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Quem é Laura Sabino, a youtuber que abriu ato de pré-campanha de Lula

Laura Sabino, estudante e youtuber, no campus da UFMG, em Belo Horizonte - Marcus Desimoni/UOL
Laura Sabino, estudante e youtuber, no campus da UFMG, em Belo Horizonte
Imagem: Marcus Desimoni/UOL

Leandro Aguiar

Colaboração para o TAB, de Belo Horizonte

25/05/2022 04h01

A estudante Laura Sabino, 23, saiu de sua casa em Ribeirão das Neves, na periferia da Grande Belo Horizonte, rumo ao Expominas, o maior centro de convenções da capital mineira, na tarde daquela segunda-feira 9 de maio, para encontrar milhares de militantes petistas — e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Convidada para o ato de pré-campanha de Lula, o primeiro após o lançamento oficial da pré-candidatura da chapa com Geraldo Alckmin (PSB), em São Paulo, Laura subiu ao palco com seu quase inseparável boné do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), e falou brevemente, abrindo a série de preleções de líderes partidários, ex-ministros e deputados que antecederam o discurso do presidenciável. "Estava muito ansiosa, mas foi um momento bonito. Vou lembrar desse dia pro resto da vida", conta.

A jovem marxista se destacou na internet por seu jeito descomplicado de abordar assuntos considerados espinhosos.

Entre vídeos no YouTube e TikTok, comentários no Twitter e postagens no Instagram, desde 2019 ela debate com seus mais de 120 mil seguidores questões como a associação da música sertaneja com o agronegócio, a captura de demandas feministas pela publicidade e o que ela chama de banalização do termo "privilégio" em benefício de uns poucos milionários — estes, sim, realmente privilegiados —, tudo em meio a citações de pensadores como Marx, Beauvoir e Bourdieu.

Escolher a estudante para abrir o ato de Lula sinaliza uma intenção da campanha do líder petista de trazer para si o eleitorado jovem, além de disputar com Jair Bolsonaro um território em que o atual presidente foi quase que hegemônico na disputa de 2018, a internet.

Laura Sabino, estudante e influenciadora digital, no campus da UFMG - Marcus Desimoni/UOL - Marcus Desimoni/UOL
Em 2016, Laura participou da onda de ocupações secundaristas; depois, ingressou na universidade federal
Imagem: Marcus Desimoni/UOL

Laura encontra Lula

Esta, entretanto, não foi a primeira vez que Laura e Lula se encontraram. A primeira foi no fim de 2019: Lula deixou a prisão em Curitiba e viajou a São Bernardo do Campo para reunir-se com correligionários; de Minas, Laura também pegou a estrada com destino ao Sindicato dos Metalúrgicos no ABC Paulista assim que soube que "Lula Livre" não era mais apenas uma hashtag, mas um fato.

Na época, ela já militava no MST, mas não era conhecida na internet. Conseguiu trocar umas palavras com o ex-presidente, agradecendo-o por suas conquistas — "cria da favela", como ela diz, Laura tinha acabado de ingressar no curso de história da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Ao que Lula respondeu: "Você está na faculdade não só pelas políticas públicas, mas também por mérito seu".

O segundo encontro foi recente, no dia 26 de abril. A assessoria do petista propôs que ela integrasse uma bancada de youtubers que entrevistaria Lula, e Laura então viajou de Minas a São Paulo a convite do PT.

A estudante não amaciou nas perguntas e nos comentários. Culpou a política institucional pelo desinteresse de muitos jovens pelas eleições, e, em dado momento, questionou o ex-presidente sobre a violência policial que, também em governos petistas, fustigava o dia a dia em Ribeirão das Neves, onde ela cresceu.

Lula reconheceu que o problema da violência é de difícil solução e discorreu longamente sobre o assunto. Mas gostou do desempenho de Laura, tanto foi assim que, dias depois, sua assessoria fez o convite para que ela abrisse o ato de sua pré-campanha na capital mineira.

"Dia louco", dizia a legenda de uma foto que Laura postou com o ex-presidente no Twitter. A imagem serviu de matéria-prima para uma fake news que viralizou: em uma montagem tosca, o rosto da estudante foi substituído pelo de Suzane von Richthofen.

Laura Sabino, no campus da UFMG - Marcus Desimoni/UOL - Marcus Desimoni/UOL
É com os jovens que a esquerda tem de dialogar, diz Laura, estudante de história da UFMG
Imagem: Marcus Desimoni/UOL

Revolucionária aos 6

Ao contrário da influenciadora Rita von Hunty, uma das vozes de esquerda de maior ressonância na internet, que criticou votar na chapa Lula-Alckmin no primeiro turno, Laura já declara seu voto no PT.

"Sou muito crítica ao Alckmin como candidato a vice-presidente, pelo que ele representa para estudantes vindos de escolas públicas como eu. Mas entendo que estamos num momento complicado", diz. "O que não dá pra entender são os ataques de parte da esquerda à Rita. Justo ela, que deu a cara a tapa nos momentos em que era mais difícil ser de esquerda no Brasil, quando enfrentamos o [ex-presidente Michel] Temer nas ruas e o [ex-juiz e ex-ministro Sergio] Moro ainda era considerado herói", pondera.

A estudante teve só dois dias para se preparar para o ato com Lula, o que para o professor universitário Heli Sabino, 52, pai de Laura, não foi problema nenhum. Isso porque, diz ele, ela já vinha se preparando para a militância de esquerda desde o berço — literalmente.

Quando Laura nasceu, Heli dava aulas em um programa federal de formação de professores para o MST. Desde criança, a garota gostava de acompanhar o pai nas visitas aos assentamentos.

Interessava-se também pelos livros que ele tinha espalhados pela casa. Certa vez, lembra o pai, uma professora pediu aos alunos que parassem de chamá-la pela alcunha de "tia". Para o espanto da educadora, Laura, aos 6 anos, emendou: "Professora, sim; tia, não", título de um livro de Paulo Freire publicado em 1993.

Poucas semanas depois, acossada pelo calor do verão, a menina liderou um piquete exigindo a instalação de ventiladores na escola. Os colegas aderiram, e a direção pedagógica teve de ceder.

Em 2016, Laura participou da onda de ocupações das escolas secundaristas, mas conta que viu parte dos novos militantes optarem por Bolsonaro em 2018. Isso porque, avalia ela, o político direitista soube, ainda que com propostas "vazias e falaciosas", nas suas palavras, encarnar o ideal de mudança que embalava a juventude. É com esses jovens que a esquerda tem de dialogar, diz.

Laura Sabino, estudante e influenciadora digital, no campus da UFMG - Marcus Desimoni/UOL - Marcus Desimoni/UOL
Entre YouTube, TikTok, Twitter e Instagram, Laura debate temas atuais citando Marx, Beauvoir e Bourdieu
Imagem: Marcus Desimoni/UOL

Jovens, uni-vos

Disposta a tomar parte na tarefa, a estudante foi à fonte do pensamento de tantos bolsonaristas: leu Olavo de Carvalho, Leandro Narloch e outros autores conservadores. Muitos de seus vídeos são análises dessas publicações, apontando o que ela toma por furos argumentativos ou desonestidade intelectual.

"Esses livros dão respostas simples a problemas complexos. Ainda que eu discorde dessas falsas soluções, esses autores se propõem a conversar com os jovens. A esquerda por muito tempo abriu mão de fazer esse debate fora do movimento estudantil", critica.

Bater de frente com a extrema direita, no entanto, tem consequências. Constantemente Laura recebe ameaças pela internet e ela já foi alvo de diversas notícias falsas.

Os ataques preocupam o pai, mas o sentimento que predomina é o orgulho. "Fico apavorado às vezes, mas é bom ver a mulher que ela está se tornando, comprometida com a justiça social", disse ele ao TAB na quinta-feira (19), no campus da UFMG, onde não poucos estudantes o reconheceram, interpelando-o: "Você é o pai da Laura, né?"

A fama súbita de Heli tem um motivo. É que, atendendo a pedidos de seus seguidores, Laura publicou um vídeo recentemente em que mentia ao pai, dizendo que estava apaixonada por um liberal, "que votou no Amoêdo". O progenitor a fulminou com o olhar e, sério, reagiu: "Não, Laura, não vem não, sô!"

Vídeos como esse são uma maneira de driblar os algoritmos das redes, que, segundo Laura, não privilegiam tópicos como a revolução do proletariado. Fisgados pelo humor, os novos seguidores tendem a ver mais vídeos, e, assim, engata-se o debate.

Uma ideia nova é produzir, junto de outros voluntários, um desenho animado nos moldes da animação cristã "Smilinguido", porém um tanto mais aventuroso. A previsão de estreia é 2023, e, nos bastidores, o projeto marxista vem sendo chamado por um curioso apelido extra-oficial, "Smilingrado".

Dentre as subdivisões que agitam os debates da esquerda, Laura se diz partidária das ideias de Antonio Gramsci (1891-1937). Grosso modo, o filósofo italiano apostava na educação política da população como uma forma revolucionária de romper com o que ele considerava como a dominação ideológica que as classes endinheiradas exercem sobre a maioria do povo.

Se estivesse entre nós, é possível que Gramsci visse na internet uma das trincheiras para tomar parte nessa disputa. Foi ali que Laura fincou sua bandeira vermelha.