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'Culpo o governo', diz viúva do Major Olímpio, ex-aliado de Bolsonaro

"Era uma gripezinha, né? A pandemia não existia", diz Cláudia Olímpio, viúva do ex-senador Major Olímpio, que morreu por complicações da covid-19 - Keiny Andrade/UOL
'Era uma gripezinha, né? A pandemia não existia', diz Cláudia Olímpio, viúva do ex-senador Major Olímpio, que morreu por complicações da covid-19
Imagem: Keiny Andrade/UOL

Larissa Linder

Colaboração para o TAB, de São Paulo

23/07/2022 04h01

O nome vinha acompanhado da patente dos tempos de policial militar: major. Membro do PSL, apoiou o presidente Jair Bolsonaro rumo ao Planalto. Falava quase sempre alto, um pouco em decorrência de uma deficiência auditiva adquirida nos anos de instrutor de tiro na PM. Com essas credenciais, Major Olímpio, senador mais bem votado de São Paulo em 2018, passava facilmente a impressão de ser do tipo durão, talvez no melhor estilo de um tradicional representante da extrema direita. Ele faleceu aos 58 anos, em 18 de março de 2021, em decorrência da covid-19.

Pouco antes de ser internado, notícias davam conta de que ele havia participado de um protesto em Bauru (SP) contrário ao lockdown imposto pelo então governador paulista João Doria (PSDB), seu desafeto político. Nos vídeos, o major está num trio elétrico, de máscara, ao lado da prefeita da cidade, Suéllen Rosim (Patriota), e do dono das lojas Havan, Luciano Hang — os dois sem máscara.

Cláudia Olímpio, 59, viúva de Sérgio Olímpio Gomes, senador eleito pelo PSL, diz que o marido não foi um negacionista da pandemia. "Ele não foi contra o lockdown, mas muitas pessoas vinham pedir socorro a ele, os negócios que estavam quebrando", conta ela, na sua primeira entrevista, concedida ao TAB num café no bairro Água Fria, nos arredores do antigo escritório do major na zona norte de São Paulo.

"Isso é muito difícil pra mim" foi sua primeira frase ao chegar ao café. Ela preferiu escolher um espaço "neutro", não quis receber a reportagem na sua casa.

Era manhã de uma sexta-feira de julho e ela estava acompanhada pelo ex-assessor Vitor Marques, 28, tido como herdeiro político do senador. Advogado e pré-candidato a deputado estadual pelo PDT, Marques completou: "A ida a Bauru foi porque o pessoal de lá pediu ajuda, os leitos já estavam acima de 90% ocupados".

"A questão é que ele [Olímpio] achava que tinha que haver um auxílio financeiro para essas pessoas", acrescenta Cláudia. "Mas ele sempre defendeu a vacinação."

Ele não foi vacinado a tempo. No seu último discurso feito no Senado, o major confrontou o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.

"A força-tarefa do SUS fez chegar ao senhor relatórios, dos quais nós temos cópias, dando conta de que vai faltar oxigênio, gente vai morrer asfixiada, vai faltar, vai faltar, vai faltar! Faltou! E matou! O senhor acredita que fez realmente todos os esforços para evitar que essas vidas fossem perdidas?", questionou o parlamentar, em 11 de fevereiro de 2021, antes de ser internado e intubado.

Em dezembro de 2020, Bolsonaro e Pazuello haviam questionado a "pressa" pela vacina. O governo federal minimizou diversas vezes a gravidade da pandemia e, embora tenha recebido ofertas de vacinas por laboratórios em maio de 2020, atrasou a compra de imunizantes, atrapalhando o início da vacinação do país, o que só ocorreu em janeiro de 2021, com a Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan.

Claudia Olímpio, viúva do ex-senador Major Olímpio, que morreu de covid-19 - Keiny Andrade/UOL - Keiny Andrade/UOL
Segundo Cláudia, o maior desgosto da vida política do Major Olímpio foi ter apoiado Bolsonaro em 2018
Imagem: Keiny Andrade/UOL

Bolsonaro: de amigo a desafeto político

O major não teve missa de sétimo dia, "para evitar aglomerações", informou um post no perfil oficial do senador no Twitter, em 24 de março de 2021.

Segundo Cláudia, ele teria contraído o coronavírus em Brasília, na semana em que o Congresso recebeu prefeitos e governadores para solicitar emendas parlamentares. Na mesma semana em que o senador adoeceu, outros quatro funcionários do gabinete testaram positivo para covid, e alguns deles chegaram a ficar internados.

Embora não tivesse histórico de problemas de saúde, a doença escalou rapidamente. "Culpo o governo federal pelo descaso com que tratou a doença", diz a viúva. "Era uma gripezinha, né? A pandemia não existia. Ninguém da família deles [Bolsonaro] morreu, então tá bom", critica.

Em 2019, Olímpio rompeu com os Bolsonaro. O major conheceu Jair na época em que ambos eram deputados federais. Foi ferrenho apoiador do candidato então do PSL ao Planalto, visto pelo senador como um nome anticorrupção. "Ele era sonhador", justifica Marques, sobre as razões que levaram Olímpio a acreditar que alguém com décadas na política poderia representar algo novo.

"Quando Bolsonaro levou a facada, ele [Olímpio] se preocupou demais não com o candidato, mas com o amigo que ele achava que tinha", relata Cláudia, que não hesita em indicar o maior desgosto da vida política do marido: o presidente da República, atualmente no PL.

O gatilho foi justamente a corrupção, conta ela. Quando houve a tentativa de instaurar a CPI da Lava Toga, cujo objetivo seria investigar desvios e violações éticas por parte de membros do Judiciário, Olímpio foi favorável.

No entanto, recebeu um telefonema áspero do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que demandava a retirada da assinatura dele na requisição para abrir a CPI. "Quando ele [Flávio] foi falar comigo, reagi na mesma intensidade, porque também não sou Madre Teresa de Calcutá, o pai tomou o telefone dele e aí foi uma briga minha e do pai", relatou o major em entrevista ao colunista do UOL Tales Faria, em 2020. Na época, ele se disse "enojado" com a política e chamou Bolsonaro de "traidor" por defender "filho bandido", referindo-se a Flávio.

Cláudia Olímpio lembra até hoje que Jair Bolsonaro não prestou condolências à época da morte do major. E que o então governador João Doria, então desafeto político, publicou mensagem de pêsames, assim como Flávio Bolsonaro. Procurados pela reportagem, Doria não quis dar entrevista, Flávio não retornou o contato.

Claudia Olímpio, viúva do ex-senador Major Olímpio, que morreu de covid-19 - Keiny Andrade/UOL - Keiny Andrade/UOL
No antebraço, a tatuagem com o apelido do marido, Preto; no celular, o major com a camiseta 'super pai'
Imagem: Keiny Andrade/UOL

Entre lockdown, luto e 2022

Cláudia viveu 37 anos ao lado de Olímpio, 33 deles casados. Juntos, tiveram dois filhos, Mariana e Fernando, que, segundo a mãe, nunca se interessaram por política partidária. "Fiquei mais tempo da minha vida com ele do que sem ele", diz.

No antebraço direito, ela exibe uma de mais de uma dezena de tatuagens, um coração junto ao apelido dado ao marido (Preto), desenho feito após a morte dele. O major também tinha uma tatuagem, uma medalha de São Bento no ombro, revela ela.

Fonoaudióloga de formação, Cláudia acabou abraçando a carreira política do marido, eleito pela primeira vez em 2006. "Achei loucura, mas disse: vamos embora!", lembra. "No começo, eu mesma pintava faixas em casa. Um amigo nos aconselhou: não gaste um centavo do patrimônio pessoal com campanha, porque tem muita gente que quebra."

Segundo Cláudia, o major não levava a vida política para dentro de casa. Entretanto, era aberto a ouvir a família. Quando o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) foi indicado para ser embaixador do Brasil em Washington, Olímpio primeiro pensou: "Tá certo, o presidente faz o que quer". Depois de conversar com a esposa e os filhos ("nós três"), mudou de opinião, conta a viúva. "Ele era muito de ouvir."

Hoje a família tenta construir um instituto que leva o nome do senador — um modo de não deixar a história de Olímpio morrer, diz a viúva. Ela não considera a possibilidade de disputar cargos eletivos. Enquanto caminhava em direção a uma praça para tirar as fotos para a reportagem, lembrou dos momentos de lockdown na pandemia, quando dançava na sala de casa com o marido ao som das lives de Zeca Pagodinho e Diogo Nogueira.

No café, ela mostrou a tatuagem junto a uma foto que leva do major no smartphone, deitado em uma cama de hospital, já internado por covid-19, e vestindo uma camiseta que dizia "super pai". Foi sua última foto.