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'Pixote, um filme que não acaba': longa de Hector Babenco segue atual

Cena de "Pixote: a Lei do Mais Fraco" - Reprodução
Cena de "Pixote: a Lei do Mais Fraco" Imagem: Reprodução

Henrique Santiago

Colaboração para o TAB

27/09/2020 04h00

Um garoto de dez anos presencia, com um olhar assustado, o estupro coletivo de uma criança por menores de 18 anos. No dia seguinte, nega que tenha visto qualquer coisa em conversa com um homem mais velho. Seu nome é Pixote e, mesmo pequeno e frágil, já carrega a esperteza das ruas desde cedo, consciente que qualquer problema pode acontecer a ele caso abra a boca naquele lugar.

Em 26 de setembro de 1980, estreou nas salas de cinemas do Brasil "Pixote: a Lei do Mais Fraco". Dirigido por Hector Babenco, o longa-metragem inspirado no livro "Infância dos mortos", de José Louzeiro, foi eleito pela crítica o 12º melhor filme brasileiro de todos os tempos, ganhando inclusive uma indicação ao Globo de Ouro de melhor filme internacional. A obra é reverenciada também pelo cineasta Spike Lee e pelo músico Nick Cave.

Jorge Julião (de cabelos vermelhos) reuniu o elenco de ''Pixote'' em sua casa após o lançamento do filme  - Acervo pessoal de Jorge Julião - Acervo pessoal de Jorge Julião
Jorge Julião (de cabelos vermelhos) reuniu o elenco de ''Pixote'' em sua casa após o lançamento do filme
Imagem: Acervo pessoal de Jorge Julião

A vida de Pixote — interpretada por Fernando Ramos da Silva, um ator da periferia de Diadema, em São Paulo —, era um retrato escancarado, em plena ditadura militar, da falta de políticas públicas voltadas para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Além da negligência do Estado, o longa explicitou outra ausência que atingiu o protagonista e seus colegas: a humana. Desesperançosos, praticavam assaltos, tráfico de drogas e cafetinagem.

O único erro da obra, segundo os atores ouvidos pelo TAB, é a fala desconexa na abertura do filme. Nos primeiros minutos, Babenco aparece em uma favela de São Paulo dizendo que os atores pertenciam à "mesma origem social" de Fernando — ou seja, eram pobres e periféricos. Isso irritou Jorge Julião, que deu vida à personagem Lilica. Então com 21 anos, Julião era ator de teatro, cursava o segundo ano de Psicologia e vivia em Cerqueira César, bairro nobre da capital paulista. Segundo ele, essa distorção prejudicou o seguimento de sua carreira no cinema por trazer uma visão estereotipada do seu trabalho — como ator dedicado apenas a personagens minorizados.

"Eu vim da classe média, meus pais conseguiram me dar uma educação bacana. Aquilo foi uma briga tão forte que eu não consegui resolver o estigma. Era muito mais fácil colocar que todos os meninos foram tirados de seu convívio social para interpretar. Isso vende mais até pro mercado internacional", avalia.

Atores da vida

A preparadora de elenco Fátima Toledo trabalhou de uma maneira pouco convencional com aqueles jovens para que eles se conectassem com seus personagens. Os garotos conheceram a extinta Febem (Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor), visitaram o zoológico para encontrar um animal que melhor representasse seus respectivos papéis e anotavam informações em um mural para lerem antes das filmagens.

O núcleo de atores do teatro era forte e se misturou com nomes consagrados, como Marília Pêra, Jardel Filho e Elke Maravilha. Mas nem todos haviam pisado no palco antes: Edilson Lino, 55, por exemplo, pensava em ser jogador de futebol. Ele foi convencido por um primo a sair da Vila Industrial, na zona leste de São Paulo, para acompanhá-lo ao teste de elenco, onde hoje funciona o Teatro Bibi Ferreira. Ao chegar lá, o adolescente foi convidado a participar da peneira que reuniu milhares de jovens. Resultado: ele ficou com o papel de Fumaça (erroneamente creditado como Chico no filme); o primo, por sua vez, foi reprovado.

Sem pretensão de seguir como ator, Lino, hoje fiscal tributário em Descalvado, a 260 km de São Paulo, relembra esse dia em conversa com o TAB. "A Fátima [Toledo] pediu para que formássemos uma fila, como se estivéssemos sido presos ou cometido algum delito. Aí, passava um investigador e perguntava o motivo de o garoto estar ali. No meu caso, o rapaz se empolgou e deu um peteleco no meu saco. Olhei com cara de bravo, fiquei muito puto da vida, quis abandonar aquele lugar. Depois ela me chamou e disse que eu passei no teste. Talvez tenha sido essa minha reação, o olhar, que chamou a atenção", diz, aos risos.

No fio da navalha

Quem viveu em Diadema nos anos 1980 sabe que a linha entre vida e morte era tênue. Gilberto Moura, 56, levou referências da vida e do teatro para interpretar Dito. Ele se mudou para o ABC paulista ainda pequeno e viu o crime crescer exponencialmente na cidade — que chegou a ser considerada uma das mais violentas do mundo. Moura lembra com clareza dos justiceiros, chamados pés-de-pato, que "matavam moleques que roubavam qualquer coisa".

Antes de "Pixote", o ex-ator contracenou na peça "O último carro", escrita por João das Neves, com o amigo Fernando Ramos da Silva. O ativismo político já era parte de sua vida na adolescência: ele quase recusou um papel no filme "Os Trombadinhas", protagonizado por Pelé, porque o cachê estava abaixo do previsto pelo sindicato. Nos anos de chumbo, eram recorrentes as fugas em batidas policiais durante reuniões de movimentos artísticos de resistência.

Ao analisar o passado, acredita que seus "vários subempregos" garantiram que ele não vivesse à margem da sociedade. "Eu optei por não descambar e fui trabalhar em feira, quitanda, estacionamento e farmácia, garantir o sustento. A vulnerabilidade ali [em Diadema] era muito grande. Se você vacilasse, ia para o crime. Nessas condições, 'Pixote', é um estrato social do Brasil", avalia ele, hoje candidato a vereador em sua cidade.

Violência fictícia vs. Violência real

O filme é dividido em duas partes: a primeira se passa no reformatório para menores de idade e a segunda nas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro. É ali que Pixote, juntamente com Lilica, Dito e Chico, encontra a sobrevivência no crime. A cena mais tensa para os atores foi a da sequência de roubos, chamados de trombadas, no centro da capital paulista, em lugares como Viaduto do Chá e Sé — quando anônimos reagiam à ação fictícia com violência real, deixando sobrar socos, tapas e pontapés para o elenco.

Todo cuidado era pouco, principalmente para Julião, que saía de casa com cabelo pintado, unhas e sobrancelhas feitas. Vestido como Lilica, ele andava por São Paulo com uma declaração em uma folha de papel comprovando que ele era ator de cinema, para evitar de ser enquadrado pela polícia e, eventualmente, levado a uma delegacia. Mas a ação dos populares com sede de justiça foi impossível de ser evitada.

"Nós tínhamos uma equipe de segurança que ficava em quatro pontos na rua. Corríamos até eles, que abraçavam a gente e falavam 'filmagem, filmagem'. O Chico foi agredido por um homem, o Pixote quase apanhou. As pessoas iam atrás para bater quando ouviam os gritos. É claro que as pessoas assaltadas eram figurantes, sabiam que ia acontecer", afirma Julião.

"O que pode esperar uma bicha da vida?"

Hector Babenco era um diretor decidido, mas se mostrava aberto ao diálogo, conta o intérprete de Lilica. A cena em que ela canta "Força estranha", música de Caetano Veloso composta para Roberto Carlos, seria originalmente filmada com "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos", música de Roberto para Caetano. O ator disse ao cineasta que aquela letra não encaixava na cena e sugeriu a canção, que ele ouviu primeiramente na voz de Gal Costa.

É em uma tarde ensolarada na Praia do Arpoador que Lilica, a um mês de completar 18 anos, pergunta "o que pode esperar uma bicha da vida? Não posso marcar bobeira, não". Assim que começou a cantar, foi surpreendida com um abraço de Pixote, que não estava no roteiro. "Ele pôs a cabeça no meu ombro e me abraçou. Ficou tão bonito, tão terno", lembra o ator.

Se o final de "Pixote" pode trazer uma interpretação mínima de esperança, a vida pessoal de Fernando Ramos da Silva se confundiu com a de seu personagem mais memorável. Após o sucesso mundial do filme, ele fez pontas nos longas "Eles Não Usam Black-Tie" e "Gabriela, Cravo e Canela", além de participar da novela "O Amor é Nosso", da TV Globo. Foi impossível assegurar o seu destaque nos anos seguintes, segundo os atores entrevistados, porque o trabalho na televisão não deixa brechas para erros de um adolescente semialfabetizado.

Desempregado, Ramos da Silva participou de roubos, foi preso e solto — e era constantemente perseguido pela polícia de Diadema. Morreu aos 19 anos, casado e com uma filha pequena, perfurado por oito tiros disparados à queima-roupa por agentes do Estado. "A gente se encontrava, trocava ideias. Fernando era meu amigo, mesmo. A polícia matou Fernando como se ele fosse Pixote", lamenta Moura.

Pixote e Sueli em uma dos momentos mais marcantes do filme - Reprodução - Reprodução
Pixote e Sueli em uma dos momentos mais marcantes do filme
Imagem: Reprodução

Pixote, um filme que não acaba

Ed Anderson Mascarenhas, o autor do livro "Meu nome não é Pixote", considera que o longa de Babenco ainda é atual porque a situação do menor de idade apresentou poucos avanços nos últimos 40 anos.

"É um veículo de denúncia social que retrata o que acontecia na época sem ser panfletário — e não aponta saídas. Infelizmente, quase nada mudou. O que mudou para melhor foi a presença de movimentos sociais. Não tem como dizer que esse problema não existe. E hoje acho difícil de se resolver, poderia ter sido resolvido na década de 1970, se tivesse uma política de escuta e acolhimento, e não simplesmente dizimar, como se vê em 'Pixote'. Você sai na rua e vê que o filme não acabou", opina o escritor.

Segundo um relatório da Fundação Abrinq, em 2018, havia no Brasil mais de 20 milhões de adolescentes com até 14 anos vivendo na linha da pobreza. Quase metade deles sobrevivia com até R$ 234 mensais. O documento indica que cerca de quatro milhões de brasileiros com até 17 anos viviam em favelas. Em 2017, 11,7 mil pessoas entre zero e 19 anos foram assassinadas;1.200 foram pela polícia.