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Remontagens de espetáculos atualizam espaço dos negros no teatro brasileiro

Cena de "Navalha na Carne Negra" - Sergio Fernandes/Divulgação
Cena de "Navalha na Carne Negra" Imagem: Sergio Fernandes/Divulgação

Mateus Araújo

Colaboração para o TAB

28/06/2020 04h00

Uma noite histórica no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 8 de maio de 1945, quebraria um paradigma inaceitável para qualquer sociedade dita moderna. Pela primeira vez, artistas negros brasileiros subiram àquele palco tradicional para interpretar personagens negros e protagonizar uma montagem que não fosse comédia ou retrato folclórico.

Dirigido por Abdias do Nascimento, o Teatro Experimental do Negro estreou "O Imperador Jones", um texto do norte-americano Eugene O'Neill, como uma "oportunidade de reflexão e debate em torno de temas fundamentais para o enfrentamento do racismo no país", segundo escreveu o próprio diretor, anos depois. "Jones resumia a experiência do negro no mundo branco, onde, depois de ter sido escravizado, foi libertado e atirado aos mais baixos desvãos da sociedade. Transviado num mundo que não é o seu, Brutus Jones aprende os maliciosos valores do dinheiro, deixa-se seduzir pela miragem do poder", definia Nascimento.

Mais de cinco décadas após aquele marco do teatro negro no Brasil, os inúmeros conflitos sociais de reivindicação por direitos e igualdade continuam ecoando nas artes cênicas nacionais, com críticas ao racismo e luta por representatividade. Não é à toa que vemos nos palcos, com cada vez mais frequência, reconstruções narrativas de clássicos teatrais, agora relidas pela voz da negritude.

No artigo "Emergência de novos sujeitos políticos na arte contemporânea: O coletivo Nega em Florianópolis", o antropólogo e professor do Instituto Universitário de Lisboa, Paulo Raposo, explica que a "aplicação de políticas públicas e ações afirmativas que buscam maior equidade racial" e a mobilização crescente e plural dos movimentos sociais negros potencializaram a representatividade nos teatros brasileiros. No entanto, segundo ele, além de dar espaços aos grupos minorizados historicamente, o fenômeno também estimulou um forte movimento conservador, que busca enfraquecer ou reprimir tais pulsões.

"Este movimento de empoderamento negro não atingiu claramente uma inversão dos padrões hegemônicos que caracterizam os fenômenos de racialização da sociedade brasileira, nem resultou de uma ocupação sistemática, legitimada e organizada de espaços institucionais e representativos do fazer artístico", pondera Raposo. "Mas pulsa significativamente numa disseminada efervescência do tecido artístico que se reclama agora sem reservas, por negro ou preto", finaliza.

Inédito

Considerado o melhor diretor teatral de São Paulo em 2019 pelo Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte, com a montagem de "Gota D'Água {Preta}", Jé Oliveira tornou-se o primeiro negro em 63 edições a ganhar o troféu naquela categoria. A premiação é umas das mais importantes do Brasil.

A adaptação de Oliveira para o musical de Chico Buarque e Paulo Pontes (montado originalmente em 1975, em plena ditadura militar) deslocou a centralidade do debate sociopolítico para questões raciais. A então deslealdade de classe de Jasão -- sambista em busca de fama que abandona a família para se casar com uma mulher rica, filha de Creonte, dono do conjunto habitacional onde ele vivia -- foi relida, então, como uma traição de raça.

Ressignificar as narrativas é um ato político que, "em alguns casos, dá coerência social histórica omitida ou sistematicamente apagada de alguns desses textos", diz Oliveira ao TAB. "Na historiografia do teatro --e da arte em geral --, isso possibilita outras camadas de reflexão sobre aqueles conteúdos"

Com elenco majoritariamente negro, e incluídos rap e funk à trilha sonora composta de clássicos da MPB, a estrutura pensada pelo diretor para a peça sublinha a sua proposta de representatividade na história. O subtítulo "Tragédia Brasileira" dado a "Gota D'Água", por ser inspirada na história grega de Medeia, encontra ainda sentido, segundo Oliveira, no contexto nacional. "Quando tudo isso é colocado sob a perspectiva negra no modo de fazer, na valorização da cultura negra na obra, e quando o discurso vai para o corpo de uma mulher preta, se concretiza de fato a tragédia de Brasil", avalia.

Essa tragédia, no meu ponto de vista, tem endereço, cor e tem idade: os corpos são pretos, a idade é sobretudo a idade de jovens, que são assassinados pela polícia, e o endereço são as periferias do mundo.
Jé Oliveira, diretor teatral

Para Oliveira, a representatividade negra no teatro traz à cena pautas importantes da luta social, "todas elas urgentes". "Da necessidade do afeto homoafetivo, da necessidade de se manter vivo fisicamente. São todas pautas muito relevantes, pois a questão racial perpassa todas estruturas sociais."

A visibilidade que esses discursos têm ganhado nos palcos brasileiros, afirma o diretor, se deve "a muita luta, pressão e organização coletiva, sobretudo de produções pensadas feitas por pessoas negras", observa. "Mas é muito escasso e oneroso. E, se compararmos a quantidade de pessoas negras que se assumem como tal na sociedade, ainda somos exceção."

Elenco do espetáculo 'Gota D'Água {Preta}, dirigido por Jé Oliveira - Evandro Macedo/Divulgação - Evandro Macedo/Divulgação
Elenco do espetáculo 'Gota D'Água {Preta}, dirigido por Jé Oliveira
Imagem: Evandro Macedo/Divulgação

Cena política

Nascida no Rio de Janeiro e radicada em São Paulo há mais de 20 anos, Dione Carlos começou a carreira no teatro como atriz e, depois, tornou-se dramaturga. Suas obras caminham por temas ligados à ancestralidade, o feminino e questões contemporâneas como a violência.

A busca dela, porém, está em "saber como essa dramaturgia faz pulsar quem lê, encena ou assiste", conta ao TAB. "De todo modo, tenho buscado me conectar com algo que eu sinto pairar sobre nós, como um fantasma, uma presença, ora destruidora, ora construtiva. Algo que nos foi tomado e pede para ser restituído, uma pulsão de vida que passa pela sensação de finitude, morte, fim e recomeço", conta.

No ano passado, ela assinou a dramaturgia de "Black Brecht - E se Brecht Fosse Negro?", inspirado na peça "O Julgamento de Luculus", de Bertolt Brecht. Na adaptação, montada pelo coletivo paulista Legítima Defesa, a autora deslocou a obra alemã de 1939 para o contexto brasileiro, colocando diante do fictício Supremo Tribunal do Reino das Sombra o general civilizador Luculus Brasilis. O espetáculo discute as diásporas e o genocídio do povo no Brasil.

Para Carlos, revisitar clássicos é como reivindicar seu lugar na história. "É uma forma de ocupar uma cena que, por muito tempo, sequer considerou certas presenças ou contribuições. É uma forma de restituir com potência e beleza ao que foi violado, roubado, ignorado", afirma a dramaturga. Apesar dos avanços atuais, Carlos crê que a presença da voz negra no teatro brasileiro se dá "num espaço da reinvenção de um imaginário que ainda considera a presença do negro ou da negra como o 'outro', a 'outra', como objeto de observação".

"Embora haja um maior número de artistas negros na cena, em várias funções, inclusive com obras reconhecidas pelo público e alguns pela crítica especializada, a ideia de um espaço, um dia, um mês, um lugar específico onde estas presenças estejam concentradas ou justificadas, persiste como uma forma de controle simbólico", critica a autora. "É uma questão muito pragmática: fizemos, estamos fazendo e faremos por merecer os espaços. Logo, ter reconhecimento por isto não é uma regalia, mas uma conquista justa, real."

Uma das mais expressivas dramaturgas da sua geração, Carlos comemora também o fato de as peças com presença negra atraírem um público "ávido diante da possibilidade de tocar e ser tocado verdadeiramente por uma arte que considera a multiplicidade da condição humana, e não somente uma única visão de mundo".

Construção contínua

A prostituta Neusa Sueli, o cafetão Vado e o camareiro Veludo, personagens de "Navalha na Carne", montada pela primeira vez em 1967, são um recorte de uma sociedade marginal, figuras típicas do "teatro maldito" do autor e diretor Plínio Marcos. Pela vida que levavam, denunciavam e traduziam as mazelas que atravessam o Brasil até hoje, além de peitarem a moralidade do país, imerso na repressão da ditadura.

Pela lógica do processo social brasileiro - na exclusão em que viviam - possivelmente esses personagens seriam negros, de acordo com análise escrita pelo crítico de teatro Kil Abreu. Mas, na maioria das montagens de destaque deste texto, o trio foi vivido por artistas brancos.

Em "Navalha na Carne Negra", de 2018, entretanto, a regra mudou. Três artistas negros assumiram os papéis na releitura, adicionando às críticas da obra o antirracismo. "Com certeza os corpos negros que atravessam esse texto redimensionam essa condição de marginalidade, exclusão social e revelam como estes processos afetam as nossas relações", afirma o ator Raphael Garcia, que interpretou Veludo na peça, sob direção de José Fernando Peixoto de Azevedo. "Em tempos em que o trabalho, os direitos e as condições de vida se tornam cada vez mais precarizadas -- fato que atinge de modo intenso a população negra --, o texto do Plínio se revela absolutamente atual", disse ao TAB.

Cena do espetáculo 'Navalha na Carne Negra', adaptação do texto de Plínio Marcos - Sergio Fernandes/ Divulgação - Sergio Fernandes/ Divulgação
Imagem: Sergio Fernandes/ Divulgação

Assim como Jé Oliveira e Dione Carlos, Garcia acredita que revisitar obras já clássicas propõe uma reflexão acerca dos processos estruturantes da sociedade brasileira retratados também nas artes -- a exemplo da exclusão dos negros dos espaços de protagonismo. "Isso revela como, até mesmo os textos que abordam a vida de pessoas marginalizadas, por exemplo, até mesmo este lugar, não foi ocupado por artistas negros", pontua o ator. Em "Navalha na Carne Negra", ele dividiu a cena com os colegas Lucélia Sérgio e Rodrigo dos Santos.

"A revisitação pretende propor uma reestruturação de formas de pensar e viver em sociedade. Se esta reestruturação do nosso entendimento não se der, teremos vivido apenas acontecimentos pontuais", explica Raphael Garcia ao TAB. "Espero realmente que os espaços possam ser ocupados, mas não apenas ocupados: que este processo possa gerar um outro entendimento sobre os espaços de representação, para a população negra, a comunidade LGBT, os povos originários do Brasil, as mulheres etc."

Para García, o fenômeno atual de representatividade na cena é, ainda, resultado de uma mobilização política para desconstruir uma estrutura racista. Ele lembra que, ao longo dos séculos, nas diversas manifestações de teatralidade, naquelas atribuídas à chamada cultura popular, sempre houve a presença negra. O mesmo não aconteceu na forma eurocêntrica de teatro importada para o Brasil.

"O que observamos na cena contemporânea é a consolidação de uma série de projetos, que se materializam em espetáculos e que são fruto de diversas pesquisas continuadas, muito ligadas à políticas públicas para as artes", contextualiza. "O importante é entendermos que todo espaço - do teatro de grupo, do teatro negro especificamente - é fruto de luta, o que inclui a manutenção de políticas públicas para as artes, que estão hoje em risco. Esse me parece ser o ponto central para se compreender qualquer acontecimento contemporâneo. São conquistas de lutas coletivas."