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Lidia Zuin

'His House' dá tons de horror à vivência dos refugiados em solo europeu

Cena do longa "His House", do diretor Remi Weekes - Aidan Monaghan/ Divulgação
Cena do longa "His House", do diretor Remi Weekes Imagem: Aidan Monaghan/ Divulgação
Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do UOL

12/11/2020 04h00

Desde 2017, críticos de cinema têm adotado uma nova nomenclatura para classificar certos títulos de terror mais recentes. "Pós-horror" é uma tentativa de descrever o trabalho da onda de diretores e roteiristas que trazem histórias assustadoras e dramáticas, mas que não se baseiam no sobrenatural ou mágico para gerar sustos e assombro. Em títulos como " Ao Cair da Noite", "Corra!" ou "The Babadook", ainda que tenhamos alguma presença sobrenatural, invisível ou corporificada em algum monstro, ela serve mais como metáfora de alguma questão real e atual.

Se outrora as franquias sangrentas traziam a figura masculina de assassinos em série como Jason, Michael Meyers ou Freddie Krueger, diretores como Jordan Peele, Ari Aster e Jennifer Kent podem até resgatar elementos clássicos do gênero para o argumento de seus filmes, mas problemas reais como o racismo, o machismo, os desafios da maternidade e da convivência familiar, bem como relacionamentos tóxicos e até doenças venéreas são alguns dos assuntos aparentes em títulos como "Us", "Hereditary", "Midsommar" e "It Follows", por exemplo. Aliás, Peele se tornou um dos queridos de Hollywood por trazer à tona, no gênero do horror, a questão racial — seja com títulos originais ou com releituras de clássicos, como o esperado remake de "Candyman" —, além de sua contribuição na aclamada série "Lovecraft Country" que subverte o racismo do autor em uma narrativa centrada na experiência de um jovem negro que viaja pelos Estados Unidos segregado, na década de 1950.

Mais recentemente, a Netflix adicionou ao seu catálogo o longa "His House", do diretor estreante Remi Weekes. O filme se baseia em uma história escrita por Felicity Evans e Toby Venables e conta com a atuação de Wunmi Mosaku, Sope Dirisu e Matt Smith para narrar a trajetória de um casal de sudaneses refugiados na Inglaterra. Nos primeiros minutos da obra, nem parece que estamos assistindo a um filme de terror: as cenas retratam a realidade crua de tribos e países africanos que sofrem com conflitos armados, dando sequência ao pesadelo da tentativa de fuga pelo oceano em um barco sobrecarregado que, inevitavelmente, acaba gerando um acidente no qual o casal Bol e Rial perdem sua filha Nyagak. Cenas como esta não povoam apenas o imaginário popular por conta da ficção: infelizmente, são baseadas em eventos reais, como a terrível foto conhecida como "A morte de Alan Kurdi".

Horror de luz acesa

Não suficientemente trágico, o destino leva o casal a um abrigo de refugiados, onde aguardam por tempo indeterminado até serem realocados em uma moradia social, no subúrbio de Londres. Se, no terror tradicional, veríamos uma ambientação escura digna de casa mal-assombrada, aqui, o diretor nos mostra sob a luz incandescente o rosto daqueles que aguardam na fila para poderem voltar a ser indivíduos ou daqueles que, em um pico de desespero, tentaram, sem sucesso, retirar a própria vida.

Assim como na emblemática cena de "Us" em que a família encara seus duplos e tentam convencê-los a não os matar, aqui vemos Bol e Riel performando aquilo que imaginam que seus entrevistadores entendem como o comportamento de boas pessoas — ao ponto que Bol reforça em sua fala que eles são, de fato, boas pessoas. O sistema é ali corporificado em agentes que desfrutam de suas migalhas de autoridade contextual para exercê-la contra vulneráveis, o que torna a cena tão ou mais incômoda do que as passagens seguintes, nas quais o casal se vê diante de fantasmas e alucinações infernais.

É difícil de separar a metáfora do que, de fato, acontece na narrativa de "His House". Em determinado momento, Riel narra uma lenda de sua tribo, de um ladrão que roubava de todos da vila para poder enriquecer, até que rouba de um bruxo e, por isso, seria punido. Então, somos engolidos em uma sequência sufocante de pesadelos que se entremeiam a questões muito práticas e tangíveis — como o luto pela filha perdida, a solidão em um lugar desconhecido e a própria condição de viver em uma casa decrépita.

Logo nos primeiros dias alocado em sua nova casa, Bol decide passear pelo bairro e acaba sendo convidado a assistir a uma partida de futebol em um bar. Lá, ele tenta se misturar cantando músicas e torcendo para times que, a princípio, nada têm a ver com a sua história ou gostos pessoais. Bol também passa a se vestir de forma semelhante aos ingleses e, ao chegar em casa, se recusa a comer com as mãos, como tradicionalmente o casal faria. Ele passa a usar talheres e também exigir que Riel fale em inglês com ele. Em outra cena, acreditando que estavam amaldiçoados, Bol decide queimar todos os pertences que o casal havia trazido consigo no barco — o que enfurece Riel, afinal, seu marido não permitiria guardar nada que lembrasse da filha.

Riel, por sua vez, tenta achar um meio termo entre honrar suas origens e a memória de sua filha, mas também conseguir se adaptar à nova vida. Dentre as críticas mais comuns feitas aos imigrantes, é justamente o fato de que alguns preferem manter seus hábitos e costumes, apesar de não serem os mesmos daquele país. Isso fica claro quando o assistente social interpretado por Smith ironiza a roupa de Riel, dizendo que ela estava vestindo um lençol ou quando ela, perdida nos quarteirões labirínticos do bairro habitacional, pede ajuda a adolescentes negros na esperança de encontrar empatia. Eles debocham de sua vulnerabilidade (estar perdida e ser uma imigrante) e a ofendem com adjetivos racistas, mandam-na voltar para a África, uma vez que a Inglaterra é dos ingleses. Nenhuma novidade quanto a isso quando vemos os resultados do Brexit e como, à época da votação, imigrantes ou pessoas com ascendência não europeia eram interpeladas nas ruas com o mesmo tipo de agressão.

Em busca de casa

É terrível pensar que, mesmo depois de sobreviver a um ambiente de conflito armado e a uma arriscada passagem pelo oceano, o casal sudanês ainda tenha que lidar com assombrações, burocracias do sistema de assistência social e com o racismo da sociedade britânica. A pergunta que fica é: existe algum lugar no planeta que não seja inóspito para estas pessoas? Se em seu lar estão marcados para se tornar estatística da guerra, e se fora dali são considerados estrangeiros e incômodos (basta pensar também no racismo sofrido por refugiados haitianos, no Brasil, por exemplo), então o que resta a essas pessoas?

Ao final da trama, o casal absorve as assombrações e os terrores de sua nova vida europeia ao enfrentar as criaturas sobrenaturais e se esforçar para reformar a casa, afinal, eles ainda estavam em um período "probatório" no qual teriam seus hábitos fiscalizados. Apesar disso, o lar de Bol e Riel ainda é povoado por fantasmas de pessoas que deixaram para trás, que morreram na guerra ou tentando fugir dela. A mensagem que fica, portanto, é que apesar de estarmos longe de nossos lares, carregamos conosco nossa história, nossas raízes e nossas tragédias conosco. Tentar abdicar de nossas origens pode parecer um caminho mais fácil, mas que nunca, de fato, trará paz ao nosso espírito e àqueles que levamos junto enquanto memória. O jeito talvez seja conviver com esses fantasmas e jogar o jogo do sistema que é, afinal,o menor dos males.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL