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De casa nova, acervo da MTV Brasil pode estar perto de restauração

Da esq. para a dir., os apresentadores Edgard Piccoli, Marina Person e Luís Thunderbird - Flávio Florido/Folhapress
Da esq. para a dir., os apresentadores Edgard Piccoli, Marina Person e Luís Thunderbird Imagem: Flávio Florido/Folhapress

Victor Bianchin

Colaboração para o TAB

03/09/2020 04h01

No primeiro final de semana de julho, uma parte significativa da memória televisiva brasileira mudou de endereço: as milhares de fitas betacam analógicas que compõem o acervo da MTV Brasil saíram do antigo prédio da emissora na capital paulista, no bairro do Sumaré, e foram para o prédio da Editora Abril, na Freguesia do Ó.

São cerca de 40 mil fitas que abarcam todo o conteúdo original produzido pela emissora desde sua primeira transmissão, em 20 de outubro de 1990, até seu encerramento, em 1º de outubro de 2013. A VJ Cuca Lazzarotto, que apresentou o primeiro videoclipe da MTV Brasil ("Garota de Ipanema", de Marina Lima), voltou à emissora para apresentar o vídeo derradeiro, "Maracatu Atômico", de Chico Science e Nação Zumbi.

Estão presentes momentos históricos como os "Acústicos MTV", incluindo o de Roberto Carlos, que nunca foi exibido na emissora devido ao contrato do Rei com a TV Globo; entrevistas com artistas nacionais e internacionais, como Renato Russo e Kurt Cobain, e o show de Caetano Veloso e David Byrne no VMB 2004, em que o músico baiano, irritado com os problemas técnicos, bradou: "MTV, bota essa p***** pra funcionar!".

O acervo está numa espécie de limbo legal: o material físico pertence ao Grupo Abril, que trouxe a emissora norte-americana ao Brasil e foi dona da divisão brasileira até seu encerramento. Já a marca pertence à ViacomCBS, grupo que passou a operar a MTV no país como canal pago já em 2013, logo após o afastamento da Abril.

O grupo de mídia brasileiro, vale dizer, tinha direito de operar a MTV até 2018, mas resolveu pular fora cinco anos antes. A justificativa, na época, foi uma "reestruturação", a primeira de muitas após a morte do presidente do grupo, Roberto Civita, em maio de 2013. Os filhos de Roberto, que herdaram o conglomerado, fizeram sucessivas mudanças para enxugar a operação ao longo dos anos, o que incluiu a extinção de diversos veículos de mídia impressa, a devolução do prédio alugado no bairro de Pinheiros e o encerramento da MTV. Cheio de dívidas, o Grupo Abril entrou em recuperação judicial em 2018 e foi vendido ao empresário Fábio Carvalho em 2019.

Interesse renovado

A nova direção da Abril não sabe dizer por que o acervo permaneceu tanto tempo no prédio antigo. Afirma que, assim que assumiu, passou a dar atenção à questão. "Ainda não houve tempo hábil de checagem detalhada de cada peça do acervo", afirma Fábio Carvalho, presidente do grupo. "Segundo as informações que temos, o armazenamento no prédio antigo da MTV era realizado com a devida cautela e não esperamos problemas. Mas o acervo é volumoso e acabamos de recebê-lo. Estamos em fase inicial de estudos e análises do material", conta.

Segundo Carvalho, existem "inúmeras manifestações" de interesse de outras pessoas e empresas, tanto para aquisição como para parcerias de utilização. A própria Abril, ele afirma, tem grande interesse no acervo. "Estamos entusiasmados com a possibilidade de trabalhar esse patrimônio da cultura audiovisual brasileira. Há um material interessantíssimo", afirma o presidente. Ele ressalta, no entanto, que não há nenhum acordo firmado até o momento.

A apresentadora Sabrina Parlatore entrevista a banda "Charlie Brown Jr." no programa "Luau MTV" - Reprodução - Reprodução
A apresentadora Sabrina Parlatore entrevista a banda Charlie Brown Jr. no programa "Luau MTV"
Imagem: Reprodução

A ViacomCBS, detentora da marca, também diz estar interessada no acervo, ou pelo menos, em parte dele. "Há alguns programas que nos interessam", afirma Tiago Worcman, vice-presidente sênior de Música e Entretenimento da ViacomCBS América Latina, sem especificar quais. "O material é bastante rico e abundante, e faz parte da história da televisão brasileira. Estamos neste momento checando direitos de imagem e conferindo o que pode nos interessar."

Além da aquisição e dos direitos de exibição, existe também a questão de digitalizar o material, que está inteiro em fitas analógicas. A Abril diz não ter conhecimento de iniciativas sobre essa digitalização, enquanto a ViacomCBS conta que o assunto foi conversado "algumas vezes", mas nada se concretizou.

Passando a bola

Ao longo desses sete anos, as cerca de 40 mil fitas da antiga MTV Brasil ficaram guardadas num espaço de 100 mil m² no prédio do Sumaré, em São Paulo. O endereço é um grande marco na história da TV brasileira. Inaugurado em 1960, ele foi construído por Assis Chateaubriand para ser a sede da TV Tupi, primeira emissora televisiva do país.

Quando desistiu da MTV, a Abril, para não perder a concessão do sinal, colocou no ar um conteúdo reprisado da Ideal TV, emissora de conteúdo voltado a empreendedores, que operou originalmente entre 2007 e 2009. Depois dessas reprises, a empresa passou a comercializar horários para terceiros, incluindo igrejas e leilões de agronegócio, e finalmente vendeu o sinal (32 UHF e 31 digital) por R$ 290 milhões para a Spring Televisão S.A — uma joint-venture entre a Spring Editora, que publica a revista Rolling Stone Brasil, e os donos do Grupo Kalunga.

A Spring, que também comprou o prédio no negócio, manteve a Ideal TV funcionando com o mesmo nome e o mesmo modelo, arrendando horários para conteúdo de terceiros, principalmente a Igreja Mundial do Poder de Deus. Em 2015, porém, o Ministério Público denunciou as duas empresas por venda ilegal de funcionalidade pública, alegando também "desvio de funcionalidade", uma vez que a proposta da MTV Brasil era bem diferente daquela da Ideal TV. Em outubro de 2016, o imbróglio foi resolvido e a compra do sinal pela Spring foi autorizada.

Quem cuidou do acervo nesse tempo todo foi o ex-diretor de operações Valter Pascotto, que trabalhou na MTV Brasil desde 1989, até o fim do canal. O acervo permaneceu no prédio da Sumaré por conveniência, e Pascotto, embora não fosse remunerado para isso, ficou como guardião do material.

Pascotto permanece trabalhando no prédio do Sumaré após a venda, agora como funcionário da Kalunga. Ele trabalha no conteúdo da Ideal TV que não é arrendado e que inclui material da EBC (Empresa Brasil de Comunicação) e do Telecurso 2000.

Um legado a se preservar

Quem ganhar o direito de digitalizar e explorar o conteúdo da MTV Brasil terá á sua disposição um baú de tesouros que, hoje, só se encontra disponível em fragmentos disponibilizados por fãs no YouTube, muitos deles com qualidade baixa de som e imagem.

Estão ali momentos incríveis como a briga ao vivo entre Dado Dolabella e João Gordo, a participação de uma Christina Aguilera mal-humorada no "Disk MTV" porque a apresentadora Sabrina Parlatore estava mais arrumada que ela, as vinhetas do "Garoto Enxaqueca" (um dos primeiros trabalhos do dublador Fábio Lucindo, que ficou famoso fazendo o Ash de "Pokémon"), o primeiro beijo gay da TV brasileira (no programa "Fica Comigo", em 2001), os primeiros programas da trupe de "Hermes e Renato", as entrevistas de Fábio Massari e muito mais.

"No Brasil, os artistas da geração dos 1990 e 2000 estão registrados lá, e da forma mais legal", afirma Júlio Piconi, diretor que trabalhou por 13 anos na MTV (entre 1998 e 2009 e depois de 2012 a 2013) e comandou programas como "Rocka Rolla", "Ilha das Fivelas" e "Daniela No País da MTV", além de dez edições do VMB, o "Video Music Brasil".

"Imagina o que os velhos e possíveis novos fãs de Charlie Brown Jr. poderiam ver? Você poderia apresentar O Rappa direito pro seu filho. Se algum jovem quer entender Chico Science, pode procurar lá. A entrevista do Zeca Camargo com o Kurt Cobain, por exemplo, ou o Kurt falando dos Mutantes... muita coisa [é relevante]. Acho um registro histórico e jornalístico importante. É bom para a cultura brasileira ter a história dos seus artistas registrada e acessível", defende Piconi.

Piconi diz que o ideal seria eternizar o material no YouTube, mas que não vê isso acontecendo. "O arquivo ficou inacessível. Se você precisava copiar alguma coisa, ou não podia ou era muito burocrático e difícil, devido a questões judiciais", conta o diretor. Ele ressalta, porém, que a Abril não poderia mesmo ter feito muita coisa com o material, já que a marca pertence à ViacomCBS. "Poderia ter ficado [oficialmente preservado] como o arquivo da TV Manchete, na TV Cultura? Poderia, mas ninguém tem acesso a ele. A Abril, pelo menos, manteve o arquivo bem guardado", acredita.

O acervo da MTV é tão cobiçado que tem até abaixo-assinado dos fãs pedindo sua disponibilização. Com a transferência das fitas para o prédio da Abril e a sinalização explícita de interesse por parte dos donos do material, pode ser que os programas e videoclipes que fizeram parte da juventude de tantos brasileiros sejam finalmente resgatados.