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Lockdown e home office: pandemia traz de volta debate sobre estrangeirismos

"Home office" é um dos termos estrangeiros adotados pelo brasileiros a partir da pandemia - Unsplash
"Home office" é um dos termos estrangeiros adotados pelo brasileiros a partir da pandemia Imagem: Unsplash

Mateus Araújo

Colaboração para o TAB

17/09/2020 04h00

Passados mais de seis meses desde o início da quarentena no Brasil, todos nós já nos acostumamos a muitos novos hábitos dessa rotina extraordinária. Alguns mais, outros menos, é verdade — como aqueles que não usam máscara ou que descumprem o isolamento social. Mas uma coisa é certa: ninguém parece incólume às palavras e expressões que surgiram ou passaram a ser mais usadas a partir da pandemia.

É o caso dos estrangeirismos e neologismos que fazem parte do "pacote" Covid-19 — como "lockdown", "home office", "novo normal" e "testar positivo" — e não demoraram para serem discutidos entre estudiosos e escritores no país. "Suponho que o que vai pegar mesmo é o que já pegou, o corona", disse o professor Deonísio da Silva, em entrevista à Folha, ainda em maio.

Mais recentemente, porém, "delivery" foi quem virou assunto para o escritor Luis Fernando Veríssimo "Nada simboliza melhor nossa submissão ao colonialismo cultural do que dizer 'delivery' em vez de 'entrega'", escreveu. Para ele, "o coronavírus, que está alterando tudo em nossas vidas, não poderia deixar de mudar nosso modo de falar, e impor o que deve nos preocupar nesta hora obscura da nacionalidade. "Delivery" pertence à linguagem prática da crise."

Com o isolamento, a palavra "delivery" passou a ser usada com mais frequência, em vez de "entrega" - Leticia Moreira/Folhapress - Leticia Moreira/Folhapress
Com o isolamento, a palavra "delivery" passou a ser usada com mais frequência, em vez de "entrega"
Imagem: Leticia Moreira/Folhapress

Conversa antiga

A discussão sobre a influência de termos estrangeiros na nossa fala não é fenômeno novo, como explica ao TAB a professora e analista de discurso Rita Kramer, doutora em linguística pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). É uma reflexão eterna, diz. "Veríssimo não faz a crítica enquanto cientista da linguagem. Ele é um sujeito que está numa posição de reivindicar autenticidade, a brasilidade, de pensar essa identidade nacional por uma originalidade", contextualiza. "Ao mesmo tempo, isso é contraditório, porque a formação da identidade brasileira é perpassada por essa mistura, essa alteridade -- e isso acontece na língua também."

É comum o surgimento de novas palavras e termos (ou adaptações deles) no momento em que lidamos com algo desconhecido, como a crise sanitária, explica a professora. "Quando há um fenômeno para o qual não temos vocabulário, porque ele ainda não foi pensando na nossa cultura, a tendência é buscar referência em quem já pensou sobre aquilo", diz. "Quem tem poder em determinada área vai fornecer um vocabulário maior. É o exemplo da França com o vocabulário gastronômico ou os Estados Unidos com vocabulário tecnológico. Como o Brasil não exporta as ideologias dominantes do mundo globalizado, as palavras brasileiras não vão ter a mesma penetração nas outras línguas."

Para Kramer, apagar as palavras estrangeiras não vai mudar uma situação estrutural da sociedade de colonização ideológica e cultural. "Vale muito mais a pena a gente olhar essa palavras como materialização simbólica dessa colonização, e estudar esse contexto através delas. Esse é um posicionamento mais interessante para a gente enquanto cidadão, pesquisador, linguista. Porque não se combate o rio que corre pro mar", observa.

Analisar o fenômeno da linguagem, em vez de combatê-lo, impede um olhar purista sobre o fato, na opinião da pesquisadora. "É típico dos governos fascistas proibirem palavras de outras línguas. Isso aconteceu em governos como o de Francisco Franco [ditador espanhol] e de Getúlio Vargas, que proibia os imigrantes usarem a língua nativa por uma uma afirmação nacionalista."

"Proteção" do idioma

Segundo a também linguista Aniela Improta França, professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o estrangeirismo não ameaça a língua portuguesa porque é justamente uma forma de ela estar viva. "Nada vai abalar nossa língua mãe. Ela é naturalmente superior e imune a tudo isso. O português nada tem de frágil", afirma.

A professora lembra que o temor por um possível colonialismo na língua tem a ver com um "erro cometido no passado", pelos cientistas Benjamin Lee Whorf e Edward Sapir. Na primeira metade do século 20, eles "ficaram impressionados com a diversidade linguística na América do Norte e argumentaram que as línguas influenciariam a maneira como as pessoas pensam e a forma como culturas são organizadas", conta Aniela França.

A tese de Whorf e Sapir, porém, não tem mais apoio científico hoje, 80 anos depois de sua proposição. "Sempre deixamos entrar palavras de outras línguas para estender o alcance do português, mas isso não significa que o nosso sistema de educação está falido. Fazemos isso porque somos muito expostos ao mundo globalizado, mas incorporamos os empréstimo de acordo com as nossas regras, do nosso jeito."

França usa a antropofagia para explicar que quando nos apropriamos de um termo estrangeiro "deglutimos" a palavra e damos a ela uma versão "tupiniquim". É o caso de delivery, tão na moda hoje em dia. "A palavra 'delivery', no Brasil, ganha uma pronúncia diferente, é transfigurada em todas as suas vogais e se acomoda como uma nova palavra", aponta a professora. "Ou seja, não tentamos resgatar nada da origem da palavra. O empréstimo é como um peixe desavisado que deixou o cardume dele, caiu na nossa rede e vai fazer parte do nosso banquete."

Para a pesquisadora, a preocupação em proteger uma língua não se aplica ao caso do português brasileiro — que é falado por mais de 200 milhões de pessoas. No entanto, é algo a se levar em conta em línguas indígenas, que "estão realmente em risco de extinção e podem acabar sendo deglutidas pelo português, que é a língua forte que está em contato com elas", explica.

Uma pesquisa divulgada em 2016 pelo IEL (Instituto de Estudos da Linguagem) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) mostrou que das 1,5 mil línguas indígenas existentes no Brasil na época da colonização, apenas 180 foram mantidas. A maioria delas, 115, é usada por menos de mil falantes.

"Para essas pessoas, esquecidas pelas autoridades, que são desrespeitadas em seus direitos essenciais, ter o português se impondo como a língua de comunicação, pode acentuar a desigualdade social e até promover a extinção total da língua, como já foi o caso que tantas línguas que perdemos", lembra ela. "Mas não se trata, nesses casos, de barrar os empréstimos linguísticos — e sim de barrar as situações de assimetria perene e consolidada entre, por exemplo, as comunidades indígenas e o resto do país."

França defende que o uso de estrangeirismos na língua portuguesa é mais do que normal e em nada atrapalha as desigualdades do Brasil. "Por exemplo, o fato de moradores da periferia usarem o termo 'lockdown', em nada colabora para acentuar as desigualdades sociais desse grupo no Brasil."

"Minha pátria é minha língua"

A discussão em torno de estrangeirismo mobiliza há tempos escritores brasileiros — alguns historicamente opostos ao excesso dessas palavras na língua portuguesa. É o caso de Ariano Suassuna, que se tornou um símbolo desse movimento. "A língua portuguesa é o meu material de trabalho", frisava, recorrentemente, o paraibano. Junto a ele, endossaram a defesa de nosso idioma nomes como João Guimarães Rosa, José Cândido de Carvalho, Rachel de Queiroz, Mário Palmério e Rubem Braga — "cada um a seu modo, grandes defensores da língua portuguesa", lembra o professor da UFPE Carlos Newton Jr.

4.fev.2014 - O escritor Ariano Suassuna comanda uma aula-espetáculo no Teatro de Santa Isabel, em Recife - Roberta Guimarães/UOL - Roberta Guimarães/UOL
4.fev.2014 - O escritor Ariano Suassuna comanda uma aula-espetáculo no Teatro de Santa Isabel, em Recife
Imagem: Roberta Guimarães/UOL

Mas Ariano Suassuna ficou conhecido por suas frases e trocadilhos engraçados para abordar o tema. "Quando lhe diziam 'ok', ele perguntava, brincando: 'ocaste?', como se se tivesse pronunciado um verbo, o verbo 'ocar', 'ficar oco', lembra Newton Jr., especialista na obra suassuniana.

Isso não era purismo ou radicalismo, explica o pesquisador. "A língua portuguesa — com todas as variações de sotaques, com todos os regionalismos, coisa natural num país de dimensões continentais, como o nosso — é a medula da nossa identidade como povo e como nação. Era isso o que Ariano defendia", diz.

Embora reconhecesse a dinâmica da língua, para o autor do "Romance d'A Pedra do Reino", ela é a origem de uma identidade cultural nacional. "Isso não significa xenofobia ou aversão ao estrangeiro. Ariano era leitor de grandes escritores norte-americanos. Era apaixonado por Herman Melville, por exemplo. O que ele combatia era o lixo cultural, viesse de onde viesse, até o lixo cultural produzido aqui mesmo, no Brasil", diz Carlos Newton Jr.