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Brennand admite estupro em áudio: 'Fiz à força e você dizendo não'

Uma das mulheres que acusam Thiago Brennand de estupro gravou uma conversa com a confissão do empresário, em setembro de 2021.

"Eu fiz à força e com raiva, não fiz?", Brennand perguntou à mulher. "Fez", ela respondeu.

"E você dizendo 'não, não', eu fiz com raiva. Beleza. Tá certo. Eu assumo", acrescentou.

Réu em diversos processos, em casos de estupro e agressão, Brennand está detido no CDP (Centro de Detenção Provisória) de Pinheiros, em São Paulo. Ele aguarda sentença sobre este caso e já foi condenado em outro caso de estupro e um de agressão.

O UOL teve acesso a áudios inéditos de um dos processos mais completos contra o empresário, com mais de 2.000 páginas. Trata-se do caso K.*, narrado pela primeira vez com detalhes no podcast "Brennand", do UOL Prime.

A reportagem procurou por e-mail o advogado de Brennand, Roberto Podval, nos dias 23 e 30 de novembro, para comentar o conteúdo dos áudios, mas não obteve resposta. Em 1º de dezembro, ele foi procurado por telefone e depois respondeu por mensagem: "Tudo que posso lhe dizer é que os casos estão em segredo de Justiça, estamos impedidos de nos manifestarmos".

Marcio Janjacomo, advogado de K. e de outras mulheres que denunciam Brennand, também foi procurado pela reportagem, mas recusou o pedido de entrevista.

O primeiro episódio do podcast semanal, com seis episódios, está disponível nesta segunda-feira (4) exclusivamente para assinantes do UOL (ouça abaixo). A partir de quinta-feira (7), pode ser ouvido nas principais plataformas digitais —novos episódios serão lançados sempre às quintas-feiras.

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A confissão

K., uma produtora pernambucana radicada nos EUA, conheceu Brennand pelo Instagram no fim de julho de 2021. No mês seguinte, ela viajou a São Paulo, com passagens compradas pelo empresário, para encontrá-lo pessoalmente pela primeira vez.

Eles ficaram na mansão dele em Porto Feliz (SP). Depois, ela viajou ao Recife, onde passou a gravar as conversas telefônicas com Brennand.

Nelas, ele admite que a agrediu e afirma que usou a força para fazer sexo anal com ela, enquanto ela dizia "não". Ele dá a entender que, como não a ameaçou com uma arma, ela teria consentido.

Brennand - Na hora que você disse "não", eu te ameacei e disse que ia te quebrar?

K. - Não.

Brennand - Outra coisa, por exemplo, eu botei uma arma na sua cabeça?

K. - Não.

Brennand - Pois é, mas eu fiz à força e com raiva, não fiz?

K. - Fez.

Brennand - E você dizendo "não, não", eu fiz com raiva. Beleza. Tá certo. Eu assumo.

Segundo o artigo 213 do Código Penal, estupro é "constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso".

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"A partir do momento no qual a vítima expressa o não consentimento com o ato sexual, todo e qualquer ato que seja empregado para manter forçadamente a relação sexual pode ser compreendido como violência e, portanto, estupro", considera a advogada criminalista Izabella Borges.

"Ele está confessando, mesmo que não à Justiça formalmente, que cometeu um crime", acrescenta a advogada Bruna Angotti, professora de direito do Mackenzie. "Independentemente da licitude ou não da gravação do diálogo."

'Promete nunca mais bater em mim?'

No início do diálogo, Brennand levou a conversa num tom tranquilo, respondendo às perguntas dela.

K. - Posso falar uma coisa de verdade para você, do fundo do meu coração, e que você não fique bravo?

Brennand - Pode.

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K. - Você promete nunca mais bater em mim?

Brennand - Prometo. Dou minha palavra. Dou minha palavra. Na frente de quem quiser aí.

K. - Não, não quero que ninguém fique sabendo que você bateu em mim.

Brennand - Mas eu quero. Eu faço questão. Não quero sair daí [Recife] com a coisa suja, não. Quero conversar com quem fez o BO quero dizer o que houve. Quero "come clean" [esclarecer].

Depois, ele insistiu dizendo que ela estava "confundindo as bolas" entre o que seria só "dor no sexo anal" e "sexo não consensual".

Brennand - Você há de convir, por exemplo, eu faria em algum momento da minha vida sexo não consensual, com uma mulher?

K. - Acho que não, mas... o que nós fizemos lá, aquele dia, eu pedi várias vezes para parar porque eu não estava aguentando de dor, lembra disso, depois que você me bateu?

Brennand - Você está confundindo as bolas. Uma coisa é você estar com dor no sexo anal, outra coisa é uma pessoa estar fazendo sexo não consensual. Presta atenção no que você diz, porque é perigoso o que você diz.

Dias depois, ele passou a ser agressivo, xingando-a de "vagabunda", "puta" e "psicopata".

Brennand - Você teve um episódio na minha casa. Tudo bem que eu fodi com você pesado, tá? Tudo bem que quando você me afrontou, me chamou de mentiroso, eu te dei um tapa. Tudo bem, cara. Eu poderia me desculpar a vida inteira por aquilo ali, tá certo. Mas, não, você se mantém lá e me agride pelas costas [referindo-se ao fato de denunciá-lo].

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Ele também ameaçou expô-la:

Brennand - Eu tenho o sexo todo gravado. Você quer ser desmoralizada em público?

Brennand a convenceu de ir à delegacia para desmentir um boletim de ocorrência aberto pelo irmão dela. Ela desmentiu, depois voltou atrás, mas o caso acabou arquivado à época.

Depois de agredir uma mulher na academia Bodytech do Shopping Iguatemi, em São Paulo, em agosto de 2022, várias acusações surgiram contra Brennand. O Ministério Público decidiu então reabrir o caso de K., com novas provas.

O processo

K. disse ao Ministério Público que o empresário a estuprou diversas vezes e a prendeu por dias na casa dele em Porto Feliz. Ele também teria lhe obrigado a tatuar sua marca "TFV" (Thiago Fernandes Vieira) na altura da costela.

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Segundo relatou nos processos, certa noite, K. conseguiu telefonar escondida para pedir ajuda a um de seus irmãos, que mora no Recife. No dia seguinte ele fez um boletim de ocorrência, narrando à polícia a situação de cárcere privado de K.

A polícia de São Paulo foi avisada e foi até a mansão, mas Brennand e K. já tinham saído de lá. Um PM amigo de Brennand levou K. ao aeroporto e comprou uma passagem para ela ao Recife.

Enquanto esteve lá, K. teria sido pressionada para desmentir as denúncias — orientada por Brennand, ela procurou a polícia e assinou um termo dizendo que seu irmão interpretou errado a história de Porto Feliz.

Brennand fretou um jato e foi para o Recife. Herdeiro de uma das famílias mais ricas de Pernambuco, ele não gostou de ter sido citado num boletim de ocorrência.

"Eu tinha domínio completo da cidade e você tá colocando como se eu fosse um pária social", disse, em uma das conversas gravadas por K. às quais o UOL teve acesso. "Eu tô sendo colocado de vilão, cara. Isso não é justo, porra."

Brennand - Eu, se fosse você, procurava ver logo de agora onde você abriu sua matraca, sua puta, sobre mim. E procuraria logo "shut down" [desligar] agora. Porque eu tô de um jeito, cara...

[...]

Brennand - Eu, se fosse você... Em respeito a seu irmão que eu conheci, eu vou ligar para ele e [dizer] olha, presta atenção na sua irmã, porque eu já recebi essa do segurança logo dela. Se eu receber a segunda, a terceira, ela só vai estar segura dentro dos Estados Unidos e olhe lá.

K. - Você está me ameaçando?

Brennand - Eu estou lhe garantindo. Eu estou lhe dizendo, você tenha certeza que você não sabe onde está entrando.

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No mês seguinte, ela voltou para a Flórida, onde morava e onde está até hoje.

O podcast "Brennand" também estará disponível a partir de quinta-feira (7) no YouTube do UOL Prime, Spotify, Apple Podcasts, Amazon Music, Deezer e em todas as plataformas de podcast. Confira abaixo os episódios:

'Brennand'

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