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Com Ludmilla, pagode ganha representante feminina, mas está longe do ideal

A funkeira Ludmilla se jogou no pagode em 2020  - Divulgação
A funkeira Ludmilla se jogou no pagode em 2020 Imagem: Divulgação

Henrique Santiago

Colaboração para o TAB

23/06/2020 04h00

Quando Ludmilla lançou, no fim de abril, seu primeiro trabalho de pagode, finalmente os fãs puderam ouvir o resultado de uma promessa da cantora. Quem acompanha de perto a carreira da funkeira sabe que não se trata de um fato inesperado, afinal, ela cresceu ouvindo clássicos dos anos 1990 do ritmo liderado por Raça Negra, Só pra Contrariar, Exaltasamba, entre outros. A novidade, porém, é que Lud chegou para ser referência em um movimento musical em que as mulheres sempre tiveram pouco — ou nenhum — espaço.

Naquela época, era comum ligar a TV ou o rádio e ver grupos masculinos cantarem as perdas e conquistas de grandes amores, sempre representados pelo sexo feminino. Musa inspiradora de sucessos de uma geração, a mulher teve a sua própria voz silenciada nesse segmento da indústria musical. Ainda assim, houve aquelas que, com muita persistência, fizeram questão de ser ouvidas.

Eliana de Lima talvez seja a cantora de maior expressão nacional do pagode pré-Ludmilla. Figura emblemática do Carnaval de São Paulo, ela tem lutado contra o machismo em sua carreira artística desde que se entende por gente. Nos anos 1980, foi a primeira mulher a puxar um samba-enredo em um desfile de escola de samba, numa época em que a avenida estava reservada, basicamente, às passistas, porta-bandeiras e as baianas. De tanto bater de frente e se fortalecer, decidiu também se aventurar nos estúdios de gravação.

À procura de êxito comercial, Eliana conseguiu, em sua segunda tentativa, emplacar o sucesso "Desejo de Amar" — também conhecido como "Undererê" —, em 1991, depois de ser desencoraja por sua antiga gravadora e assinar com uma nova. "Tinha show que eu abria e fechava com essa música", lembra, aos risos, ao TAB. Somente com esse disco, a cantora paulistana vendeu mais de 1,5 milhão de cópias e se apresentava na noite para mais de 15 mil pessoas em palcos pelo Brasil afora.

Aos 58 anos, Lima exibe o status de "rainha do pagode" e, mesmo sem o resguardo de um grande contrato firmado, continua na ativa. No fim de 2019, gravou "Dona da Casa", um "puta partidão" — como ela diz — que valoriza a figura multitarefas da mulher. Se, há três décadas, faltavam oportunidades para as mulheres, hoje não é muito diferente. "O mercado da música mudou. Como não temos muitas grandes gravadoras, existe agora o investidor. É o cara que olha para você, põe uma grana, faz um contrato, pega uma porcentagem e investe no seu trabalho. Eu não vejo isso acontecer com a mulher no pagode", opina.

Quem começou o pagode romântico?

Acostumada a encarar preconceitos, Eliana de Lima afirma ser a precursora do pagode noventista, propondo, assim, uma revisão histórica do gênero musical. O pioneirismo é atribuído ao grupo Raça Negra, cujo ex-integrante Gabu e o vocalista Luiz Carlos compuseram os maiores hits da cantora, o já citado "Desejo de Amar" e "Volta pra Ela", respectivamente, dois clássicos de karaokê.

"Tem muita gente que não fala, mas eu fui a primeira a abrir a porteira, né? Fui a primeira a gravar, estourar, aí vieram em seguida Raça Negra, Negritude Jr., Katinguelê e muitos outros grupos. Graças a Deus, São Paulo ficou reconhecida pelos seus sambistas. Nessa época, as gravadoras não acreditavam nesse produto e foi preciso eu ir para um selo para verem que aqui tinha grandes nomes que poderiam fazer sucesso", avalia.

O professor do Departamento de Estudos de Mídia da UFF (Universidade Federal Fluminense), Felipe Trotta, autor do livro "O Samba e suas Fronteiras", acredita que o machismo é um dos componentes que separa as mulheres do pagode. Ele analisa que o ritmo se apropriou do canto em coro das rodas de samba, influenciados pelos grupos Fundo de Quintal e Os Originais do Samba, e se fortaleceu nas gravações em estúdio. A diferença é que a presença feminina é menor nesses grupos dos anos 1990 -- formados, majoritariamente, por homens negros e periféricos -- sem o destaque da mulher no coro, dança e organização das festas.

Para conquistar o mercado fonográfico, segundo ele, os pagodeiros se valeram de uma possível assimetria entre homem e mulher nas canções, destacando o comportamento de uma sociedade patriarcal e machista. São exemplos o uso da força, a potência sexual do homem e até mesmo o já mencionado canto coletivo. "O uso da masculinidade como elemento de superioridade aparece na performance e na forma desse grupo de artistas ao se posicionar. Se isso é colocado lado a lado com a questão de raça [do negro], talvez seja muito simplista uma condenação logo de cara. Ali, se tem a masculinidade sendo usada como força hegemônica para valorizar a negritude, dar valor a essa negritude", observa Trotta em conversa com o TAB.

Por outro lado, a presença de uma cantora não impede o machismo de ser reproduzido por uma mulher, independentemente do gênero musical. "O consumo da [imagem da] mulher, da figura, da estrela, tem um componente sexualizado. Essas mulheres têm determinado perfil que se aproxima dos padrões de beleza, tem um consumo do corpo voyeurista que faz parte do machismo. O fato de ter uma mulher no palco não quer dizer um gênero musical é menos machista", completa, citando como referência o sertanejo universitário "50 Reais", de Naiara Azevedo com a dupla Maiara & Maraisa — com uma letra bastante machista.

O corpo como imagem

Quem viveu na pele o machismo — e o sexismo — de forma escancarada foi a cantora Adryana Ribeiro. Outro exemplo da força feminina no pagode noventista, ela só conseguiu despontar em nível nacional depois de se juntar com quatro homens — negros — e formar Adryana e a Rapaziada, um projeto que ainda não havia no mercado, como destaca. Sua carreira solo, anos antes, não deslanchou nem mesmo com um álbum de estreia apadrinhado por Demônios da Garoa, Martinho da Vila e Luiz Carlos.

Em 1995, ela estava mais preocupada em cantar e seguir o mesmo rumo de suas referências musicais, Alcione e Beth Carvalho. Aos 22 anos, se apresentava ao vivo com cabelos ruivos cacheados, vestia roupas pretas longas e geralmente era chamada de "gorda" e "feia" por pessoas do meio musical. As ofensas chegavam de todos os lados, desde a dona de uma casa noturna a executivos de sua primeira gravadora. Para alcançar o tão almejado sucesso, ela impôs a si mesma uma repaginação de sua imagem — sem deixar de lado a busca pela evolução vocal.

Antes da transformação, Adryana Ribeiro entre o produtor Miguel Plopschi e seu ''patrono'' Martinho da Vila - Divulgação - Divulgação
Antes da transformação, Adryana Ribeiro entre o produtor Miguel Plopschi e seu ''patrono'' Martinho da Vila
Imagem: Divulgação

Quatro anos mais tarde, surge para o Brasil uma nova Adryana Ribeiro. "Eu criei coragem e comecei a minha transformação. Fui emagrecendo e entrando no 'biotipo' do É o Tchan: muito loira [de cabelos lisos], muito bronzeada e muito magra. Fiz com que meu 'produto' tivesse sex appeal, sem vulgarizar. Não queria o peso de uma gravadora atrás de mim falando que eu estava gorda. Quantas foram as vezes que eu voltei para casa chorando. A pior coisa do mundo é quando você se esmera em cantar bem e é descartada porque não te acham interessante", observa ela, hoje com 46 anos, em entrevista ao TAB.

À frente da Adryana e a Rapaziada, o grupo experimentou misturar o pagode com elementos do pop, rap e R&B. Foi na virada do século que os hits "Fim de Noite" e "Tudo Passa" tocaram exaustivamente nas rádios do país. Era quase regra fazer shows em lugares abertos e ser recebida por centenas de fãs à procura de um autógrafo ou andar até a van para uma apresentação e ser interpelada pelo público.

Com os sucessos, vieram desentendimentos e, assim, a separação do grupo. Em 2019, após 14 anos, a formação original se reuniu, mas Adryana reconhece que a realidade hoje é outra: o pagode é dominado por novas figuras masculinas - Thiaguinho, Ferrugem e Mumuzinho - e o trabalho independente é apenas uma das responsabilidades que ela tem. "A mulher é cobrada [na música], mas essa cobrança existe para a mulher como um todo. Ela tem que ser dona de casa, ter filho, amamentar, trabalhar, paciência. Não sei se a gente gosta de carregar esse caminhão nas costas, mas acaba sendo imposto assim", reflete.

Negra, sim, e pagodeira

A nova geração do pagode romântico enfrenta os mesmos desafios de 30 anos atrás. Ex-participante do The Voice Brasil, Andressa Hayalla cresceu com pagode em casa, mesmo sem uma mulher para ter como referência. Outro problema que encarou foi a falta de uma voz feminina negra, o que a motiva duplamente para buscar seu lugar ao sol, com o lançamento do seu primeiro EP, intitulado "Eu Também Sei Fazer", em março deste ano.

Com planos interrompidos pela pandemia de coronavírus, Hayalla tem em mãos um trabalho que busca empoderar a mulher, de acordo com ela. Se, no passado, a mulher negra era reduzida como "morena" nas composições de pagode, a carioca radicada no Distrito Federal canta orgulhosamente e com todas as letras que é preta.

"Encaro duas lutas para conseguir esse prestígio artístico. Primeiro, porque eu sou mulher e, segundo, porque sou negra. Venho lutando há anos com unhas e dentes para ter esse espaço. Para o negro, a luta é um pouco maior, sim. Não quero desmerecer os outros, mas para o negro é mais complicado. Além de provar que é bom, tem que provar que é capaz. Não que me desmotive: pelo contrário, me anima e sei que é difícil. Quanto mais mulheres negras se levantam nesse meio, isso para mim se torna uma proteção", afirma.

Interessada por igualdade no pagode, Hayalla tem uma equipe ainda majoritariamente masculina. Ela, que é intérprete, teve as músicas de seu EP escritas por homens. Em um futuro não muito distante, quer ter mais mulheres no palco, na estrada e nas composições. A pagodeira revela, inclusive, ter recebido uma porção de letras de compositoras, que devem ser aproveitadas em seu segundo trabalho.

Segundo Trotta, é importante ter mulheres na linha de frente do pagode, mas é preciso analisar além de quem segura o microfone. Ele aponta que o mercado profissional desse estilo é dominado por homens instrumentistas, empresários, produtores, entre outros, assim como em outros gêneros da música brasileira. "Se a voz feminina é importante, não quer dizer, necessariamente, que exista um equilíbrio de cargos ocupados por homens e mulheres", finaliza.