PUBLICIDADE
Topo

'Jardim do Marcinho': na pandemia, professor dá aula ao ar livre na UFRJ

Marcio Tavares d"Amaral, professor de filosofia, dá aulas ao ar livre na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) - Zô Guimarães/UOL
Marcio Tavares d'Amaral, professor de filosofia, dá aulas ao ar livre na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Imagem: Zô Guimarães/UOL

Guilherme Castellar

Colaboração para o TAB, do Rio

14/05/2022 04h01

Após sair do prédio para fumar um cigarro, uma estudante de publicidade retorna pelo corredor central da faculdade, entra na sala 120 e atravessa as fileiras de carteiras vazias rumo a uma porta grande que a deixa novamente ao ar livre. É lá, no meio de um jardim interno arborizado, ao som de pássaros, sirenes e helicópteros, que irá assistir ao resto da aula de filosofia.

Desde o final de abril, a sala de aula do professor Marcio Tavares d'Amaral tem sido o jardim do pátio central do palácio que abriga a ECO-UFRJ (Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro), na Praia Vermelha, zona sul do Rio de Janeiro. Lá, ele ensina introdução à filosofia para uma turma de 37 calouros do curso de publicidade.

Apesar de a aula no ambiente externo guardar semelhanças com o método peripatético, originado do costume do filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) de ensinar seus discípulos enquanto passeava, a opção de Amaral foi mais mundana: excesso de zelo em razão da covid-19.

Professor emérito de filosofia, o docente de 75 anos — que seguiu e ainda segue com rigor os cuidados sanitários devido à pandemia — só se sentiu seguro para acompanhar a decisão da UFRJ de retomar as aulas presenciais depois de uma conversa com a diretora da ECO, Suzy dos Santos, que evoluiu para a ideia de se usar o belo pátio do edifício centenário como sala de aula.

Amaral foi voz discordante da resolução da UFRJ de não exigir distanciamento físico dos alunos nas salas — e, embora a máscara seja obrigatória nas dependências da universidade, a norma, como previa o professor, não vem sendo seguida à risca. "Na minha sala [126], os alunos ficariam se acotovelando. Eu queria um lugar aberto e bem arejado, em que eles pudessem estar numa distância razoável entre si", conta.

O professor concordou e se entusiasmou com a proposta da aula externa. Surgiu assim o "Jardim de Aula", em referência a outro filósofo ateniense, Epicuro (341-270 a.C.) — esse, sim, serve-lhe de inspiração, ao contrário de Aristóteles, diz.

"Há muito tempo digo que a universidade ganharia se fosse menos 'Academia', à maneira de Platão, onde se vai para estudar filosofia e se divide em aulas, disciplinas e departamentos, e mais 'O Jardim de Epicuro'", diz Amaral. Em 306 a.C., Epicuro abriu sua escola nos jardins de sua casa em Atenas.

O Jardim de Epicuro recebia qualquer um, incluindo velhos e mulheres, em oposição à Academia de Platão, fundada 80 anos antes e onde estudavam apenas homens jovens que eram preparados para compor a elite guerreira ou política ateniense.

Professor emérito de filosofia, o docente de 75 anos seguiu e ainda segue com rigor os cuidados sanitários da pandemia - Zô Guimarães/UOL - Zô Guimarães/UOL
Professor emérito, o docente de 75 anos ainda segue com rigor os cuidados sanitários contra a covid-19
Imagem: Zô Guimarães/UOL

Um jardim filosófico

Para que as aulas de filosofia possam ocorrer, a sala 120 deve ficar ociosa às terças e quintas-feiras, entre 13h50 e 16h. Uma porta lateral na sala é a única entrada disponível para o pátio central — no lado oposto, há uma segunda escadaria de acesso, porém, bloqueada, já que leva à ala administrativa. Mais cedo nos dias de aula, um funcionário enfileira cadeiras plásticas em quatro colunas no cimento que corta o jardim e, à frente, dispõe uma mesa e uma lousa branca.

Uma amendoeira, árvore não nativa do Brasil mas que domina o paisagismo urbano do Rio, é uma das dez árvores de diversos portes que ladeiam a sala improvisada. O pátio é cercado por dois andares de parede alaranjada vazados por inúmeras janelas de salas ou corredores. Nas do primeiro andar, volta e meia surgem curiosos que tiram fotos de Amaral e seu jardim de aula.

Esses jardins internos são típicos de edifícios neoclássicos que tinham funções hospitalares, como era o caso do Palácio Universitário, anteriormente Hospício Pedro 2°. Inaugurado em 1852, foi o primeiro hospital especializado no tratamento de doenças mentais no Brasil.

Antes de ser desativado em 1944, recebeu personalidades como o escritor Lima Barreto (1881-1922), que lá entrou para tratar o alcoolismo. Em "Diário do Hospício", o autor registrou: "Um maluco, vendo-me passar com um livro debaixo do braço, quando ia para o refeitório, disse: — Isso aqui está virando um colégio."

O vaticínio do doido se confirmou em 1952, quando o prédio se tornou a sede da Universidade do Brasil — depois UFRJ, em 1965.

Marcio Tavares d'Amaral, professor de filosofia, dá aulas ao ar livre na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) - Zô Guimarães/UOL - Zô Guimarães/UOL
'Na minha sala, os alunos ficariam se acotovelando. Eu queria um lugar aberto e bem arejado', diz professor
Imagem: Zô Guimarães/UOL

'Um privilégio'

A área externa ficou conhecida na diretoria como "O Jardim do Marcinho", em referência ao prenome do professor. Também foi oferecida a outros professores eméritos da casa. No entanto, os docentes que possuem comorbidades preferiram seguir com as aulas remotas. No segundo semestre, talvez o professor Muniz Sodré, 80, um dos fundadores da ECO, poderá dividir o espaço com Amaral.

"Uma aula de filosofia ao ar livre no meio de um palácio é um privilégio", orgulha-se a diretora Suzy dos Santos. "Com as ações afirmativas para ingresso na faculdade, nós temos também um papel de inserção muito forte. Então, poder se apropriar de cada pedacinho da universidade e democratizar o acesso a esses espaços, que são públicos, é fundamental."

E é uma iniciativa relativamente módica no contexto de aperto orçamentário da ECO, cujos recursos federais caíram de R$ 480 mil, em 2015, para R$ 108 mil no ano passado. Entre os poucos investimentos está a instalação de um microfone e de um toldo temporário, que estão sendo licitados.

Desde 2018, o professor trabalha com a proposta de "deixar a filosofia exercer o seu papel reflexivo, procurando dar sentido ao que acontece na vida enquanto nós a vivemos". Os anseios e as perdas da pandemia, de certa forma, geraram um material e tanto para as discussões filosóficas em aula.

"Nós levamos 2500 anos expulsando a natureza do mundo da cultura por a julgarmos ameaçadora, excessivamente múltipla e caótica, algo que não podemos dominar", filosofa Amaral. "Agora que nós convivemos com o morcego que nos transmitiu o vírus [da covid-19], a natureza rompeu a barreira e invadiu a cultura. Temos que entender isso para saber agir."

Alunos de Marcio Tavares d'Amaral, professor de filosofia, que dá aula ao ar livre na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) - Zô Guimarães/UOL - Zô Guimarães/UOL
Calouros do curso de publicidade têm aula de introdução à filosofia ao ar livre
Imagem: Zô Guimarães/UOL

Os discípulos

O assobio dos pássaros e o farfalhar das árvores até podem ser um estímulo à reflexão filosófica, mas são as buzinas e sirenes da via lateral, a congestionada rua Venceslau Brás, que dominam o ambiente. O professor relata que sua voz não tem sofrido com a falta de acústica do local e a ausência do microfone. Todavia, alunos das últimas fileiras reclamam que às vezes é difícil escutar o que diz o docente.

Os alunos citam outros contratempos, como a falta de apoio nas cadeiras para escrever. Mas parecem aprovar o formato e respeitar o zelo do professor septuagenário. "Falta acústica e apoio nas cadeiras para escrever, mas estar ao ar livre, sentir um ventinho bom... Às vezes cai uma merda na cabeça de alguém? Cai!, mas acho a experiência em si muito legal", avalia Gabriel Matos, 20, aos risos, referindo-se a imprevistos com os passarinhos que gorjeiam por ali.

Para outros, a aula de filosofia combina com o ambiente. "Nos sentimos na Grécia Antiga de Sócrates porque o Marcio é uma figura muito especial, com uma oralidade que é sua marca", comenta Indira Terciotti, 21. "Como estamos falando muito de natureza, ele [o professor] brinca muito, pega uma folha, faz algumas alegorias que mudam o estilo de aula que nós temos na escola", completa Matos.

Apesar de feliz com a experiência, Amaral está ciente dos estorvos do formato e, se a pandemia deixar, se vê voltando para a comodidade da sala 126. Caso se confirme, o fim do jardim será mais um ensinamento do professor de filosofia, ao demonstrar, na prática, porque historicamente a Academia de Platão prevaleceu ao Jardim de Epicuro.