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Sem receber peças por causa da 'cracolândia', dono de oficina decide fechar

Maury Cesar Maia na entrada do escritório que pretende desocupar, após fechar a oficina por causa da cracolândia Imagem: Felipe Pereira/UOL

Felipe Pereira

Do TAB, em São Paulo

13/06/2022 04h01

Quando houve a primeira apreensão de crack no Brasil, em 1990, a mecânica Femavi já ocupava um prédio da Rua Helvétia, no centro de São Paulo. Em maio, a oficina ganhou um novo vizinho: o fluxo. Trata-se do coração da cracolândia, local da feira livre de drogas que funciona a céu aberto e onde centenas de usuários abastecem seus cachimbos e cérebros de crack.

Segunda geração da família à frente da Femavi, Maury Cesar Maia, 44, chegou para trabalhar e descobriu a multidão de usuários sentados de uma esquina à outra do quarteirão. Não havia como chegar à porta da oficina. O empresário precisou desenrolar com os dependentes.

"'Família, preciso da ajuda dos irmãos para passar com o carro.' Com 40 anos de Helvétia você viu de tudo, não se assusta e fala a linguagem deles."

Maia compara o efeito de suas palavras ao cajado de Moisés, e diz que o mar de gente se abriu depois do pedido. Funcionou, mas a proximidade com o fluxo seria avassaladora para o negócio. Desde aquele dia, o motoboy que entregava peças se recusa a aparecer. Mesma coisa com o Mercado Livre e outras compras na internet. Até os boletos não chegam mais.

A oficina é especializada em câmbio automático e 60% dos clientes moram no endinheirado bairro de Higienópolis. Quem apareceu na Femavi naqueles dias saiu traumatizado, relata Maia. A esperança de que a situação fosse passageira se esvaiu quando a Prefeitura podou as árvores para que os drones da polícia e da GCM (Guarda Civil Metropolitana) pudessem monitorar os usuários.

"Tive certeza que aqui seria a casa deles."

Funcionário trabalha em um dos últimos carros a serem consertados na oficina vizinha ao fluxo Imagem: Felipe Pereira/UOL

O empresário tomou uma decisão triste e definitiva: fechar a Femavi. Restava consultar Heitor Batista Maia, 72, seu pai e sócio. Ele respondeu que o filho estava na mecânica desde os seis anos e tem amplas condições de tomar a decisão mais correta. Antes de colocar o plano de fechamento em prática, Maia parou para refletir por algumas horas. Queria ter certeza de que não estava agindo no calor das emoções.

Não faltavam motivos para estar abalado. A conversa com o pai aconteceu no dia da poda e os galhos foram deixados na calçada, na frente da porta da oficina. Uma faixa fora colocada para demarcar o espaço que seria destinado ao fluxo e a mecânica estava dentro do perímetro. Carros da Polícia Militar e da GCM ficariam 24 horas por dia monitorando a rua e revistando quem passasse.

Com a cabeça mais fria, Maia continuou achando que o certo era fechar o negócio. No final do dia, ligou para a imobiliária avisando que entregará o imóvel em julho. A única notícia positiva desde então foi a remoção dos galhos e o recuo da faixa para o final do terreno da oficina. O lojista não precisaria mais pedir licença aos usuários para entrar e sair com os carros.

Para evitar que os clientes vejam o fluxo, Maury leva os carros a eles e volta a pé ou de metrô para oficina Imagem: Felipe Pereira

Uma nova carreira: personal car

Maury Maia comunicou a decisão de encerrar as atividades aos quatro funcionários e tratou de minimizar os danos. Quando um cliente liga relatando problemas mecânicos, sugere buscar o carro na casa ou no trabalho dele. Na hora da devolução, mesma coisa. Se o cliente insiste em trazê-lo pessoalmente, Maia pede para deixar em oficina de amigos da região central de São Paulo.

Os pedidos de peças são feitos para o endereço desses amigos. Mas, conforme o tempo passa, ele tem certeza de que faz bem em fechar a oficina. O serviço que vai oferecer é o de personal car. Assim como um personal trainer cuida de todos os detalhes de uma sessão fitness, Maia fará tudo envolvendo carro: serviço de despachante, revisões, consertos, contratar e acionar seguro, compra e venda e até levar para abastecer, se for preciso.

Ele acredita que vai manter parte da clientela fixa da Femavi. Acrescenta que o contratante estará recrutando os serviços e a expertise de um especialista no ramo que frequenta oficinas desde os seis anos.

"Meu cliente quer meus olhos cuidando do carro dele."

Maury Maia diz que pensa em mudar de atuação desse a crise financeira iniciada no governo Dilma Rousseff (PT). Na ocasião, começou a pegar empréstimos e chegou a pagar R$ 7 mil mensais de juros para banco. A saúde financeira nunca mais foi a mesma. Na pandemia o movimento caiu 80%.

Ele acredita que ser vizinho do fluxo terá o mesmo efeito do coronavírus e decidiu agir antes da derrocada.

Por causa do fluxo, haverá um dia em que Maury deixará a oficina para não voltar mais Imagem: Felipe Pereira/UOL

A aproximação do fluxo

A Femavi foi aberta pelo pai de Maury em 20 de março de 1980, data de aniversário de Fernanda, a filha mais nova. O nome é junção da primeira sílaba do nome dos três filhos de Heitor: Fernanda, Maury e Viviane. A especialização em câmbio automático foi natural porque Heitor trabalhava na Ford justamente nesse setor.

No ano seguinte à inauguração da oficina, a polícia norte-americana registrava as primeiras ocorrências envolvendo crack nos Estados Unidos. Documento da Drug Enforcement Administration (agência de combate ao tráfico de drogas) aponta apreensões em Los Angeles, San Diego e Houston.

A droga se alastrou até o Brasil e Maury conta que usuários passam em frente à oficina há décadas. A primeira concentração propriamente dita ocorreu no começo da pandemia, quando entre 20 e 30 pessoas começaram a dormir na sua calçada e na dos vizinhos. Nunca houve violência, mas antes de abrir a oficina era preciso lavar a calçada para retirar urina, fezes e vômito.

Nada que mudasse o andamento dos negócios até o fluxo virar vizinho e motivo do fechamento da mecânica. Maia não tem preocupações financeiras porque confia na expertise para triunfar no novo ramo. A maior perda é emocional. Ele frequenta a oficina do pai desde pequeno. Era aquele moleque curioso que enchia o saco dos mecânicos para apertar um parafuso.

"Tô enfiado embaixo de carro desde os 6 anos de idade. Se meu pai não me trouxesse [para oficina], eu ficava bravo."

Maury encara o relógio ponto, que está na oficina desde a fundação, em 1980, e tem mais tempo de casa que o dono Imagem: Felipe Pereira

Com 9 anos, ele montava freio de Landau e Maverick (alguém revisava depois) e se tornar sócio da mecânica foi natural. Com o passar dos anos, o gosto pelos carros aumentou e o amor e a admiração por Heitor se multiplicou. "Meu pai é meu herói."

Além de herói, o pai foi parceiro. No ensino médio, Maury resolveu levar um carro desmontado para a feira de ciências do colégio Mário Marques de Oliveira. Ele e o pai permaneceram na oficina várias noites desmontando motor, freio, suspensão, câmbio. Além de aprender como as peças "conversavam" para o carro andar, Maury foi feliz convivendo com Heitor.

Nessa pedagogia do amor, recebeu a lição de que coisas difíceis, como um moleque levar um carro desmontado para aula, saem do papel quando se trabalha duro e com as pessoas certas. Heitor está afastado da oficina por problemas de saúde — fez uma cirurgia de ponte de safena no início de junho.

Faltam seis carros para serem consertados e um Fusca deixado para restauração será devolvido para o dono Imagem: Felipe Pereira/UOL

A seis carros do fechamento

O coração tirou o pai da Femavi e uma série de acontecimentos alheios à vontade de Maury levará ao fechamento da oficina. Em 17 de março, o crime organizado mudou o fluxo para a Praça Princesa Isabel. Em 11 de maio, forças de segurança expulsaram os usuários da praça, que acabaram virando vizinhos de Maury. No final de tarde, o batuque improvisado no fluxo abafa os sucessos sertanejos que tocam na rádio Nativa FM, responsável pela trilha sonora da mecânica.

Quando chega a pé da entrega do último carro do dia Maia percebe o pagode e também nota que o fluxo dobrou de tamanho. São quase 18h e os funcionários já foram embora. A oficina está escura e ele dá a última checada antes de baixar a porta. Deixa para trás os seis carros que serão consertados antes de encerrar uma história de 42 anos. A Femavi repete o destino da Ford no Brasil. Vai se despedir.

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