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Em movimento inédito, orquestras e maestros debatem apagamento de negros

Filarmônica da Nova York, no Avery Fisher Hall - Wikimedia Commons
Filarmônica da Nova York, no Avery Fisher Hall
Imagem: Wikimedia Commons

João Luiz Sampaio

Colaboração para o TAB

26/08/2020 04h01

Enquanto as ruas dos Estados Unidos foram tomadas por protestos contra o assassinato de George Floyd, em Mineápolis, a Orquestra Filarmônica de Nova York emitiu um comunicado histórico. Nele, o grupo reconheceu que tinha muito a aprender sobre a história de racismo no país e que tomaria medidas comprometidas com "os mais altos ideais de justiça racial, diversidade e inclusão". Aqui no Brasil, no começo de agosto, a Orquestra Sinfônica da Bahia criou, de forma inédita, uma academia virtual destinada a jovens músicos. O processo de seleção inclui ações afirmativas: 20% das vagas são destinadas a músicos negros e de baixa renda e outros 20%, às mulheres.

O anúncio da orquestra norte-americana trouxe a questão do racismo para o centro do debate no universo da música clássica. Uma pesquisa realizada pelo site Middle Class Artists revelou que, entre os cantores regulares na história da Metropolitan Opera House de Nova York, apenas 3% eram negros. A LaPlaca Cohen, instituto de pesquisa especializada em artes, por sua vez, mostrou que existe, também na plateia, um abismo de representatividade: de acordo com pesquisa divulgada no início de julho, os negros representam 12% da população adulta dos Estados Unidos mas apenas 3% do público de mais de 600 entidades culturais que participaram do levantamento, cuja parcela de público branco é de 85%.

Não por acaso, o jornal The New York Times estampou na capa de seu caderno de cultura a manchete "Opera can no longer ignore its race problem" (A ópera não pode mais ignorar seu problema ligado à raça). Além do depoimento de artistas negros, o material trazia um artigo do crítico-chefe do jornal, Anthony Tommasini, sugerindo mudanças no processo de contratação de músicos para que orquestras tenham maior diversidade.

"O único integrante negro da Filarmônica de Nova York é o excelente clarinetista Anthony McGill. Em 2020, isso é inadmissível. Não faltam instrumentistas negros de altíssimo nível, formados pelas melhores escolas. Racismo em audições para empregos em orquestras é um problema real e palpável. E o mesmo vale para a escolha de solistas e regentes convidados", diz o compositor brasileiro Marcos Balter, radicado nos Estados Unidos, onde dirigiu o departamento de música da Columbia College, em Chicago, e é atualmente professor de composição da Universidade da Califórnia.

Uma pesquisa norte-americana de 2014 mostrou que apenas 1,8% dos músicos de orquestra no país são negros. No Brasil, não há levantamentos semelhantes. Mas a ausência de diversidade nas salas de concertos do país, tanto no palco quanto na plateia, é visível.

"Desde que comecei a estudar música me habituei a ir a apresentações. Há um tempo, levei comigo um amigo que nunca havia estado na Sala São Paulo. E ele ficou impressionado, me perguntando se eu tinha percebido que nós dois éramos os únicos negros naquele ambiente. Você se acostuma com isso, como uma realidade desse meio, mas alguém de fora acaba chamando sua atenção para o fato de que aquilo não é normal", conta a violinista Samara Gama, 23.

Sua percepção é compartilhada por colegas. Um deles é o violoncelista Juan Rogers, 21, que hoje integra a Orquestra Jovem do Estado, depois de ter iniciado seus estudos no Instituto Baccarelli, projeto de formação musical e inclusão social na comunidade de Heliópolis, na zona sul de São Paulo. "Uma hora você está no palco, sendo aplaudido. Depois, tem que lidar com o olhar torto das pessoas. Mesmo quando vou só assistir a um concerto, levo meu violoncelo. É como se o instrumento, o fato de eu ser estudante, justificasse a minha presença naquele ambiente."

A soprano Edna D'Oliveira - Eduardo Knapp/Folha Imagem - Eduardo Knapp/Folha Imagem
A soprano Edna D'Oliveira
Imagem: Eduardo Knapp/Folha Imagem

Embranquecimento musical

A soprano e professora Edna D'Oliveira lembra que o mercado de música clássica brasileira passou por um "processo de embranquecimento". "No período colonial, os escravos foram os nossos primeiros músicos. Nas fazendas, formavam orquestras para entretenimento dos senhores", conta. "Foi nesse contexto que surgiram figuras como o Padre José Maurício Nunes Garcia, nome fundamental da música no final do século 18. Com a Abolição, no entanto, os músicos negros encontravam resistência de pessoas que não queriam pagar seus salários e foram sendo deixados de lado."

Samara Gama, 23 anos, estudante de violino - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A violinista Samara Gama, de 23 anos
Imagem: Arquivo pessoal

Nos últimos trinta anos, o nascimento de uma série de projetos de formação musical aliada à inclusão social começou a mudar o perfil dos jovens músicos. Mas isso não significou uma mudança na composição das orquestras. Professora do Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo), Graziela Bortz entende essa realidade a partir de uma série de fatores interconectados. Por um lado, houve nos anos 1990 uma mudança significativa na contratação das orquestras.

"A maioria dos músicos era então jovem e o processo de substituição é muito gradual, com grande competição para cada vaga", afirma. "Mas há outros impedimentos para toda a população socioeconomicamente desfavorecida avançar. Os instrumentos são caros e a continuidade da formação não é acessível. Há ainda o efeito dos vieses visuais na avaliação das provas. Eles ocorrem por toda a formação. E isso não é percebido nas esferas administrativas das orquestras, pois também não há representatividade significativa de mulheres e negros."

A questão do viés está no centro da argumentação de Anthony Tommasini. Desde os anos 1970, orquestras passaram a utilizar biombos nas audições para a contratação de novos músicos, de forma a impedir que preconceitos de diversos tipos influenciassem na escolha. Para ele, no entanto, a prática deveria ser abolida. Avaliadores, ele afirma, devem saber quem são os candidatos para ampliar a presença de músicos negros na orquestra: entre dois finalistas de igual qualidade técnica, por exemplo, uma banca poderia selecionar o músico negro.

Trombonista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo há 21 anos, o norte-americano Darrin Milling não concorda. O preconceito, ele diz, é real. "Estou ciente de que não tenho os mesmos direitos e privilégios dos colegas brancos da mesma categoria", afirma. Os biombos garantem, assim, a isonomia no processo de seleção. "Mas também acredito que, depois da admissão, os negros e mulheres deveriam ter os mesmos privilégios que seus colegas, condições iguais de trabalho, tratamento igual no palco, inclusão no rodízio dos músicos colaborando em projetos especiais e em comunicação institucional, oportunidades de atuar como solistas ou de tocar em programas de música de câmara nos palcos principais, entre outras honrarias dadas aos colegas brancos."

Mozart Negro e racismos

Gabriela Bortz chama atenção para o fato de que "a carreira musical não está apartada dos mecanismos de poder que permeiam toda a sociedade". Talvez por isso, nos últimos anos, orquestras e teatros de ópera tenham sido cobradas a refletir de maneira profunda sobre seu papel. Mas essa discussão ainda enfrenta resistência: em muitos casos, é vista como agressão a uma tradição centenária que grupos musicais deveriam preservar: a obra dos grandes compositores que compõem o chamado cânone da história da música ocidental.

O compositor francês Joseph Boulogne (Chevalier de Saint-Georges) (1745-1799) - Reprodução/YouTube - Reprodução/YouTube
O compositor francês Joseph Boulogne (Chevalier de Saint-Georges) (1745-1799)
Imagem: Reprodução/YouTube

"O grande problema é que essas instituições mantêm uma tradição falsa, inventada por conveniência", diz Balter, que publicou recentemente um artigo no New York Times sobre o músico do século 18 Joseph Boulogne, conhecido como Mozart Negro, criticando o modo como compositores são apagados da história da música.

"O que chamamos de cânone é um filtro sociopolítico que deturpa e apaga a história de quem não lhe espelha. O que chamamos de bom gosto ou qualidade artística segue um gabarito estabelecido por uma elite preconceituosa e tirânica. No Brasil, tocamos bastante Villa-Lobos, mas uma de suas maiores influências, Anacleto de Medeiros, filho de escravizada, é uma raridade em concertos. Mas o mundo mudou e esta opressão hegemônica já não nos reflete mais como sociedade. Se as orquestras não acordarem para essa realidade, vão morrer na praia junto com a sua estética fictícia, racista e sexista. Não é uma questão de buscar um novo olhar. É uma questão de finalmente enxergar", diz o compositor.

Gestora pública e, entre 2010 e 2018, diretora do Neojiba (Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia), Beth Ponte acredita que não há como dissociar a busca por maior diversidade na música clássica da reinvenção da função social das orquestras e dos músicos e de seu papel na formação de novos artistas e plateias. "Muito do que se deve fazer para contribuir com a pauta antirracista no setor cultural começa da porta para dentro", diz. "Do ponto de vista da gestão, isso significa levantar informações sobre o percentual de negros e negras não apenas nas orquestras, mas também na administração, sobretudo nos cargos de liderança. Precisamos de mais compromissos públicos e não mais de hashtags."

O compositor brasileiro Marcos Balter, radicado nos EUA, no Lincoln Center de NY - Hiroyuki Ito/Getty Images - Hiroyuki Ito/Getty Images
O compositor brasileiro Marcos Balter, radicado nos EUA, no Lincoln Center de NY
Imagem: Hiroyuki Ito/Getty Images

Formação plural

"As questões de diversidade e representatividade racial e de gênero emergiram diante da percepção de que é um dever das organizações culturais discutir essas pautas, assim como também atuar como possíveis vetores de transformação", afirma a diretora executiva da Orquestra Sinfônica da Bahia, Fabiana Pimentel.

A questão da formação é um gargalo que Edna D'Oliveira coloca como central. Nos últimos anos, à carreira nos palcos ela acrescentou a atividade de professora em instituições como a Escola Municipal de Música e a Escola de Música do Estado de São Paulo. "O mundo da ópera pode ser hipócrita e racista. Muitas vezes não me escolheram para um papel porque a personagem era uma jovem branca de 16 anos. Se existisse essa preocupação com o realismo, então uma cantora branca mais velha não poderia ser escolhida. As oportunidades nunca são as mesmas. Precisei sempre ser a mais bem preparada para que as pessoas não vissem a minha cor. Mas, para o jovem negro, a questão da formação é muito complicada, não é fácil."

O violoncelista brasileiro Juan Rogers, de 21 anos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O violoncelista brasileiro Juan Rogers, de 21 anos
Imagem: Arquivo pessoal

Edna diz que o contato com seus alunos mostra uma realidade em que muitos, ao completar 18 anos, são levados pela família a buscar trabalho em outras áreas para ajudar no sustento da casa. "O fator econômico é decisivo. O sonho do jovem negro é grande, mas a perspectiva é pequena. Sem ajuda para completar sua formação, é quase nenhuma. Por isso entendo que orquestras e teatros devem agir de maneira mais ativa para lidar com o problema. É muito cômodo ficar esperando que um jovem negro talentoso chegue até você e, se não chegar, paciência."

Para a estudante Samara, poder ver músicos negros em atividade nas orquestras tem grande poder simbólico. "Quando decidi seguir carreira como violinista, fui procurar pessoas negras como eu nas orquestras para me aconselhar. E não as encontrei. Isso ainda dá a sensação de que aquele lugar não é para nós", conta.

"A gente cresce ouvindo piada, chega ao mercado, elas continuam, e de alguma forma aquilo parece normal. Talvez a grande contribuição que a minha geração possa dar tem a ver com isso. Em algum momento, nós, que passamos por isso, temos de parar de achar que é normal. Não é normal. Não pode ser", diz Juan Rogers.