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Trajetos e afetos: Rico Dalasam e Jup do Bairro cantam renascimentos em EPs

Potências LGBT: Jup do Bairro e Rico Dalasam lançam EPs durante a quarentena - Montagem UOL/Felipa Damasco/Larissa Zaidan
Potências LGBT: Jup do Bairro e Rico Dalasam lançam EPs durante a quarentena
Imagem: Montagem UOL/Felipa Damasco/Larissa Zaidan

Tiago Dias

Do TAB

19/06/2020 04h01

Em um interlúdio curto, que costura o novo trabalho de Rico Dalasam, a mãe do rapper dá uma valiosa lição na hora de escolher a melhor linha de ônibus para cruzar São Paulo e chegar até o berço do artista, em Taboão da Serra, na região metropolitana: às vezes é melhor pegar um ônibus que dê mais voltas, mas que pelo menos tem lugar vago para sentar. "Vamos ficar na paz, olha a rede no seu celular, ouve sua música, vai olhando aí, porque vai dar volta esse ônibus aqui", diz ela ao filho, em "Circular 3".

Essa sabedoria de quebrada é a chave para entender não apenas o novo EP "Dolores Dala, o Guardião do Alívio" mas a própria trajetória do artista, que em 2015 colocou os primeiros tijolos na construção de um lugar inédito na música brasileira, a do rap queer.

Entre muitas linhas de ônibus e viagens possíveis na concepção desse lugar, Rico experimentou alguns trajetos. De lá pra cá, ele abriu o show do Racionais MC's, fez parceria com Emicida e viu "Todo Dia", canção sua gravada em parceria com Pabllo Vittar, virar o hit do Carnaval em 2017. O impacto fez Rico atingir popularidade, mas também evidenciou de cara uma rachadura na relação com a indústria musical almejada.

"Pisar no pop e ter o mínimo de aceitação te exige muita coisa", explica. "As relações nesse universo foram gerando demandas que não eram minhas. Quando você vê, está com coisas pra entregar, como uma linha de produção. Financeiramente é interessante, mas artisticamente é esgotante. Pelo menos para mim."

Sua reação foi pausar projetos, cancelar lançamentos e praticar uma ausência que durou quase dois anos, processo que ele chama de "desintoxicação". Compondo freneticamente, buscou afinar sua escrita, que hoje deságua também em poemas que investigam afetos e relacionamentos. Sem medo de mexer nas dores, mas interessado mesmo no alívio.

"São experiências subjetivas sobre namoro, fim de relacionamento. Coisas que acontecem de maneira tardia em relação às pessoas brancas. A primeira vez que eu namorei eu tinha 25 anos. Isso vai sendo um assunto que lateja no meu processo de construção de afetos e relações. Tem místicas descobertas, porque você tem muito mais tempo ansiando do que experienciando. Para mim ainda é uma mágica namorar, para além de sentimentos e paixões", observa Dalasam.

Em "Dolores Dala" ele diz inverter os códigos — um antônimo da fase pop. "O tempo passou, nós levantamos muita discussão e hashtag em 2015, depois veio Liniker e Linn da Quebrada. Na época, era como arte da emergência, que continua sendo, mas a gente viu que isso pauta, mas esvazia", diz.

Rico Dalasam - Larissa Zaidan/Divulgação - Larissa Zaidan/Divulgação
Rico Dalasam
Imagem: Larissa Zaidan/Divulgação

Essas experiências e buscas unem alguns lançamentos na quarentena, que buscam solidificar a cena LGBTQ+ na música de duas formas: experimentando estéticas e ampliando narrativas, numa intersecção de lutas e vivências — mostrando que o movimento pode ser muitas coisas, menos estanque.

Acaso ou não, o formato curto do EP foi escolhido para radiografar esse momento com temperatura, impacto e concisão. São os casos das investigações místicas e sonoras de "Mano*Mago", de Giovani Cidreira e Mahal Pita, do domínio da canção brasileira em "Mundo Novo", de Mahmundi, e a jornada sensorial de um corpo renascido em "Corpo sem Juízo", estreia autoral de Jup do Bairro, após a cantora passar os últimos anos excursionando com Linn da Quebrada.

Renascimentos de um corpo vivo

Assim como Linn, Jup vem gestando de sua casa, no Capão Redondo, um novo imaginário para os corpos trans de maneira provocativa e inteligente. A imagem da crisálida, estágio de pupa onde o inseto passa pelo processo de crescimento e diferenciação sexual para se tornar uma borboleta, serve de analogia tanto na letra quanto no clipe, produzido e lançado durante a pandemia.

"No sufoco criado da minha própria mudança / Uma mucosa com vazio e falsas esperanças / No aperto do casulo da minha própria criação / Pensando em morte inevitável / me preparo pra morrer na solidão", ela canta na primeira faixa, "Transgressão".

"Enquanto o corpo for vivo e ser receptáculo de informações, ele vai transicionar. Vai pegar elementos do externo e vai trazer para si", observa Jup. "Em vida, a gente morre e renasce muitas vezes. A gente recebe informações e a gente abre mão também de informações que já se tornam caducas ao decorrer da nossa trajetória."

O lançamento do disco, na semana passada, fez Jup experimentar um espiral de emoções. Ela chorou num bate-papo com os fãs que financiaram a obra, e também quando ouviu pela primeira vez uma música sua na rádio, ao lado de sua mãe. "Estou tão à flor da pele. São sonhos que eu nem me lembrava que tinha, porque eles sempre foram cortados pela raiz", diz. "Durante muito tempo eu não me senti pertencente, acho que esse é um dos lugares que mais me pega, que é quando você não se enxerga, quando você não sente pertencido ao seu tempo. Então comecei a criar um espaço que eu pertencesse pelo menos a mim. Daí nasce esse exercício, esse envolvimento com a arte, que é um mecanismo que tem me salvado muito."

Nesse percurso sonoro, pilotado por BadSista, uma das mais inventivas mulheres na produção musical hoje, Jup recorre ao próprio passado no rap "O Corre" e fala sobre depressão na população negra em "Pelo Amor de Deize", parceria com Deize Tigrona, precursora do funk putaria. No lugar do batidão, porém, gritos e solos de guitarra suplicam para que o corpo não padeça diante das dificuldades. Ao invés das rimas proibidonas, Deize fala de sua própria experiência com a doença.

Mas é com "Luta Pra Mim" que Jup parece falar do hoje, quando a morte de George Floyd nos Estados Unidos, e a perda de outras vidas negras no Brasil pela violência policial, começam a reverberar na rua. "Sua hashtag foi o ponto final / Dizer 'vidas negras importam' para você foi o grande diferencial / É que toda vez a mesma merda / Vocês matam o meu de carne pra fazer o de pedra / Movido pelo tesão por tragédia / Agora morto eu tenho mais voz do que vivo, parece comédia", diz a letra escrita em parceria com o rapper Mulambo. Para ela, o disco passou a fazer ainda mais sentido neste momento de pandemia e manifestações.

Jup do Bairro - Jup do Bairro/Felipa Damasco/Caio Ramalho/Divulgação - Jup do Bairro/Felipa Damasco/Caio Ramalho/Divulgação
Jup do Bairro
Imagem: Jup do Bairro/Felipa Damasco/Caio Ramalho/Divulgação

"Precisei repensar a divulgação do disco para lançá-lo neste momento. Mas esse momento pede essas falas. O que a sociedade está vivendo agora, em sua amplitude, é o que esses corpos, nos quais eu me reconheço, já passavam. O medo de sair de casa e morrer", explica.

"Estamos em um momento de comoção que propõe ação, não de se levantar uma hashtag. A luta antirracista é papel de toda a sociedade, assim como a luta contra a transfobia ou qualquer outra LGBTfobia. A gente precisa analisar, porque às vezes podemos não ser a pessoa que está enfiando a faca, mas nossa ausência de posição pode ajudar amolar essa faca."

Construindo amores

A construção de um novo imaginário de amor também faz parte da jornada musical de Jup do Bairro. Em "All You Need is Love'", primeiro single, com participação de Linn da Quebrada e Rico Dalasam, ela canta, com humor, sobre criar novos desejos e relações. "A possibilidade de entregar um amor sem mesmo saber o que é amar", observa.

Essa busca é o motor de Rico Dalasam em nova fase. "Tem todo um universo Marília Mendonça bicha preta que nasce inevitavelmente", compara o rapper. Ainda que calcados em refrões populares, Rico adiciona outras camadas ao analisar o tema. "Nunca entendi essa conversa / trancado dentro do carro / Nem tudo é sexo violento / Enquanto mais violento for nosso bairro", ele canta em "Mudou Como". "Vem dizer que mudou, eu duvido / Mudou? Mudou como? / Devo tá com Síndrome de Estocolmo / Amo pra caralho, amo / Mas desse jeito você me põe no manicômio".

"Não estou falando outra vez de luta e de disputa de espaço, essas sub-narrativas de 2015. É um outro lugar agora. Estou entendendo como ver meus afetos dentro do mundo colonial, mesmo que ele seja um relacionamento afrocentrado ou interracial", diz. "Ali, acontecem cruzamentos de feridas, de tretas e traumas específicos do racismo, da homofobia."

Mudam-se os trajetos dessas linhas de ônibus, mas o destino continua o mesmo. "O país é enorme e criar expressão em uma coisa que não é genuinamente brasileira, construir o imaginário brasileiro do rap bicha é um trabalho."