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Ferrari ameaça processar salão de cabeleireiro do DF que usa seu nome

Sebastião tirou nome Ferrari da fachada e colocou faixa, avisando que mais mudanças virão - Divulgação
Sebastião tirou nome Ferrari da fachada e colocou faixa, avisando que mais mudanças virão Imagem: Divulgação

Felipe Pereira

Do TAB, em São Paulo

09/06/2022 09h53

O nome Ferrari remete à empresa italiana bilionária que fabrica carros de Fórmula 1 e esportivos desejados e inacessíveis. O Ferrari Cabeleireiros Unissex é um completo desconhecido. Atende a um punhado de clientes em Paranoá, região periférica do Distrito Federal formada a partir de acampamentos remanescentes da construção de Brasília. O salão de beleza pertence a Sebastião Dias, 46, microempresário que terminou o ensino médio em 2013 fazendo supletivo e até hoje tem dificuldade de ler.

Por esse motivo, correspondências e boletos sempre foram abertos pela mulher. Ela estava entre assustada e atônita quando entregou para o marido um envelope preto pomposo. Foi logo explicando que se tratava de uma notificação da Ferrari italiana, cobrando R$ 50 mil por uso indevido da marca. A conta incluía R$ 10 mil de honorários advocatícios. O texto acrescentava que esses eram os termos para encerrar a questão de forma amigável. Sebastião copiou a mulher: ficou entre assustado e atônito.

"Primeira coisa que passou na cabeça foi que eu ia ser preso. Não teria condição de pagar e iam tomar tudo que construí."

A correspondência foi aberta em 26 de maio e o casal não contou para ninguém. Parecia tudo muito irreal e Sebastião ficou matutando. A Ferrari divide seu tempo entre corridas e salões de automóveis e não fazia sentido se importarem com um salão de beleza. A montadora não está mal das pernas: bateu recorde de venda em 2021 e faturou R$ 22,4 bilhões. Desconfiado de golpe, o empresário procurou uma advogada para descobrir se a notificação era verdadeira.

"Ela viu que era de uma empresa de advocacia de São Paulo que presta serviço para a Ferrari e disse que era verdade."

O escritório paulista se chama Ariboni, Fabbri & Schmidt. A reportagem do TAB procurou os advogados e ouviu que não há possibilidade de fornecer mais informações porque a Ferrari não autoriza manifestações sobre o caso. Dessa forma, não foi possível perguntar se outras empresas brasileiras que usam o nome Ferrari serão acionadas a pagar ressarcimento.

Uma pesquisa no Google resulta em vários salões de beleza que levam Ferrari no nome. O mesmo ocorre com empresas de diversos setores. Por enquanto, a insatisfação se manifestou somente em Sebastião. O nome Ferrari Cabeleireiros Unissex não foi considerado homenagem, mas exploração.

A marca italiana não foi a única fonte de perturbação recente. Na terça-feira (7), uma mensagem de remetente desconhecido com conteúdo racista apareceu no WhatsApp de Sebastião: "Odeio negro". Ele registrou boletim de ocorrência e reclamou numa live. Chamou o autor da frase de sem-vergonha, afirmando que tem orgulho da sua pele.

WhatsApp  - Divulgação - Divulgação
WhatsApp racista recebido por Sebastião que levou a registro de boletim de ocorrência
Imagem: Divulgação

Empresário não gosta de corrida

Em meio ao turbilhão, o sossego do casal desapareceu. Situações de ansiedade sempre se manifestaram em forma de alergias no pescoço da mulher de Sebastião, que coçam desde 26 de maio. O empresário não conseguia mais pegar no sono e ficava rolando na cama imaginando a rotina na prisão, o leilão dos bens e outras formas de ruína.

"Passei uma semana sem dormir direito, insônia. Só que refleti e pensei que é por isso que pessoas vão para a depressão, ansiedade. Mas me fortaleci e resolvi ficar tranquilo."

A notificação inicial cita má-fé por parte do salão no uso do nome Ferrari. A situação é muito irônica. Sebastião jamais gostou de Fórmula 1 e de automobilismo no geral. "Nunca vi corrida! Não tenho paciência e nunca curti."

Sebastião não batizou o salão de Ferrari; ele herdou o nome. O Ferrari Cabeleireiros Unissex era seu vizinho e concorrente entre 2002 e 2006. O antigo dono não era do ramo e vendeu o negócio para Sebastião, que conta jamais ter tido uma camiseta, capa de celular, caneta ou boné falsificado da marca italiana. Mas, como era um nome reconhecido pela clientela de Paranoá, foi mantido.

O antigo dono, sim, era fã de corridas. No dia em que deixou o salão, juntou suas coisas num Fiat Tempra cheio de acessórios falsificados da Ferrari. Até um cavalo rampante, símbolo da montadora, o carro tinha. O logo estava na fachada do salão recém-adquirido e Sebastião herdara um cavalo de Troia.

Sebastiao - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
Dono do salão que precisou mudar de nome as pressas diz que não tem raiva da Ferrari
Imagem: Reprodução Instagram

Mudanças na fachada e no nome

Além de checar que não se tratava de golpe, a advogada contratada por Sebastião fez uma série de recomendações para contornar a história. A primeira foi escrever ao escritório Ariboni, Fabbri & Schmidt, comunicando que haveria mudanças no salão de beleza. A fachada foi alterada, os uniformes com nome e logo da Ferrari foram aposentados e os conteúdos no Google e redes sociais foram apagados.

Sebastião acreditava que havia feito todo o serviço, mas na sexta-feira passada (3), outra correspondência apareceu. O pescoço da mulher respondeu na hora. O empresário tinha 72 horas para tomar uma série de medidas.

"Eu esqueci de tirar [as imagens] da página do Facebook e eles mandaram uma nova notificação para registrar nova empresa, enviar o protocolo e foto da fachada nova, provando que não tinha mais a marca [da Ferrari] Imediatamente eu fiz."

O empresário não sabe se o problema está resolvido ou não. Todas as exigências foram cumpridas, registradas em imagens e documentos e comunicadas por e-mail ao escritório de São Paulo. Agora é esperar.

Empresário numa sentou na frente da TV para ver a dupla Schumacher e Rubinho - Divulgação - Divulgação
Empresário numa sentou na frente da TV para ver a dupla Schumacher e Rubinho
Imagem: Divulgação

Indenização não foi paga

Entre todos os termos da notificação, existe um que Sebastião declara não ter condições de cumprir. O empresário conta que não possui os R$ 50 mil que a marca italiana pede como compensação por usar seu nome. O mesmo vale para os R$ 10 mil em honorários dos advogados.

Ele afirma que ainda está se restabelecendo do baque da pandemia e o longo período de portas fechadas, seguido de baixa clientela. Como exemplo, cita que antes da covid-19 existiam 12 funcionários. Agora, quando a situação começa a deslanchar, são 10 pessoas trabalhando no salão.

O ponto comercial é composto por duas alas bem distintas. A masculina oferece serviço de barbearia, corte de cabelo e é menos movimentada. O faturamento depende mais da parte feminina de corte e manicure.

Com exceção da mensagem racista, as demais manifestações são de solidariedade e apoio. Na quarta (8), Sebastião esteve no Sebrae e ouviu palavras de incentivo. Não se conteve e chorou bastante. Disse que se sente um pingo d'água e considera a Ferrari o mar. Mas não há raiva.

"Não fiquei chateado com a Ferrari, mas chateado com a situação que aconteceu. Um cara pequeno e uma empresa milionária. Respeito porque é a marca deles, mas nunca usei de má-fé."