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David Turner: 'pirataria é uma parte superestimada da história da música'

Serviços de streaming mudaram a história da música - Getty Images
Serviços de streaming mudaram a história da música Imagem: Getty Images

Amanda Cavalcanti

Colaboração para o TAB

03/06/2020 00h04

O streaming salvou o mercado da música. Essa é a narrativa que domina as manchetes e conversas desde que plataformas como Spotify e Apple Music começaram a tomar o mercado internacional e, alguns anos depois, o brasileiro.

No começo dos anos 2000, a indústria musical continuava a perder o bonde do mercado digital andando e, apesar de implementar iniciativas como a compra de arquivos, a maneira mais popularizada de se consumir música ainda parecia ser a pirataria. Aproveitando esta lacuna mercadológica, empresas que viram vantagem em monetizar a música via distribuição digital começaram a surgir. A francesa Deezer e, principalmente, a sueca Spotify tomaram a dianteira nessa nova configuração de mercado.

O resto é história. Hoje, o streaming representa a maior parte das receitas do mercado fonográfico — e esse número aumenta consideravelmente a cada ano. Segundo o relatório de 2020 da IFPI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica), em 2019, a receita das plataformas de streaming aumentou em 22,9% globalmente, enquanto a de downloads digitais e venda de formatos físicos diminuíram em, respectivamente, 15,3% e 5,3%.

Mas não foi sem alguns problemas que o formato chegou ao topo. Em seus primeiros anos de massificação, no começo da década passada, diversos artistas (como David Byrne e Taylor Swift) começaram a expor os valores baixos de remuneração que recebiam pelos milhares de streams. Outras questões, como supostos "artistas falsos" colocados no Spotify para acumular execuções e a tendência da plataforma a recomendar artistas masculinos em detrimento de artistas mulheres também chamaram a atenção de alguns usuários.

Determinado a desafiar uma narrativa tão amplamente disseminada, o jornalista norte-americano David Turner foi um dos que se viram atraídos pelas falhas do streaming e, em 2017, ele criou a newsletter Penny Fractions. "Na época, eu era jornalista freelancer e estava me interessando mais por pautas que tivessem a ver com negócios e dados na música", conta o jornalista ao TAB. "É difícil vender essas matérias, mas há claramente muitas coisas acontecendo nesse espaço. Eu achava que elas deveriam ser mais abordadas."

Em 126 edições, o jornalista já comentou temas como a hipervalorização da narrativa contra a pirataria e o descaso da indústria com seus trabalhadores. Por e-mail, Turner explicou ao TAB a importância de sustentar visões críticas ao monopólio do streaming, destacando alguns dos danos que o formato trouxe à indústria musical.

O jornalista norte-americano David Turner - Divulgação - Divulgação
O jornalista norte-americano David Turner
Imagem: Divulgação

TAB: Como você decide quais temas discutir na newsletter e como eles chegam até você?

David Turner: Tento planejar as coisas com alguns meses de antecedência. Isso nem sempre funciona, e estou aberto a ajustar minha agenda, mas, normalmente, tenho um roteiro de três meses pra seguir. Isso me dá muito tempo para pesquisar e entender melhor o tema que vou tratar. A maioria das ideias chega apenas acompanhando as notícias, e vou me certificando de que não estou perdendo grandes matérias ou tendências. Eu realmente quero, em 2020, incorporar mais trabalhos acadêmicos na newsletter e qual acho que vou me divertir mais na segunda metade do ano.

TAB: Vemos muitas manchetes alegando que as plataformas de streaming mudaram "a maneira como as pessoas ouvem música". Há alguma verdade nisso? Se sim, como essas maneiras mudaram?

DT: Com certeza! Eu diria que a maior razão é o aumento da escuta móvel em smartphones. Embora plataformas de streaming como o Spotify ganhem o crédito por revitalizar a indústria da música, a maior razão para isso é a ascensão de smartphones nos anos 2010 e, portanto, a migração da escuta de música acontecendo em um único dispositivo, em vez de um iPod, CD player ou vitrola. Essa convergência de escuta é realmente a grande mudança.

TAB: Os algoritmos dessas plataformas favorecem pessoas com dinheiro - grandes artistas e grandes gravadoras. Isso significa que o mercado se tornou mais complicado para artistas independentes?

DT: Certamente só ficou mais difícil. Embora a história da internet seja que ela deveria ter ajudado artistas independentes e achatado o campo de jogo, o que realmente aconteceu foi o contrário: com as plataformas de streaming, ocorreu uma estratificação crescente dos artistas de maior sucesso e dos aspiradores a este sonho.

TAB: Você já escreveu na Penny Fractions sobre ter muito pouco contra a pirataria. Na sua opinião, qual a importância cultural da pirataria e o surgimento de plataformas como Napster ou MySpace nos anos 90/2000?

DT: Admito que ainda estou lutando com meus próprios pensamentos sobre o papel da pirataria na indústria da música nessa era específica do streaming. A capacidade de obter música gratuitamente online ajudou a desvalorizar a música e o impacto disso não pode ser subestimado. No entanto, eu sempre tento rejeitar a ideia de que a pirataria destruiu a indústria da música.

A razão pela qual digo isso é porque a Sony, em 1997, já estava pensando em um tipo de jukebox digital em que as pessoas pagariam pelo acesso a músicas digitais, que é efetivamente o que chegou uma década mais tarde com o YouTube e o Spotify. Portanto, se esse modelo específico estava sendo contemplado pela indústria no final dos anos 90, antes do Napster, é difícil dizer que o Napster é o culpado. Em vez disso, acho que o verdadeiro problema da pirataria é que ela prejudicou a indústria da música, mas sem que os artistas controlassem o caminho que ela deveria seguir. Assim, os artistas viram seu trabalho sendo rapidamente desvalorizado — o que foi positivo para muitos, porque prejudicou o sistema de grandes gravadoras, mas paralelamente também prejudicou o espaço independente e não ofereceu um caminho a ser seguido por esse lado da indústria.

Poderíamos imaginar uma transição digital que fosse liderada por artistas e tornasse gravadoras obsoletas, mas não foi o que aconteceu. Então, de certa forma, acho que a pirataria é uma parte estranhamente superestimada da história da música — a indústria passou a última década separando artistas de seu trabalho, então por que uma nova peça de tecnologia não seria usada para fazer o mesmo?

TAB: Artistas já alegaram diversas vezes que não são pagos o suficiente por plataformas de streaming. Que efeitos a longo prazo isso poderia ter na indústria da música, na sua opinião?

DT: Os efeitos a longo prazo serão menos artistas e carreiras menos estáveis. Mas, de certa forma, já vemos isso, então não é novidade. Muitos artistas retiraram seus catálogos de plataformas de streaming (especialmente do Spotify) apoiando essas reivindicações, mas, no final, eles cederam - como Taylor Swift e Radiohead, por exemplo. Por que você acha que isso acontece? Hoje em dia, é viável para grandes artistas não colocar seu catálogo em plataformas de streaming?

A questão é que, para um Radiohead ou Taylor Swift, quando seu público é tão grande, existe a chance de mudar para uma plataforma diferente de método de consumo de música, mas você provavelmente perderia muitos fãs no processo. E parte da razão de ser um artista dessa escala é poder sustentar muitos fãs e pessoas interessadas no seu trabalho. Isso não quer dizer que não possa ou não deva ser feito, longe disso, mas existe uma espécie de potencial perdido em ser um grande artista, falando nos tipos de movimentos que poderiam ser feitos sem prejudicar a própria carreira.

TAB: E artistas pequenos e independentes? É possível construir uma carreira se o seu trabalho não estiver disponível em plataformas de streaming?

Acho que é possível, mas admito que não tenho um roteiro claro para esse objetivo. Minha esperança é que haja alguma outra maneira de ganhar dinheiro com a música que não envolva diretamente os principais serviços de streaming, mas até agora nada parece estar avançando. Existem cooperativas como Ampled ou Resonate (plataformas de streaming cujo lucro é completamente direcionado à comunidade de músicos), que são legais, mas acho que ainda não as vi funcionar totalmente para o que eu imagino ser um sucesso estável. Existem alguns artistas no Patreon e, também, talvez vendendo músicas no Bandcamp. Um pensamento que muitas vezes tenho é que um pequeno artista evitar essa plataforma envolve construir um forte relacionamento com seus fãs.

TAB: Na sua opinião, há algo que fãs e ouvintes possam fazer para tentar corrigir o desequilíbrio na indústria da música e garantir que compositores, músicos e produtores recebam melhores remunerações?

DT: Ouça seus artistas favoritos. Vale a pena seguir bons grupos de artistas profissionais, como o Future of Music Coalition. Tente imaginar e incentivar música verdadeiramente, fora das estruturas tradicionais. Crie seu próprio site ou maneiras exclusivas de ouvir música e exija que os governos não apenas apoiem os artistas, mas também permitam que as pessoas tenham acesso a moradia, saúde e a todas as coisas que precisa para sobreviver. Há necessidades específicas da indústria da música, mas, até que muitas necessidades básicas sejam atendidas, ela continuará sendo a história de artistas que continuam lutando até chegarem a um grande sucesso, enquanto centenas nem sequer têm a chance de alcançar alturas tão breves.