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Bernardo Machado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

STF, Congresso e governos abraçam sarcasmo e descontração no TikTok

Wachiwit/Getty Images
Imagem: Wachiwit/Getty Images
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Bernardo Machado

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Colunista do TAB

25/07/2021 04h01

Sem medo de ser cringe, entidades dos três poderes apostam nas postagens do aplicativo mais baixado em 2020, o TikTok. Exemplares do Executivo — como o governo do estado de São Paulo —, do Legislativo (Câmara dos Deputados) e do Judiciário (como o TSE, Tribunal Superior Eleitoral) e o STF (Supremo Tribunal Federal), transformaram-se em perfis da rede social chinesa. A plataforma repleta de dancinhas tornou-se fonte de notícias e também começou a ser levada a sério por instituições de Estado como uma estratégia de comunicação.

O governo paulista possui, no momento de escrita da coluna, 45 mil seguidores e acumula 156 mil likes em seus vídeos. Ingressante em fevereiro de 2020, o perfil carrega um tom institucional. Os vídeos parecem versões enxutas das propagandas tradicionais. Isso se revela na edição, que privilegia o uso de textos, e nas músicas de fundo — sóbrias e pouco dançantes. Quando há pessoas como protagonistas, elas geralmente adotam palavras cerimoniosas.

O vídeo mais acessado é de março de 2020, com 2 milhões de visualizações. Nele as medidas preventivas contra o coronavírus são apresentadas sob um fundo azul-escuro e texto técnico. O patamar de visualizações, contudo, não se mantém em outras postagens, que somam poucos milhares de usuários.

O perfil da Câmara dos Deputados, criado em janeiro de 2021, explora um tom mais descontraído. Por exemplo, para explicar como se cria uma lei, um dos vídeos traz uma jovem replicando a trend #ComoFoiCriado. Nesse tipo de dinâmica, repetida por incontáveis usuários da rede, uma pessoa, ao som de uma música frenética, adiciona vasilhas de água num recipiente em diferentes takes. A cada novo corte, conforme a pessoa despeja um volume d'água, uma legenda explica o que o líquido representa.

No caso do vídeo da Câmara, a água significaria os elementos necessários para produzir uma nova legislação: "problemas sociais", "debate no Congresso", "pressão para resolver", "solução" e "sanção presidencial". O efeito de comicidade resulta da quantidade de água despejada. Para ilustrar os "problemas sociais", a jovem vira alguns litros de água num balde preto. Para sugerir a relevância da sanção presidencial, ela entorna um diminuto pote com poucos mililitros.

Embora, seja mais despojado, o perfil da Câmara não goza da mesma popularidade: até o momento, soma cerca de 26 mil likes e pouco mais de 4 mil seguidores.

Certamente os mais exitosos no TikTok são os perfis do Judiciário, com destaque para o TSE. O Tribunal possui, no momento da escrita do texto, cerca de 33 mil usuários, e muitos likes em seus vídeos (mais de 338 mil). O mais assistido trata dos procedimentos de segurança adequados para o dia da votação, em novembro de 2020 — tem 1,2 milhão de visualizações.

Criado em outubro de 2020, o canal divulga informações sobre a justiça eleitoral com pouca cerimônia. A comunicação se baseia nas convenções típicas do TikTok. Num dos vídeos, com 192 mil interações, a equipe do tribunal usa a filmagem do longa animado da Disney "O Rei Leão", de 1994. No vídeo, com o áudio original em inglês, vemos o rei Mufasa mostrando seu território para o pequeno Simba. Curioso, o herdeiro pergunta o que há numa área sombria do reinado. Na versão original, o pai o repreende e alerta para não ir até lá.

Na versão do TSE, a cena aparece com legendas irônicas. Simba teria perguntado ao pai: "Já houve fraudes na eleição?", a resposta é forte: "nunca". O pequeno leão repete a confirmação para si: "nenhuma fraude em 25 anos...", mas emenda outra pergunta — e nesse ponto a legenda coincide com a frase original do filme, "O que é aquela parte escura?" Como resposta, Mufasa assevera: "É onde ficam as tias do zap. Nunca vá até lá, Simba!". O jogo sarcástico dialoga com as convenções do aplicativo, em tudo dinâmico, capaz de deslocar significados sob uma chave humorística.

O STF é a mais nova entidade a ingressar na onda de comunicação, seguindo os caminhos trilhados por seu colega do Judiciário. O recém-chegado conta com aproximadamente 9 mil seguidores e acumula quase o mesmo número de likes que a Câmara, 20 mil. O perfil trata das decisões da Corte, do processo de escolha de ministros e de características a própria instituição.

Uma das publicações chama a atenção pela pergunta estampada na capa: "O STF proibiu o governo federal de atuar no combate à pandemia?". Por meio de gifs, imagens oficiais e uma narração, o material responde, explicando como o Supremo defendeu a autonomia de estados e municípios para conduzir o combate à covid-19, mas não proibiu o governo federal de atuar.

A presença de instituições de Estado nas redes sociais não é nova — elas já possuem canais no Instagram, Facebook e Twitter, por exemplo. O que pode ser interessante reside justamente no fato de que as plataformas mostram as instituições de acordo com suas regras e, ao fazê-lo, transformam a própria instituição, ou ao menos, como elas são percebidas e acionadas. Nesse sentido, o teor descontraído, mais caseiro e sarcástico do TikTok pode impactar a maneira como essas entidades de Estado interagem, ao menos na comunicação, com a população. Não se trata de antecipar se este é um aspecto negativo ou positivo, mas sim de endereçar o assunto.

Os Três Poderes, via acesso às redes sociais, competem pela legitimação num contexto de mensagens caóticas e em colisão. Ao mobilizar os códigos e convenções do TikTok, tais instituições se adaptam para obter algum tipo de ponte com grupos mais jovens, mas não só. Afinal, amplia-se a quantidade de usuários na rede e as disputas pela informação e os significados das instituições parecem desejar vencer nessa (tenra) trincheira.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL