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Quem é o artista por trás das capas da editora Martin Claret nos anos 2000

Claudio Gianfardoni, 59, marcou época fazendo capas de grandes clássicos da literatura para a editora Martin Claret - Keiny Andrade/UOL
Claudio Gianfardoni, 59, marcou época fazendo capas de grandes clássicos da literatura para a editora Martin Claret
Imagem: Keiny Andrade/UOL

Marie Declercq

Do TAB, em São Paulo

21/05/2022 04h01

Você pode não conhecer o artista paulistano Claudio Gianfardoni, 59, mas provavelmente já bateu o olho em uma de suas pinturas. A chance é ainda maior se você foi estudante durante os anos 2000 e comprou um dos livros de bolso da Martin Claret, editora que vendia clássicos da literatura e não ficção. Acontece que essas obras não chamavam atenção só pelo conteúdo, mas pelas capas que seguiam uma estética, digamos, curiosa.

O responsável pelas capas da Martin Claret foi Gianfardoni, e seu estilo era bastante característico. Na época, ninguém parecia perceber ou entender muito bem a escolha artística da editora. Hoje, os mais saudosistas apreciam as capas das edições de bolso como um fruto estético que só o kitsch brasileiro poderia gerar.

Os personagens retratados pelo artista invariavelmente carregam traços finos — quase andróginos — com um olhar de serenidade e cercados por uma cartela de cores abundantes com um toque etéreo, como se fossem envolvidos por uma névoa misteriosa. E não era restrito a um só gênero. Os rostos projetados por Gianfardoni ilustraram desde livros educativos sobre saúde até "Manuscritos Econômicos e Filosóficos", de Karl Marx, "Dom Casmurro", de Machado de Assis, e o "Kama Sutra".

"Sempre usei um conjunto de técnicas nas minhas pinturas, mas acredito que seja o aerógrafo que dê esse aspecto que você mencionou", explica o artista, que recebeu o TAB na casa onde trabalha e vive com a esposa, Lucia, 60, e o filho Maurício, 26, na zona norte de São Paulo.

Pelo preço acessível dos livros, as capas rodaram o país. Atualmente, a Martin Claret passou por uma repaginação e os capistas contratados passam longe do estilo de Gianfardoni. Dos anos 2000 sobraram as polêmicas em torno de a editora plagiar traduções de clássicos sem dar os devidos créditos e, claro, as capas do artista.

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O estilo de Gianfardoni ficou conhecido por centenas de capas que produziu nos anos 2000 para a Martin Claret
Imagem: Reprodução

Gianfardoni vive de sua arte há quase três décadas. "Não vivo, sobrevivo", corrige o pintor, com um tom de voz suave e articulado. Embora as centenas de capas que produziu para a editora tenham ganhado certa popularidade entre os leitores brasileiros, o artista não parece muito interessado na fama que seu trabalho gerou.

O que lhe interessa é continuar produzindo arte, seja pintando ou fazendo cerâmicas. E, segundo ele, tudo o que produziu, inclusive as capas, carrega um forte misticismo que sempre pautou seu trabalho. "Faço pinturas mediúnicas", revela.

Misticismo e arte

A parte central do trabalho artístico de Gianfardoni são as pinturas sob encomenda que faz desde os anos 1990. Na maioria das vezes, reproduções de mandalas de meditação e representações humanas que diz ter canalizado a partir das energias dos "Mestres Ascensos", que formam a chamada Grande Fraternidade Branca. Trata-se, segundo o artista, de uma forma de mediunidade expressa através da arte, em grande parte associada à teosofia.

Apesar do nome, a Grande Fraternidade Branca nada tem a ver com movimentos nazistas ou neonazistas. É a crença central da teosofia de que existe um grupo oculto de desencarnados, os Mestres Ascensos, que teriam chegado ao máximo da evolução e agora estariam em contato com quem ainda está na Terra, dando orientações para o caminho espiritual dos humanos.

São sete mestres ao todo, cada um representado por uma cor. Um dos mais conhecidos é Saint Germain, representante do raio violeta que é a essência da Grande Fraternidade Branca. De acordo com esse sistema, Saint Germain teve diversas encarnações em artistas proeminentes na história.

Esse caldeirão de sistemas esotéricos foi concebido pela russa Helena Blavatsky na segunda metade do século 19 e seguiu como uma das correntes mais influentes do esoterismo, inspirando o desenvolvimento do fenômeno New Age na década de 1970. Parece um sistema confuso de entender, mas a teosofia foi essencial para a existência de movimentos e grupos diversos ligados à ufologia, espiritismo e afins. Em tempo: a obra de Blavatsky foi revistada ao longo do século e questionada charlatanismo e concepções racistas ligadas ao eugenismo — que foi o pensamento científico hegemônico da época que viveu a autora. Gianfardoni concorda com os questionamentos. "Sei sim dessa controvérsia e repúdio totalmente qualquer manifestação racista no mais amplo sentido da questão", esclarece.

Polêmicas à parte, esse intrincado sistema de crenças gerou o trabalho de Gianfardoni. Para produzir as pinturas sob encomenda, ele pede que seja enviada uma foto do cliente. "Mas é muito importante que eu possa ver os olhos da pessoa", afirma.

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Artista é conhecido por pinturas de personagens conhecidos entre adeptos da influência espiritualista e Nova Era
Imagem: Keiny Andrade/UOL

História do olho

O contato com a arte e mediunidade começou quando Gianfardoni tinha entre 11 e 12 anos e sua professora de ciências mostrou uma foto do olho humano. Aquilo lhe fascinou até chegar em casa, onde se posicionou perante o espelho para observar os próprios olhos. Esse exercício de observação continuou, deixando o jovem cada vez mais absorto nos detalhes que captava pelo espelho. Sem perder a consciência, sentiu que estava se deslocando para outro lugar.

Foi assim que fez sua primeira viagem astral. "Fiquei com muito medo na época", relembra.

As viagens astrais, nome que só descobriu mais tarde, causavam a sensação de deslocamento para outro estado de consciência, tendo os olhos como porta de entrada. Gianfardoni descreve a sensação como ser lançado para o espaço, mas um espaço escuro, desconhecido. De certa forma, sem saber, começou ainda jovem a praticar meditação olhando para uma mandala — no caso, o próprio olho. Por conta dessas experiências, passou a desenhar olhos obsessivamente em cadernos, em folhas e na carteira da escola.

As "viagens" cessaram na adolescência, mas o artista conta que uma série de eventos que se desenrolaram na sua vida adulta foram chave para entender o motivo por trás de suas obras mediúnicas.

Antes de o filho nascer, Lucia foi diagnosticada com uma endometriose grave, que colocou em risco sua vida e a possibilidade de engravidar. Foram meses de tormento até conseguirem, milagrosamente, os remédios caríssimos para tratar da doença. Contrariando as expectativas, ela também conseguiu engravidar.

Em resposta ao cansaço emocional que passou com a doença da esposa e a expectativa da paternidade, Gianfardoni entrou em um quadro de depressão profunda. O que o salvou, conta, foi uma terapeuta que o apresentou à prática de meditação transcendental tibetana.

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Gianfardoni faz 'pinturas mediúnicas' sob encomenda e ficou conhecido no meio esotérico na base do boca a boca
Imagem: Keiny Andrade/UOL

Liberdade artística

A prática contínua da meditação o fez voltar com as mesmas "viagens" que fazia quando era jovem e, com isso, voltou também a desenhar olhos humanos no papel. Aos poucos, o artista passou a desenhar fisionomias, e acabou descobrindo na teosofia que esses rostos estavam relacionados aos Mestres Ascensos. "Foi esse o caminho da arte", resume.

Dos quadros por encomenda, passou a fazer capas para a editora de livros esotéricos Madras e assim, no começo dos anos 2000, chegou à Martin Claret. O trabalho era intenso. Chegou a fazer até duas capas de livros por semana, somando mais de 200, produzidas durante os três anos de parceria. A liberdade artística era total.

"Mas é uma estimativa, realmente não lembro quantas eu fiz", responde o pintor enquanto observa algumas delas, devidamente enquadradas, na parede do ateliê. Sua favorita, conta, foi a que deu a vida para "Senhora", romance de José de Alencar. "Acredito que consegui retratar a intensidade da personalidade criada pelo autor, fiquei satisfeito."

A parceria durou apenas três anos e terminou depois de divergências profissionais, sobre as quais Gianfardoni evita dar mais detalhes. "Mas foi em bons termos", esclarece.

Furando a bolha

Gianfardoni não é chegado em redes sociais e também não parece muito à vontade com a ideia de aparecer demais para divulgar seu trabalho. Foi no meio esotérico em que conquistou notoriedade, graças ao boca a boca, e de onde chegam a maioria das encomendas por uma de suas obras mediúnicas, que custam a partir de R$ 750.

Só recentemente começou a divulgar seu trabalho em uma página pessoal no Instagram, criada pelo filho. Até então, gostava de interagir pelo Facebook. Os pedidos, no entanto, nunca pararam de chegar e, por isso, Lucia às vezes fica encarregada de organizar a agenda do marido. "Mas tem mais curioso do que gente querendo comprar", lamenta.

Mesmo com Gianfardoni avesso à notoriedade, as reproduções de suas obras tendem a circular pela internet. Não é raro encontrar uma pintura sua ilustrando grupos, blogs e sites ligados a assuntos místicos. Por conta disso, as obras viraram, sem querer, uma estética marcante do esoterismo brasileiro.

"Meu estilo é bem espontâneo, não sei dizer como cheguei até ele e nem porque ficou tão característico", divaga. "Para mim, o importante sempre são os olhos".

ashtar sheran - Reprodução/Wikimedia Commons - Reprodução/Wikimedia Commons
O retrato de Ashtar Sheran foi feita sob encomenda e se tornou uma das obras mais conhecidas de Gianfardoni
Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons

O maior exemplo é a pintura que fez da representação humana de Ashtar Sheran. A reprodução circulou tanto pela internet a ponto de virar um meme obscuro sobre grupos virtuais ligados a teorias da conspiração e esoterismo no geral.

Gianfardoni até reconhece que a pintura circulou mais do que ele esperava, mas diz não lembrar dessa encomenda em especial. "Não me lembro do nome da mulher que pediu e nem do ano exato, acho que foi em 2008. Mas estou chutando, não sou muito bom com datas", diz.

Ao ver a reprodução do seu quadro na página da Wikipédia sobre Ashtar Sheran, surpreende-se. "Olha só, que legal", diz, contido. Logo em seguida, volta os olhos para o desenho que estava fazendo, sem perguntar mais sobre a fama em torno de sua obra.

Ashtar Sheran, a propósito, é um comandante da federação estelar responsável pelo quadrante da galáxia onde fica o planeta Terra, segundo a teosofia. Em resumo, é um ser extraterrestre, um ser que também atingiu um nível de consciência superior e frequentemente faz visitas para algumas pessoas por meio de sonhos e aparições.

De acordo com relatos colhidos por ufologistas, as pessoas que viram Ashtar o descreveram como um homem alto, loiro e branco. "Acredito que ele retrata bem como o inconsciente coletivo enxerga um extraterrestre", explica Gianfardoni, concentrado em terminar o esboço do retrato de uma xamã no papel onde se destacam, principalmente, os olhos.