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'Mulheres difíceis': como o protagonismo feminino tem mudado séries de TV

Phoebe Waller-Bridge em cena de "Fleabag" - Divulgação
Phoebe Waller-Bridge em cena de "Fleabag" Imagem: Divulgação

Caio Delcolli

Colaboração para o TAB

18/09/2020 04h00

Em uma das cenas mais comentadas da série "Fleabag", a protagonista vivida por Phoebe Waller-Bridge assiste a uma palestra sobre feminismo com a irmã, Claire (Sian Clifford). A palestrante diz no palco: "Pergunto às mulheres aqui presentes hoje: por favor, levantem a mão se vocês trocariam cinco anos de vida pelo tal do 'corpo perfeito'". A protagonista e Claire são as únicas a levantar. Elas olham ao redor e ficam constrangidas. "Somos más feministas", diz a personagem de Waller-Bridge.

"Fleabag" é um dos mais recentes fenômenos de público, crítica e premiações — e também é um exemplar da atual safra de séries protagonizadas ou co-protagonizadas por mulheres. Segundo a pesquisa "Boxed In", feita pelo Center for the Study of Women in Television and Film da San Diego State University, 45% das personagens dos seriados exibidos entre 2019 e 2020 em canais abertos, a cabo e plataformas digitais tiveram protagonismo feminino. De 2014 a 2015, a quantidade foi de 40%.

As indicações ao Emmy deste ano — cuja cerimônia acontece no domingo (20) — também refletem essa expansão dos últimos anos. Em comédia e drama, cinco dos oito títulos indicados em cada categoria trazem mulheres à frente da história, enquanto, entre as minisséries, todas as cinco obras indicadas têm protagonismo feminino.

Do ponto de vista dramatúrgico, esses índices são tão empolgantes quanto o que temos visto nas telas nos últimos anos. Além de "Fleabag", séries como "Watchmen", "The Handmaid's Tale", "Big Little Lies", "The Good Wife", "Killing Eve", "Insecure", "Batwoman", "Pose", "The Marvelous Mrs. Maisel", "Russian Doll", "The Crown", "Sharp Objects", "Little Fires Everywhere", "Mrs. America", "I May Destroy You", "Unbelievable" e "She-Ra e a Princesa do Poder", entre dezenas de outros títulos, trazem protagonistas um bocado complexas — e que, às vezes, passam longe de ser carismáticas. Elas são herdeiras de uma histórica fase precursora na dramaturgia de TV.

O efeito "Sopranos"

É de entendimento comum que as séries viveram uma revolução iniciada por "Família Soprano", da HBO, em 1999. Na década seguinte, programas da TV paga, como "Breaking Bad", "Mad Men" e "The Wire", todas com homens como protagonistas, foram essenciais à consolidação desse processo — e também na formação de públicos de produções caprichadas com enredos sobre temas tabu, não muito diferente do cinema.

Cena da série "The Sopranos" - Reprodução - Reprodução
Cena da série "The Sopranos"
Imagem: Reprodução

O jornalista Brett Martin, autor do livro "Homens Difíceis" (Aleph, 2014), centrado nas séries desses personagens masculinos, argumenta que esses títulos, embora protagonizados por homens, apresentaram personagens femininas que abriram a porta para o atual momento. "Essas séries foram como cavalos de Troia. Homens estavam no comando do que era colocado na TV, então não é surpreendente que tenham havido mais histórias encabeçadas por eles", conta, em entrevista ao TAB. "Mas muitos desses seriados contavam com personagens femininas maravilhosas, como Carmela Soprano e Skylar White [de 'Breaking Bad']. Naquela época, 'Nurse Jackie' também era protagonizada por uma anti-heroína."

No decorrer dos anos, conta Martin, as equipes de roteiristas desses programas foram se tornando menos masculinas, brancas e heterrosexuais, o que também colaborou com as mudanças nas telas — e o escritor também acredita que se trata de uma reação à eleição de Donald Trump. "Isso fez com que as pessoas quisessem ver mais mulheres fortes e poderosas nas telas", analisa.

No início dos anos 2010, plataformas de VOD (video on demand) começaram a investir em produções originais para seus catálogos, e muitas delas, como "Orange is the New Black" (Netflix), deram espaço a minorias de gênero, orientação sexual e raça, entre outras. Em paralelo a isso, o debate político sobre esses grupos ganhou fôlego. Canais exibidores já haviam aprendido a lição da HBO com "Família Soprano": a chave estava em dar mais controle autoral a criadores.

O levantamento Boxed In (2019-20) constatou também que esse cenário é liderado pelo streaming: 42% das séries dessas plataformas contaram com protagonistas femininas no período considerado. As emissoras a cabo tiveram 27% de seus títulos encabeçados por mulheres, enquanto 24% dos exibidos pela TV aberta contam com mulheres à frente do enredo.

Pela primeira vez em 24 anos, a pesquisa "Where We Are on TV (2019-20)", da ONG Glaad, constatou que a quantidade de mulheres LGBTQI+ nas séries exibidas no horário nobre da TV (53%) ultrapassou a de homens (47%) — um aumento de 8,8 pontos percentuais em relação ao período 2018-19. Trata-se de um sinal, conclui o levantamento, de que o público tem respondido positivamente a essas personagens.

As séries brasileiras, à sua maneira, também têm caminhado nesse sentido, como mostram "Coisa Mais Linda" (Netflix), "Todxs Nós" (HBO), e "Me Chama de Bruna" (Fox Premium), entre outras. "O entretenimento tem uma relação recíproca com a sociedade. Personagens e histórias que vemos refletem nossos valores culturais. E nossa cultura, em um sentido mais amplo, pode evoluir ao vermos, nas telas, quem é diferente de nós", defende Megan Townsend, diretora de pesquisas em entretenimento da Glaad. Ela cita como exemplo quando em 2012, o então vice-presidente Joe Biden, da gestão de Barack Obama, afirmou que "Will & Grace" ajudou a população norte-americana a se tornar mais favorável ao casamento igualitário.

Em pesquisa publicada quatro anos depois, o Geena Davis Institute, em parceria com a J. Walter Thompson Company, levantou que 61% do público feminino disse ter sido influenciado por modelos de comportamento no cinema e na TV. Uma em cada nove contou que se sentiu motivada a terminar relacionamentos abusivos após ter acesso a enredos com esse tipo de situação. No Brasil, uma em cada quatro das entrevistadas afirmou o mesmo. Entretanto, Townsend pondera que apesar dos bons frutos, ainda há muito a ser feito. "É raro uma mulher transgênero ser protagonista, especialmente as não brancas. Tem aí uma incrível oportunidade para novas histórias que o público nunca acompanhou antes."

A representatividade também ganhou força atrás das câmeras. De acordo com o "Boxed In", 28% dos criadores são mulheres — uma alta de oito pontos percentuais em relação ao período 2017-18. É um número histórico. Na TV aberta, 30% do grupo composto por criadores, roteiristas, produtores, montadores e diretores de fotografia é feminino. Elas ocupam 31% desses postos na TV a cabo e, no streaming, 35%. Além disso, a presença delas em posições como criadoras ou produtoras executivas tende a contribuir com mais mulheres representadas tanto diante quanto atrás das câmeras.

Por outro lado, em todas as plataformas, 94% da programação não tinha mulheres no posto de direção de fotografia, 81% não tinha montadoras, 76% não tinha diretoras e 73% não tinha criadoras de seriados.

Novos caminhos

"As séries dos 'homens difíceis' têm como centro a vida dupla de seus protagonistas", explica Cheri Magid, professora do departamento de escrita dramática da New York University (EUA). "Elas trabalham com uma versão ampliada do conceito das duas identidades do super-herói, como Clark Kent e Superman, mas um em guerra com o outro", conta a roteirista e dramaturga. "Tony Soprano, o chefe da máfia, está em frequente conflito com Tony Soprano, o pai de família. Esse conflito interno gera grandes conflitos externos, conforme o protagonista tenta se virar com dois mundos diferentes ao mesmo tempo."

De acordo com Magid, séries protagonizadas por mulheres têm se diferenciado ao usar estruturas menos aristotélicas e mais circulares — ou espirais. "São programas que, frequentemente, soam mais frescos não apenas pelas protagonistas femininas complicadas, mas também por soarem novos e inusitados." A professora também credita a proliferação de plataformas como um fator que tem trazido variedade e quantidade. "A diferença em nossa era é que há mais mulheres na posição de showrunner", diz.

Magid aponta que esse tipo de protagonismo feminino não é essencialmente novo, pois antes das plataformas digitais, mulheres complicadas já estavam à frente de "Buffy, a Caça Vampiros", "Sex and the City" e "The L Word", por exemplo. Nos anos 1970, a comédia "The Mary Tyler Moore Show" refletia a segunda onda do feminismo daquela década.

Segunda temporada de "Big Little Lies" tem novas imagens divulgadas - Divulgação/HBO - Divulgação/HBO
Elenco de "Big Little Lies"
Imagem: Divulgação/HBO

Ela pondera ainda que, mesmo após tantos avanços, ainda "precisamos de mais personagens com histórias de vida sub-representadas". É o que mostram outros dados da "Boxed In". Mulheres brancas ainda são a maioria das protagonistas, sendo 66% desse grupo, enquanto 20% são negras. Apenas 8%, 5% e 1% eram asiáticas, latinas e de outras etnias, respectivamente.

Idade também é um fator importante: 58% das personagens estavam na faixa etária de 20 a 30 anos, enquanto 53% dos homens tinham entre 30 e 40. Nicole Kidman e Reese Witherspoon são exemplos de atuação nesse aspecto. Depois de completarem 40 anos, ambas ficaram descontentes com as más ofertas de papéis oferecidos a elas. As atrizes fundaram cada uma a própria produtora, e os resultados positivos já são visíveis: a união das duas viabilizou a produção de "Big Little Lies", um recente fenômeno da HBO.

"Como é maravilhoso ver que, hoje, nossas carreiras podem ir além dos 40 anos. Porque, 20 anos atrás, nós já teríamos acabado nesse estágio de nossas vidas", disse Kidman em 2018, ao vencer o prêmio SAG pela performance na produção. "Imploro que a indústria continue a nos apoiar, pois nossas histórias estão finalmente sendo contadas. É apenas o começo."