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'Todos são bem-vindos': museu de bruxaria e magia atrai visitas em SP

Claudiney Prieto, bruxo, escritor e fundador do Museu de Magia e Bruxaria da Vila Mariana, em São Paulo - Fernando Moraes/UOL
Claudiney Prieto, bruxo, escritor e fundador do Museu de Magia e Bruxaria da Vila Mariana, em São Paulo
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Marie Declercq

Do TAB, em São Paulo

12/06/2022 04h01

Bruxas e bruxos viveram a perigo no início da Idade Moderna, época em que dezenas de milhares de homens e, principalmente, mulheres, foram perseguidos, julgados e mortos por protestantes e católicos na Europa. A campanha era tamanha que na época havia a fake news sobre praticantes de magia serem amantes de Satã e comedores de bebês recém-nascidos. A sorte é que o curso da História tende a amenizar certos temores e hoje é cotidiano, quase banal, encontrar um Museu de Magia e Bruxaria montado em uma casinha em plena Vila Mariana, bairro da zona sul de São Paulo.

O museu abriu as portas em 2021, mas fechou algumas vezes por causa da pandemia. Para quem conhece a região, é impossível não sorrir ao ver o museu, onde também funciona um santuário da religião Wicca, dividir parede com o Consulado da Bolívia e servir de rota de passagem para famílias e idosos que vivem por ali.

"Todos são bem-vindos", resumiu ao TAB Claudiney Prieto, 45, bruxo e autor de um dos livros mais importantes sobre Wicca. O museu foi montado com a ajuda da comunidade praticante de sua religião.

Além das salas lotadas de objetos curiosos relacionados à bruxaria e ao ocultismo, há também um santuário aberto e um jardim em estilo oriental, montado para receber toda sorte de visitante — de praticantes de Wicca mais fervorosos a curiosos que querem ver de perto uma das únicas religiões do mundo a crer que a criadora de tudo é uma Deusa, no feminino, e não um deus.

O espaço é convidativo: além de a casinha ser muito simpática, há também um trailer na porta vendendo quitutes. Uma placa anuncia a coxinha de jaca como carro-chefe entre as guloseimas vendidas pelos bruxos brasileiros. Nos finais de semana, os rituais são abertos para praticantes e visitantes.

"É como se fosse uma igreja, mesmo", define o fundador.

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Uma das salas do Museu de Magia e Bruxaria da Vila Mariana, em São Paulo
Imagem: Fernando Moraes/UOL

'Não recebemos reclamações'

Foi durante o isolamento que Prieto teve a ideia de tornar público seu acervo. Temendo receber a alcunha de acumulador, passou a rascunhar a ideia de abrir um espaço dedicado à bruxaria. A inspiração foi o primeiro museu do gênero, fundado em 1951 na Ilha de Man, território pertencente ao Reino Unido que, até fechar, em 1973, contribuiu para o fortalecimento dos mitos e folclores locais.

Nas quase três décadas dedicadas integralmente à Wicca, Prieto viajou o mundo e coletou objetos, artefatos e presentes recebidos de bruxos de diversos países. Para não deixá-los empoeirados em casa, compartilhou com a comunidade sua ideia de tornar tudo aquilo público. Para sua surpresa, o financiamento coletivo que criou foi um sucesso e, em fevereiro de 2021, o museu saiu do papel.

A exposição dos objetos e imagens explica de forma educativa a criação da religião Wicca, seus preceitos e características. Nas salas e corredores, o visitante pode escanear os QR Codes na parede para ouvir e ler materiais auxiliares, caso se anime.

Perguntado sobre a possibilidade de o museu ter causado algum incômodo na vizinhança, Prieto responde tranquilo. "Não recebemos qualquer reclamação", esclarece. "O jornal do bairro anunciou a abertura do espaço na época. Até fizemos um 'abraçaço' para impedir que fosse tirada uma árvore lindíssima na frente de casa. Quem mora na rua adorou".

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Museu de Magia e Bruxaria da Vila Mariana, em São Paulo
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Numa época em que política e religião estão cada vez mais misturadas, não houve qualquer demonstração de intolerância contra o espaço. Prieto acredita que essa seja uma característica bastante brasileira.

"Somos o maior país católico do mundo, mas só de fachada. A verdade é que somos muito místicos", explica o bruxo. "Tem católico que toma passe, evangélico que se identifica com os kardecistas. Somos um conglomerado de vários povos e espiritualidades. As pessoas ainda se dizem católicas por uma questão social. Em vida, o suporte espiritual é encontrado em outras crenças."

Não é raro encontrar imigrantes bolivianos que, resolvendo burocracias no consulado, encontram uma brecha de tempo para visitar o santuário, que conta com uma estátua de Pachamama, deidade máxima dos povos indígenas quechua.

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Claudiney Prieto, bruxo, escritor e fundador do Museu de Magia e Bruxaria da Vila Mariana, em São Paulo
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Bruxos conectados

A bruxaria entrou na vida de Claudiney Prieto quando ele era adolescente. Foi obra do acaso, ou da Deusa, que o colocou na festa de casamento dos primos ao lado de um casal britânico, que passou a festa comentando sobre a existência de Wicca e a prática da bruxaria. Aquela conversa permaneceu na cabeça do jovem de 16 anos e, duas semanas depois, ele estava batendo na porta do casal para saber mais sobre a religião. Até então, seu contato com a religiosidade era feito por meio da família, praticante do candomblé. "Era uma mistura de misticismos, algo bem brasileiro", descreve ele.

Antes do casal britânico, a bruxaria já estava pairando sobre Prieto quando aos 12 anos ele leu o livro "Brumas de Avalon" de Marion Zimmer Bradley. Dividido em quatro volumes, a obra conta a história da formação da Távola Redonda pelos olhos das mulheres, especialmente Morgana, uma bruxa poderosa que protagonizou momentos decisivos com o Rei Arthur, seu irmão por parte de mãe, e outros cavaleiros. "Senti que estava voltando para casa quando me conectei com a bruxaria", relembra o escritor.

Desde que conheceu o casal britânico, nunca mais olhou para trás. Prieto passou a estudar o tema, procurando leituras na internet, que na época engatinhava. "Bruxos sempre foram e ainda são muito conectados à internet", explica. Dos estudos, formou um grupo — conhecidos na Wicca como "coven"— para discutir e desenvolver práticas de magia, e começou a falar mais publicamente sobre a religião.

"Na época em que comecei, não era ainda um movimento estruturado. As coisas eram muito incipientes, orgânicas. Procurei pessoas que queriam estudar isso, fazer um grupo de estudos, e isso foi crescendo. Em 1998, fundei a Abrawicca (Associação Brasileira Wicca), uma grande porta para que a gente encontrasse pessoas que estavam perdidas", afirma.

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Imagem: Fernando Moraes/UOL

'Sim, somos bruxos de verdade'

Wicca é uma religião pagã moderna criada em 1954 pelo britânico Gerald Gardner (1884-1964), estudioso responsável por ressurgir e reinventar práticas pagãs ocidentais. Sua estrutura é muito diferente do que conhecemos do catolicismo, pois não possui uma figura principal e é descentralizada, espalhada entre pequenas comunidades e grupos. A teologia varia de acordo com suas vertentes, mas acredita-se numa relação pacífica com os cinco elementos da natureza e também no dualismo, onde tudo que existe tem seu oposto complementar.

Homens e mulheres ocupam o mesmo grau de importância nos rituais e práticas. Entre as vertentes principais — a gardneriana e a Wicca norte-americana — a última é a responsável pela formatação mais religiosa da prática.

Ainda que filmes e livros de fantasia e terror tenham contribuído para essa imagem, a prática de feitiços não é um elemento principal da Wicca.

A curiosidade em relação aos wiccans cresceu substancialmente nos anos 1990, com o revival new age na década do misticismo. No caldeirão místico entravam desde os programas de TV do espalhafatoso Walter Mercado e suas previsões astrológicas, a magia dos anjos de Mônica Buonfiglio, até a febre das lojas Além da Lenda e seus indefectíveis duendes de biscuit.

Prieto fez parte desse boom místico, ainda que tenha ressalvas quanto às banalizações do período. Mas foi durante essa época que passou a escrever livros como "Wicca: A Religião da Deusa". A obra foi uma das primeiras dedicadas ao tema a ser publicada no país por um autor nacional, e adaptou práticas e costumes, outrora ligados ao calendário e realidade europeia, ao Brasil.

Mesmo com a queda da onda mítica dos anos 1990 e começo dos anos 2000, Prieto seguiu dedicado a agregar entusiastas da religião. Em 2010, organizou a primeira edição da Mystic Fair no Brasil, hoje uma das maiores da América Latina.

A curiosidade popular sobre o tema não cessou. Em 2018, o escritor participou do programa de TV "Todo Seu", de Ronnie Von, com outra bruxa, Claudhia Issa. A dupla respondeu pacientemente às perguntas do apresentador. "Sim, somos bruxos de verdade", declarara no início da entrevista temática sobre a importância dos Dias das Bruxas para eles.

Museu de Magia e Bruxaria da Vila Mariana, em São Paulo - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

'É uma religião política'

No currículo místico do bruxo também há entra sua ordenação — Prieto é o único homem ordenado na Wicca Diânica por Zsuzsanna Budapest, escritora húngara muito influente na segunda onde feminista dos EUA. Fundadora do primeiro coven só de mulheres ela se dedicou a escrever sobre espiritualidade ligada ao feminismo.

"Foi coisa da Deusa, não tem outra explicação", conta Prieto. "Eu a trouxe para o Brasil para uma conferência e estava com muito medo de trazê-la, porque ela sempre foi muito radical e sempre dizia que não havia lugar para homens na bruxaria. Em determinado momento, ela se virou e falou para mim que entendeu que a Deusa gostaria que ela desse a linhagem para mim."

Ainda que a religião seja vista como algo majoritariamente feminino, Prieto afirma que a presença de homens é tão substancial quanto a de mulheres. Além disso, há uma abertura natural da Wicca a grupos marginalizados.

"Há uma presença grande de gays e lésbicas, de pessoas de esquerda. É uma religião transgressora, contracultural, que traz uma nova reflexão sobre coisas antigas. Wicca é receptiva a todas as pessoas que não encontram lugar nas religiões mais convencionais e oficiais. Aqui todos são bem-vindos, as pessoas são acolhidas."