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A brasileira que responde cartas enviadas ao túmulo de Julieta, em Verona

Andreia Caetano, a brasileira que responde às cartas enviadas ao túmulo de Julieta, em Verona Imagem: Paula Maria Prado/UOL

Paula Maria Prado

Colaboração para o TAB, de Jacareí (SP)

18/06/2022 04h01

Vestido rosa de bolinhas com babados, botões perolados e um laço no pescoço. Na sapatilha, as mesmas rosas que enfeitam as paredes do apartamento. Andreia Caetano é assumidamente romântica.

Natural de Jacareí (SP), a artesã e professora de arte de 48 anos põe a mesa com cuidado e delicadeza. Xícaras com asas coloridas, chá de lavanda e bolo Romeu e Julieta (com cobertura de goiabada com queijo)... Ou seria Giulietta? "Prefiro usar a grafia italiana", conta ela.

Andreia é uma das voluntárias — a única no Brasil — que colabora com o Club di Giulietta, organização italiana que responde às cartas de milhares de pessoas enviadas para Julieta, personagem da peça clássica de William Shakespeare (1564-1616). Lançada em 1597, "Romeu e Julieta" conta a história de dois jovens de famílias rivais que se apaixonam. Impossibilitados de viver esse amor (perdoe, leitor, porque lá vem spoiler), preferem a morte.

Na trama, o corpo de Julieta é enterrado no convento de San Francesco al Corso, um monastério que existe de verdade nos arredores de Verona, na Itália. A instituição, por isso, virou oficialmente o lugar do túmulo da personagem. Um sarcófago vazio foi instalado na década de 1930 e tornou-se uma atração popular. É lá que chegam as cartas de turistas em busca de conselhos.

Guardião do túmulo, Ettore Solimani foi o primeiro a recolher as missivas e respondê-las. Até que, em 1972, Giulio Tamassia e um grupo de artistas e intelectuais, dando continuidade ao trabalho, fundaram o clube, hoje sob comando de Giovanna Tamassia. Atualmente, Julieta recebe cerca de 8 mil cartas por ano, todas respondidas por voluntários e, posteriormente, arquivadas.

Andreia Caetano conta ter descoberto o clube em 2013, quando foi a Florença, na Itália, para fazer um curso de arte. "Assim que voltei ao Brasil, entrei em contato para saber como funcionava. Em 2015, voltei ao país e passei 15 dias respondendo às cartas em português", conta ela.

Eram tantas as cartas que ela trouxe algumas para casa. "Eram mais de 300. Muitas são escritas por brasileiras em busca de conselhos amorosos", revela Andreia, que se apaixonou pela língua italiana ao estudar arte.

No começo, a ideia era treinar o idioma — apesar de responder em português, Andreia precisa sempre enviar ao clube um resumo do que foi dito, em italiano. A missivista costuma ser ouvinte até de desconhecidos. "Meu filho fala que sou ímã. As pessoas vêm até mim contar suas histórias!", diverte-se. Às vezes, Andreia Caetano passa meses sem receber cartas. Mas, no geral, cerca de 10 correspondências são respondidas por ela todo mês.

A artesã mostra os vários rascunhos de cartas que guarda em casa, sempre feitos à lápis no papel do próprio clube — as que envia são feitas a caneta. "Essa aqui eu respondi para um garoto que contou que briga muito com a irmã. Essa outra foi para uma menina que estava chateada porque seu pai trabalha longe de casa. Mas a maioria é como essa aqui, que enviei para uma moça. Ela estava preocupada em retomar o casamento", enumera. Por alguma razão ainda insuspeita, nos últimos anos Andreia recebe mais cartas de adolescentes que de adultos.

A regra do clube é jamais opinar. A réplica precisa ser positiva e otimista, num tom conciliador e gentil. Certa feita, chegou às suas mãos a carta de uma brasileira que parecia viver um relacionamento abusivo, e Andreia não pode opinar: recomendou que a moça pensasse mais em si e buscasse a felicidade acima de tudo. A Julieta da ficção talvez fosse instada a não fazer o que fez.

Imagem: Paula Maria Prado/UOL

Palavras positivas

Com a tecnologia, muitas das histórias de amor, decepções e questões que ninguém mais quer (ou pode) ouvir, exceto, claro, Julieta, começaram a chegar via e-mail do clube. "Evito responder quando não estou em um dia bom. No mais, pego o celular, leio a mensagem e já retorno por ali mesmo. No começo eu demorava bastante para escrever, mas hoje entendo que as pessoas buscam palavras positivas. Nunca dou minha opinião, mas escrevo mensagens que as façam pensar na situação em que estão vivendo sob outras perspectivas", afirma.

Além da jacareiense, outra voluntária brasileira mora em Verona e ajuda a responder às cartas em português. Aquelas que chegam de forma digital são respondidas por e-mail. As recebidas em papel retornam via correio.

"Neste caso, eles me enviam a carta escaneada por e-mail ou a original pelo correio. Eu recebo e respondo aqui no Brasil, devolvo para o clube e eles ficam responsáveis pelo envio ao destinatário."

Mas, afinal, qual a letra da Giulietta? A professora de arte ri. "Escrevo com a minha letra mesmo. Imagino que seja uma letra redonda, bonita, né?", diz. "Coloco um coração no final de todas as cartas logo ao lado da assinatura."

As cartas-resposta de Andreia Caetano Imagem: Paula Maria Prado/UOL

Escuta e empatia

"Vamos experimentar juntos! Nunca comi esse bolo. Mas achei que seria bom para já entrarmos no clima", disse Andreia, enquanto todos se serviam de uma fatia de Romeu e Julieta. Totoro, o cachorrinho, circulava entre a mesa de café e o sofá, onde estava seu marido, César. "Ele é um grude com ela!", avisa.

Ainda na sala, uma cristaleira — pintada por Andreia — guarda inúmeros bibelôs de viagens. "Alguns ganhei, outros comprei. Adoro colecionismo, gosto de olhar e saber que cada item tem sua história", disse ela, escolhendo a dedo entre vários itens italianos, uma figura de Romeu e Julieta. "Olha esse! Lindo, né? Delicado."

Andreia Caetano e sua estante de bibelôs Imagem: Paula Maria Prado/UOL

Na prateleira de baixo, bonecos, alguns feitos por ela. "Tenho uma Giulietta! Quer ver?", disse a artesã, trazendo uma boneca de cabelos roxos, casaquinho de lã e vestido de tule de seu ateliê, Coisas de Giulietta. "A personagem mudou meu modo de ver a vida. As pessoas precisam ser ouvidas, sem julgamentos. E essa escuta me fez mais empática."

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