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Felipe Simas, 'conglomerado de CNPJs' que produz Anavitória e Manu Gavassi

Felipe Simas, em seu escritório na rua Augusta, em São Paulo - Fernando Moraes/UOL
Felipe Simas, em seu escritório na rua Augusta, em São Paulo Imagem: Fernando Moraes/UOL

Sérgio Martins

Colaboração para o TAB, de São Paulo

31/05/2022 04h01

Em julho de 1982, o grupo carioca Blitz estreou nas rádios com "Você não soube me amar". Com seu rock juvenil - jocosamente chamado pela crítica daquele período de "rock de bermuda" - e uma combinação de música cantada e falada, o single vendeu 700 mil unidades e convenceu os executivos das gravadoras de que era viável investir na chamada música jovem.

Oito anos depois de seu estouro, a Blitz não tinha mais o apelo popular da estreia, mas ainda chamava atenção. O jovem Felipe Simas, então com dez anos, trocou a admiração por Zico, atacante do Flamengo, pelo som que havia acabado de escutar em duas matinês no Canecão, lendária casa de shows do Rio.

Entre um acidente de percurso e outro - chegou a trabalhar como produtor de congressos médicos -, ele é hoje um dos profissionais da música mais celebrados do país. Fez o começo das carreiras de Tiago Iorc, da dupla Anavitória e da cantora Manu Gavassi. Mais recentemente, abraçou a produção audiovisual: produziu filmes para o cinema e para plataformas de streaming.

Felipe Simas, 42, vem de uma família de classe média que se mudou da Tijuca, zona oeste do Rio, para o Leblon, assim que a prosperidade bateu à porta. O avô tinha laboratório farmacêutico; o pai é médico - uma ou outra ovelha desgarrada partiu para o mundo da música.

Uma delas foi Luiz Paulo Simas, tecladista que integrou o grupo Vímana ao lado de Lulu Santos e Ritchie, criador do "plim-plim" da Globo, mas com poucas lembranças do sobrinho. "Tivemos pouco contato", confessa o músico. Aos 18 anos, Felipe foi morar na Suíça com o pai e se encantou com o país europeu. "Eu podia andar tranquilamente de ônibus, os direitos das pessoas eram respeitados", afirma.

De volta ao país, em meados da década de 1990, decidiu ir morar em Curitiba. Simas trabalhou em empregos formais relacionados à medicina até que teve uma ideia ousada: contratar o Engenheiros do Hawaii para uma apresentação na cidade. "Os custos eram de R$ 7 mil e achei que, se juntasse 2.000 pessoas, teríamos lucro", diz ele, que convenceu o irmão de um amigo a vender o carro para bancar a apresentação. O grupo liderado por Humberto Gessinger juntou somente 800 pessoas, os dublês de promoter tiveram prejuízo e o amigo de Simas nunca mais quis trabalhar no ramo de entretenimento.

Felipe, contudo, persistiu. Começou a organizar festas, onde contou com um pouco de criatividade. "Cheguei a convencer uma funerária a ceder um caixão para um evento de Halloween", recorda-se. O passo seguinte foi a produção de shows. Em 2002, quando soube que Los Hermanos iriam tocar em Porto Alegre, convenceu Simon Fuller, empresário da banda, a dar uma passada em Curitiba.

"A apresentação se deu num local chamado Era Só o que Faltava, onde cabiam umas 400 pessoas. O show foi antológico, daqueles que quem viu jamais esquecerá. Voltamos algumas vezes para Curitiba, sempre com Felipe de produtor local", diz Fuller.

Como o roqueiro inglês Jim Capaldi havia acabado de gravar "Anna Júlia" com solos de guitarra de George Harrison, Los Hermanos foram vendidos pelo dono da casa como "a banda que fez a música que os Beatles jamais fizeram". Deu certo. Simas produziu outras apresentações dos Hermanos, além de Pitty e artistas internacionais como o grupo Evanescence.

Felipe Simas, o produtor de Anavitória - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Talento à procura de sucesso

Até que chegou a hora de trabalhar um artista que pudesse chamar de seu. E Fuller desempenhou um papel importante ao dar exemplos de como uma carreira artística pode ser bem conduzida. "Falamos da importância das escolhas do artista: elas nem sempre devem ser pautadas na parte financeira. Muitas vezes, o show certo no lugar certo, na hora certa, mesmo sem um grande êxito financeiro, poderia ser bem melhor do que um outro, com cachê bom, mas que não somaria nada para a carreira", diz Fuller.

Foi ainda em Curitiba que o empresário conheceu Tiago Iorc, que ainda cantava em inglês, tinha um single de boa repercussão na China, mas era tido como promessa. O empresário novato deu um rumo conceitual e profissional para Iorc. Evitou que ele caísse na MPB indie feita naquele período, que tinha resultados de impacto na mídia, mas de pífios resultados financeiros. "As bandas soavam como clones de Los Hermanos", lembra.

Outro passo vital foi abandonar os meios tradicionais de divulgação e investir nas mídias sociais, um campo descoberto no início da década de 2000. A mídia impressa, contudo, nunca foi deixada de lado. Simas era "o chato", aquele sujeito inoportuno - e extremamente necessário - que ligava para as redações a fim de convidar os repórteres de música para os shows de seu pupilo. Em 2010, a dupla migrou de Curitiba para São Paulo.

Com Tiago Iorc, Simas aprendeu a cortar custos. Quem lhe deu uma aula nisso foi Ítalo Gusso, empresário que trabalhava com comediantes de stand up. Ele mostrou que era possível fazer uma boa performance com o mínimo de condições do palco.

"Simas falava com entusiasmo do projeto com o Iorc, mas encontrava dificuldades em algumas cidades por causa do custo da operação. Sugeri que pensassem em viajar em 2 pessoas para um projeto 'voz e violão' e eu me encarregaria de recomendá-los", lembra o amigo. Simas e Iorc desenvolveram um projeto de voz e violão, compravam passagens áreas antecipadamente, a fim de garantir um bom desconto, e dormiam no mesmo quarto. O lucro era repartido entre a dupla. "Houve show que rendeu 96 centavos", lembra.

Até que um dia Tiago Iorc lotou o Credicard Hall, casa cuja lotação passa de 4;000 pessoas, durante um show especial do Dia dos Namorados. "Me virei para o Tiago e disse: 'Estouramos'."

Felipe Simas segura os seis Grammy Latino que levou pela produção de artistas como Anavitória e Tiago Iorc - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Felipe Simas segura os seis Grammy Latino que levou pelo seu trabalho com artistas como Anavitória e Tiago Iorc
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Um sozinho, depois uma dupla

Durante o período em que trabalhou com Tiago Iorc, Simas foi apresentado a uma dupla de meninas de Araguaína, cidade de 186 mil habitantes do Tocantins. Ana Clara Caetano e Vitória Falcão mandaram um vídeo contendo a versão delas para "Um Dia Após o Outro", de Iorc. Elas mostraram ainda uma canção de autoria de Ana. O empresário gostou do que assistiu, perguntou se havia mais canções. Sim, havia mais canções. O próximo passo foi convencer a dupla a vir a São Paulo, a fim de gravar um EP.

A dupla Anavitória e Felipe Simas - Breno Galtier/Divulgação - Breno Galtier/Divulgação
A dupla Anavitória e Felipe Simas
Imagem: Breno Galtier/Divulgação

"Anavitória", disco de estreia da dupla, foi produzido por Iorc e deu início ao folk fofo de boas vibrações que ganhou as rádios e TVs. Mas foi por pouco. Vitória lembra que, no início, a dupla fez uma participação no show de alguns amigos. "Não estávamos entrosadas e, quando olhei para a plateia, vi Simas balançando a cabeça", lembra a cantora. "Pensei que ele tivesse se arrependido de contratar a gente." A parceria deu certo.

"As meninas são o popular de verdade. Ouviam sertanejo e escutavam britpop e indie na internet. Misturam as referências sem preconceito", diz o empresário, que as batizou como HPop, ou melhor, pop híbrido.

Disputas irreconciliáveis

Felipe Simas e Tiago Iorc romperam em 2020, de uma maneira pouco amistosa. O cantor se recusou a liberar as canções que criou ao lado das pupilas para uma live e fez comentários pouco lisonjeiros ao empresário.

"O escritório que gerencia a carreira de vocês já trabalhou comigo [e] vem repetidamente sabotando meu trabalho e agindo de má-fé, causando danos, inclusive, financeiros", declarou Iorc, sem se aprofundar sobre quais seriam esses danos.

Simas, por seu turno, o processou - e ganhou - uma ação de danos morais. Em 5 de maio de 2021, Iorc foi condenado a pagar R$ 50 mil por ter abusado do direito à liberdade de expressão.

Felipe Simas e Manu Gavassi - Breno Galtier/Divulgação - Breno Galtier/Divulgação
Felipe Simas e Manu Gavassi
Imagem: Breno Galtier/Divulgação

Havia pelo menos dois antes, a relação já estava degringolando. Em depoimento nas redes sociais, logo após a recusa de Iorc em liberar as canções, Ana Caetano soltou um desabafo, dizendo que fazia pelo menos dois anos que ela e Vitória tentavam contato com o autor do álbum "Troco Likes". Segundo elas, o cantor não respondia aos seus pedidos. O próximo passo foi tirar Iorc da sociedade que era mantida pela dupla e por Simas.

Anavitória continuam no escritório de Simas, que conseguiu consolidar a trajetória das meninas: hoje em dia, além de folk fofo ou pop rural, como ele gostava de rotular no início, elas fazem canções com influências que vão da MPB tradicional a ritmos afro-brasileiros. Simas tem ainda no seu cast a cantora Manu Gavassi e Gita, uma menina de 14 anos que descobriu numa comunidade alternativa.

Conglomerado de CNPJs

Felipe Simas não gosta de ser chamado de empresário, prefere que digam que o seu trabalho é de personal management. Seu método consiste em arcar com as despesas e os lucros de seus contratados em uma espécie de sociedade. A maior referência nesse sentido vem de José Fortes, que há décadas trabalha com os Paralamas do Sucesso. "Temos uma construção conjunta de método de trabalho e relacionamento", diz Fortes. "Quero dar conforto para que os meus artistas tenham prazer no que fazem."

Existe uma preocupação com a agenda e para que a atividade artística não se torne maçante. Ele costuma bancar as próprias apresentações em vez de trabalhar por cachês e controla a média de apresentações dos contratados. "Sucesso é dormir no quarto de hotel, não em chão de aeroporto."

A F/Simas é segundo, seu criador, "um conglomerado de CNPJs" que coordenam desde apresentações até contratos comerciais. "Ele dá liberdade para os artistas no estúdio, quer que eles produzam o melhor que puderem oferecer", diz Jeff Pinas, que toca guitarra nos shows do Anavitória.

O foco nos últimos tempos são as produções audiovisuais. Em 2018, foi lançado um filme baseado na biografia da dupla de Araguaína, escrita e dirigida por Simas. Atualmente ele produz outro documentário sobre a dupla para o canal Disney. A mesma plataforma de streaming irá receber, no segundo semestre, "Tá Tudo Certo", minissérie que tem como pano de fundo os bastidores da indústria fonográfica.

Felipe Simas foi casado uma única vez e tem um filho, Leonardo, de dezoito anos, que trabalha na produção do guitarrista Duda Leindecker. Depois, viveu por dezoito anos com Lorenza, cantora que se tornou uma popstar no ramo de shows de casamentos. "Foi uma das melhores produções artísticas", diz ele, sorrindo.