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'No Brasil, diante da ruína iminente, vamos sambar', diz Tales Ab'Sáber

Prefeitura afirma que festa tinha mil pessoas em SP - Arquivo Pessoal
Prefeitura afirma que festa tinha mil pessoas em SP Imagem: Arquivo Pessoal

Mônica Manir

Colaboração para o TAB

07/09/2020 04h00

"Bando de egoístas!" Assim reagiu um internauta ao ver a imagem de jovens aglomerados em uma chácara no bairro de Gramados de Santa Rita, na cidade de Campo Limpo Paulista (SP), no dia 23 de agosto, dançando como se não houvesse amanhã.

Neste feriado de 7 de setembro, rodovias, praias e bares lotados. No último fim de semana de agosto, muitos registros de festas apinhadas de gente. Uma delas ocorreu no bairro do Ipiranga, zona sul de São Paulo. Dali, jovens emendaram outra balada — desta vez em Guarulhos, região metropolitana. Flagrantes postados nas redes sociais mostram que as máscaras não constavam do vestuário.

A Prefeitura de São Paulo diz que interditou, desde o começo da pandemia, mais de mil estabelecimentos que promoveram encontros regados a pouco distanciamento. A cena se repete pelo Estado paulista, que registra mais de 30 mil mortes por Covid-19, no que já superou a Espanha. Jovens de 20 a 29 anos são a terceira faixa etária com mais infectados pelo novo coronavírus, com 16,4% do total. Ultrapassaram aqueles com 50 a 59 anos. "Me sinto um tolo", reagiu outro internauta, indignado com as transgressões juvenis ao isolamento que se multiplicam no país.

Para o psicanalista Tales Ab'Sáber, trata-se de uma questão que se bifurca. Se os jovens estão concentrados em atender a seus próprios prazeres, a sociedade em que transitam também não favorece o recolhimento nem a empatia. "O país avança numa neurose de recusa", diz. "Todos querem o pequeno circuito de gozo que o mercado criou para cada um." Seria um apego radical e acrítico ao que já existia, conjugado ao negacionismo de uma doença que não escolhe idade, tampouco indica ter fim.

Professor de Filosofia da Psicanálise na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e autor, entre outros, de "A Música do Tempo Infinito", em que mergulha nos famosos clubes de Berlim, Tales Ab'Sáber se divide entre longas aulas online e um novo livro, no qual retrata um Brasil que não acusa a existência de si desde os tempos coloniais. Em entrevista ao TAB, ele revela o que tem descoberto nesta jornada de pesquisas.

TAB: O que estaria motivando muitos jovens a romper o isolamento social?

Tales Ab'Sáber: Em primeiro lugar, os jovens estão inseridos em um mundo que não permite o recolhimento, a solidão e a investigação de si. Para poder sustentar o isolamento social, precisa haver um movimento intrapsíquico, um tipo de autocuidado, inclusive para suportar o luto pela perda do próprio cotidiano durante um tempo. Mas o que a gente vê é que as pessoas em geral não estão dispostas a fazer isso nem têm habilidade para tanto. Não conseguem ficar consigo mesmas. Se ficam, tornam-se doentes, confusas, sentem uma pressão constante para sair dessa posição — até porque foram tramadas para fora, para a produção, para a socialização, e não há nada em si mesmo a se perguntar. É o que Foucault [Michel Foucault, filósofo francês] chamava de biopolítica do mundo, o modo com que se desenham os sujeitos para a regra do jogo econômico, político e jurídico. E o nosso mundo convida à ação. Toda propaganda diz: "Vai lá, gere seu dinheiro e compre". É tudo orientado para que você circule no ritmo da mercadoria e da expansão do mercado.

TAB: Há algo particular aos jovens que os impele mais à ação?

TAS: Para os jovens é mais difícil, porque a adolescência e o começo da vida adulta são momentos de experiências muito fundamentais. É quando se entra no aprendizado da vida amorosa e sexual, difícil de abrir mão. Mesmo na clínica psicanalítica, quando se trabalha com adolescentes, a gente vê que se interessam pelo trabalho analítico, mas o mínimo possível. Assim que se sentem seguros e fortes, vão embora. E têm de ir mesmo, porque completam alguma coisa no seu vir a ser. É legítimo, portanto, eles quererem se encontrar, se conhecer. Mas é claro também que o mercado explora isso, com a multiplicação das marcas mundiais de diversão e com o negacionismo. Existe uma falência muito forte da capacidade de pensar sobre certas coisas que estão na frente do nariz.

TAB: Que coisas, por exemplo?

TAS: Falo da recusa de uma doença real, que pode levar à morte em qualquer idade. Para retomar a vida, as pessoas desligam a capacidade de pensar sobre esse problema. É um mecanismo que os psicanalistas chamam de recusa, fundamento de todo o negacionismo. Recusam a doença porque hiperinvestem em outras realidades, mas só aquelas que interessam a elas. É mais grave porque estamos falando de uma política, a política do negacionismo, questão contemporânea muito importante.

Tales Ab'Sáber, psicanalista, escritor e professor de Filosofia da Psicanálise na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Tales Ab'Sáber, psicanalista, escritor e professor de Filosofia da Psicanálise na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)
Imagem: Arquivo pessoal

TAB: No seu livro sobre as baladas, você enfatiza que elas são ambientes mais dirigidos ao consumo e ao prazer e menos à crítica. Você enxerga um cenário semelhante nas festas clandestinas feitas durante a pandemia?

TAS: Quando escrevi aquele trabalho sobre música eletrônica, drogas e longas jornadas de diversão, tinha a ver com o capitalismo contemporâneo de permanente excitação, que oferece a fantasia de consumação de todos os prazeres a preços módicos. A contrapartida desse espaço de exceção seria aceitar o mundo como ele era. De alguma forma, essa aceitação fazia bem às pessoas, mas anulava a força da política. A política virava um divertir-se sem fim. A situação agora é um pouco diferente. Aquela forma cultural estava ligada à hiperaceleração do capitalismo no mundo. Depois disso, houve uma desorganização dos mercados mundiais, um ataque de novas direitas nacionalistas e autoritárias às democracias liberais, e então essa pandemia.

TAB: Qual é a fantasia agora?

TAS: O que a gente vê na pandemia é o que Zizek [Slavoj Zizek, filósofo esloveno] definiu como "um amor infinito e altamente conservador pela vida como ela é". As pessoas querem voltar para a sua vidinha. Mesmo aquelas que dizem que o mundo é ruim, difícil, que não deveria ser assim, numa hora dessas, se agarram ao que têm. E não fazem o movimento crítico de pensar inclusive que foi esse mundo que entrou em crise e que, pela primeira vez, globalizou o problema de saúde pública mundial, fruto das violências ambientais. Temos questões graves para pensar sobre nossas vidas, mas as pessoas querem o seu cafezinho, o seu almoço, a sua cerveja da tarde, a sua balada da noite. E aí o líder de extrema direita autoritário brasileiro, que fala de um ponto de vista banal e pouco solidário com as vidas, não deixa de acertar em cheio. Ele sabe que o que todos querem é o pequeno circuito de gozo que o mercado criou para cada um.

TAB: Pequenas ou grandes festas clandestinas são publicadas nas redes sociais. No começo geraram "cancelamentos", como a reunião da influenciadora digital Gabriela Pugliesi e seu "foda-se a vida!". Mas agora se disseminam sem pudor. São gozos que precisam ser divulgados para existir?

TAS: O cenário é complexo porque articula corpo, desejo e pulsões a novas tecnologias, novas modalidades de produção do eu. É uma dimensão muito vista no universo dos youtubers, nessa comunicação meio espetáculo, meio show. Tudo muito precário, mas que por isso mesmo gera proximidade. Eles dizem alguma coisa que serve para as pessoas, mas ao mesmo tempo se vendem. Se você está tendo um gozo que acha importante, precisa lançar isso nesse espaço espetacular para ser você mesmo. Ou seja, é o fim da intimidade, do recolhimento, daquilo que eu disse no início: olhar para si mesmo em solidão. Isso está disseminado, de modo que muitas vezes as pessoas precisam fotografar antes de experimentar. Estão lá se divertindo e se expandindo como eu-espetáculo. É muito mais forte e radical do que a ideia de correr risco de morrer.

TAB: Os jovens normalmente se aglomeram sob músicas altas e dançantes. Que função elas desempenham?

TAS: Do mesmo jeito que o esporte é a sublimação da competição e da guerra, a música de dança é a sublimação da vida erótica e do sexo. É sempre uma colocação do corpo. Mas, no caso do Brasil, há elementos históricos específicos. Desde os primórdios do país, a música foi o espaço de representação possível dos negros, dos oprimidos, dos escravizados. Na medida em que aparecia na cultura autoritária e escravocrata, ela representava o corpo, a história e a tradição. E ligava ontologicamente o presente e o passado, dando certa unidade a um processo de fragmentação. O samba é a primeira dessas grandes manifestações no meio da violência e do terror, e isso virou uma tradição.

No Brasil, as pessoas habitam mais a música e a festa que os direitos. É o único lugar possível de existência. Diante da ruína iminente, vamos sambar.

TAB: Como vê a saída dos jovens pelas ruas contra o racismo, como tem acontecido nos EUA?

TAS: Ali, vale a pena arriscar a vida pela luta no avanço de um direito universal, que é cair o racismo e a polícia racista no país. Veja que a festa é a política, não o gozo individual. Claro que isso vem sendo construído ao longo de 50 anos para chegar a esse momento de consenso democrático vindo dos jovens nos EUA, que é uma das forças mais importantes na derrubada do Trump. Mas vale notar que existe uma grande classe média americana dependente dos pequenos empregos em que a maioria são negros e latinos, porém há também jovens brancos. É uma aliança pela questão racial, mas também uma aliança dos pobres. No Brasil, não temos aliança ainda, não sei se teremos, porque as cisões são muito maiores entre a classe média branca e os pobres. E ainda vivemos sob a radicalidade de um país que avança numa neurose de recusa e que, politicamente, tomou a posição de interesses particulares. O governo se descompromete dos contratos universais. Cada um que cuide de si. Nesse sentido, acho um pouco injusto culpar os jovens pela falta de empatia dentro dessa nossa cultura egoísta contemporânea. Estamos todos na balada sertaneja, no pancadão. Não temos nenhuma unidade de proteção e demanda dos nossos direitos gerais. Nenhuma.