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Bernardo Machado

Você é uma vítima de verdade ou é só mimimi? Como opera a censura

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Bernardo Machado

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Colunista do UOL

24/10/2020 04h01

As invenções da linguagem costumam ser indício de práticas e de dinâmicas sociais inéditas. O termo "mimimi" é exemplo da criatividade das palavras e de como elas nomeiam as relações que estabelecemos. Não sou linguista, mas arrisco dizer que mimimi é onomatopeia, essa figura de linguagem que utiliza de palavras para dar voz a um som específico. Isso porque a expressão representaria o "ruído" de uma reclamação tão insignificante que não poderia ser compreendido e resultaria em murmúrio desprezível.

Geralmente quem usa o termo "mimimi" se refere a uma postura ou crítica feita por outra pessoa (ou conjunto de pessoas) que não mereceria atenção por ser exagerada, e que trataria de temas insignificantes e descabidos. Há quem empregue o "mimimi", por exemplo, nas relações pessoais privadas, como entre parentes e colegas: "Filho, para de mimimi e faz a lição!", "Chega de mimimi e vamos terminar o relatório". Mas é notório que, no debate público, a categoria receba especial atenção e navegue com força nas redes sociais, nos comentários a textos e nos vídeos publicados: "Esses LGBT só fazem mimimi", "essa coisa de igualdade racial é mimimi, no Brasil é melhor que nos Estados Unidos", "o mimimi das mulheres levou a políticas discriminatórias contra os homens".

Sobre este aspecto político, identifico duas etapas para o emprego do "mimimi". Há inicialmente um incômodo perante um conjunto de argumentos e reflexões e, em seguida, recorre-se à expressão para desqualificar uma posição defendida. Embora esses dois procedimentos sejam conectados, talvez seja proveitoso separá-los.

O incômodo diz respeito a sensação de que a experiência social está repleta de armadilhas e de que não há mais tranquilidade possível. Quando algum movimento social aponta práticas discriminatórias ou algum grupo oprimido indica a existência de posturas racistas, misóginas ou lgbtfóbicas em determinadas situações — como no caso do filme "Duna", a ser lançado em breve —, há quem enuncie o desconforto causado: "Tem tudo isso aí em uma única fala?", "eu fiz errado a vida inteira?". Isto é, uma crítica direcionada a uma ação, uma obra ou uma figura em particular logo parece se estender a um conjunto maior de pessoas, de modo que as colocaria em posição de reavaliação de suas posturas e, eventualmente, de defesa de sua personalidade e até de sua história.

Diante dessa situação, há quem considere essas reivindicações um excesso reflexivo, procurar pelo em ovo. Quem se sentiu criticado/a passa a sugerir que a crítica é sinônimo de cerceamento de suas opiniões. "Que gente chata, patrulha tem limite", "Hoje em dia tudo é polêmica. Que saco!". Nesses casos, há uma sugestão de mordaça ou de censura sendo executada.

O protesto se transforma numa "chatice" — "os chatos do politicamente correto atrapalham demais" — e esse argumento costuma levar à desqualificação (embora nem todas as pessoas recorram a ela). O emprego do termo "mimimi" emerge com vigor nessas ocasiões. Para desqualificar, cria-se uma hierarquia. Alega-se que movimentos sociais estariam dando demasiadamente atenção a aspectos frívolos, enquanto outros problemas mais graves estariam desassistidos pelas políticas públicas. Nesse caso, opera-se pela alusão de que uma crítica é, na realidade, uma "frescura".

Com isso, algumas demandas passam a ser entendidas como hierarquicamente inferiores na ordem de prioridades sociais. Nesses casos, o contexto do debate costuma ser desconsiderado e outro problema que sequer estava em questão assume a dianteira da conversa. A conclusão seria a acusação de autovitimização: movimentos sociais atentariam contra o debate justamente por se produzirem como vítimas de alguma situação. Em um país atravessado pela desigualdade e pela violência, há uma espécie de valorização da resiliência e um ceticismo para definir quem seria uma "vítima de verdade" digna de empatia e que não faria "mimimi" - como pondera a antropóloga Beatriz Accioly quando analisa casos de violência contra mulher.

Não quero, com essas considerações, descartar a possibilidade de que críticas e reflexões sobre práticas discriminatórias possam conter excessos ou mesmo equívocos. Por vezes a reflexão pode assumir uma postura quase aristocrática - "como você não sabe que isso é discriminatório?" - e, pelo tom, impedir a conversa. Interessa compreender a posição das pessoas em um eventual conflito. Por exemplo, uma pessoa LGBTQI+ de classe média, branca e jovem pode ser discriminada por sua orientação sexual por uma atendente de meia-idade, negra em um serviço público. Como estabelecer um diálogo e uma resolução sem, com isso, reproduzir violências de classe, raça, sexualidade e geração?

De toda forma, vale levar a sério quem emprega o termo "mimimi", não para desqualificar o debate sobre os direitos de grupos historicamente subalternizados, mas para entender que inquietações o termo carrega. Quero crer que nem todo mundo que emprega a expressão é mal-intencionado e necessariamente tenha uma agenda discriminatória e violenta. É preciso saber quem usa o termo, quando o enuncia e os motivos de sua enunciação. O contexto, nesse caso, importa. Isso porque a categoria revela que, em nossas relações sociais estamos, com frequência, dispostos a desconsiderar e deslegitimar algumas reivindicações e críticas feitas por outras cidadãs e outros cidadãos. Tratar do assunto pode ser uma forma de afinar a comunicação e a saúde de nossa democracia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL