos para o treinador nas poses que vai apresentar no Arnold.

O técnico é quem determina quantos litros de água, carboidrato, proteína e sal serão ingeridos no período. A mesa da cozinha do casal tem uma balança e nada vai para dentro do corpo sem ser pesado. Após a refeição, ele toma um remédio para controlar gases.

Dependendo da fase do treinamento, o fisiculturista chega a comer quatro quilos de comida e a beber 12 litros de água por dia. O nível de precisão é tão grande que o treinador fez os cálculos de minerais para o organismo de Lucas com base nas características físico-químicas de uma marca de água. Ele não pode tomar água de outra marca ou do filtro.

Lucas limite - Duda Gulman/UOL - Duda Gulman/UOL
Lucas vai até o limite do músculo no último treino antes da participação do no Arnold
Imagem: Duda Gulman/UOL

Além do limite

A rotina draconiana da última semana tem suas consequências. Ele sentiu náuseas depois dos treinamentos e dificuldade para dormir. O humor foi alterado e Karina se segurava ao receber as patadas do marido. Lucas sabe que se torna um cara difícil e conta que já chegou a socar a parede para extravasar a raiva.

Perguntado se não tem medo de colocar a saúde em risco, ele responde que está preparado para tudo para ser o Mr. Olympia. Até morrer mais cedo. "O esporte passa do ponto do saudável."

O título representa muito dinheiro e fama, mas o principal motivo não é financeiro. Karina conta que, há quatro anos, Lucas foi derrubar uma parede para construir o quarto da filha do casal, Alice, de 3 anos. Na primeira marretada, machucou as costas. Curado depois de fazer fisioterapia, deixou de treinar. Os dois anos em que o marido ficou encostado foram difíceis para ela.

Ela vê o esporte como uma provação. Desistir revela uma pessoa sem força de vontade, compromisso e caráter. O pacto que os dois fizeram na academia, desde o primeiro encontro, prevê todos esses requisitos. Fisiculturismo é a prática diária desta lista. Quando Lucas parou, deixou de ser o homem por quem Karina se apaixonou.

Depois de virar a noite no plantão, a enfermeira Karina vai direto para o treino com o marido - Duda Gulman/UOL - Duda Gulman/UOL
Depois de virar a noite no plantão, a auxiliar de enfermagem Karina vai direto para o treino com o marido
Imagem: Duda Gulman/UOL

Sete dias de furor

A semana que antecede o campeonato é chamada de depredação. Karina achava que era frescura até fazer sua estreia, em 2021. Chamada de "saco de osso" e "craquenta" no ensino médio, ela começou no fisiculturismo aos 15 anos para "ganhar um pouco de carne".

Nunca mais parou e virou atleta da categoria biquíni. Karina não esconde que a opção envolve "muita vaidade". "Se falar que não é, está mentindo. A gente se sente um mulherão. Se olha no espelho e fala: 'Nossa, tô muito foda'."

Karina nasceu em Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, e enfrentou problemas logo que entrou na adolescência. Saiu de casa aos 18 anos e tatuou nas costas a frase "livrai-me do mal", um trecho do Pai-Nosso. Ela não fala com os pais há dois anos.

Lucas é muito chegado à família e Anderson, o irmão mais novo, tem adoração por ele. Nascido e criado em Suzano, pouco saía de casa porque a mãe temia que fosse aliciado pelo tráfico. "O medo dela era que eu virasse um noia ladrão. Aqui tem uma galera bem puxada que gosta de umas paradas erradas."

palavrões - Duda Gulman/UOL - Duda Gulman/UOL
A dieta extremamente restritiva deixa Lucas irritado e Karina se desdobra para convivência ser pacífica
Imagem: Duda Gulman/UOL

Investindo milhões em músculos

Os amigos da escola de Lucas combinaram de se matricular na academia. O garoto de 13 anos vendeu uma máquina de lavar quebrada para pagar a inscrição. Hoje ele é fisiculturista em tempo integral.

Karina concilia os treinos com o trabalho de auxiliar de enfermagem. Funcionária de uma empresa de homecare, cuida de uma mulher acamada. Mas os planos do casal incluem uma mudança na carreira dela.

O posto a ser assumido é o de empresária do marido. Karina já dá as orientações de qual conteúdo produzir para as redes sociais, acompanha os treinos e faz contatos com os patrocinadores. O trato do casal prevê que Lucas se concentre em treinar e comer.

Manter a engrenagem demanda muito dinheiro. Cada uma das 13 semanas finais de preparação para o Arnold custou R$ 1 mil em alimentação. Nesse período, a conta de manipuladosbeira os R$ 10 mil.

Biceps -  Duda Gulman/UOL -  Duda Gulman/UOL
O bíceps de Lucas é tão grande que ele não consegue dobrar o braço para tirar a camiseta
Imagem: Duda Gulman/UOL

Mais medo de lesão que da morte

O que tira o sono de Lucas é romper um músculo. Competidor da categoria classic physique que é, ele busca a perfeição. O fisiculturista precisa ter o corpo em X — costas enormes, cintura fina e alargamento nas pernas. Ter definição muscular e simetria também é fundamental.

Quando sobe no palco, Lucas repete poses ensaiadas para ressaltar os contornos do corpo. O primeiro passo é executar o que se chama de "vácuo" — inspirar muito ar, encolher o abdômen e inflar o peito. A ideia é que cada pose mostre simetria e definição. Mas, com uma lesão grave, o homem que acredita ter genética de campeão não tem chance de cumprir os dois requisitos. As chances de ser Mr. Olympia acabariam para sempre.

Na sexta-feira (29), primeiro dia das competições, Lucas sonhava fazer sua última participação como amador. Levando o título, ele teria direito à carteirinha profissional. O fisiculturista não lesionou nada até ontem, mas sofreu um revés. Lucas teve problemas estomacais e concorreu como limitações no físico.

Karina acredita que houve problemas em alguma substância manipulada. O marido ficou tão frustrado que não quis falar do assunto naquele dia. Ele terminou sem o título.

O sonho de ser Mr. Olympia vai exigir ainda mais esforço. Lucas vai ter que por em prática o discurso de que a desistência não é uma opção.