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Com avanço do coronavírus, entretenimento viverá apagão inédito

Plateia do "Domingão do Faustão", no último domingo (16), primeiro sinal de tempos difíceis no entretenimento - Reprodução/Twitter
Plateia do "Domingão do Faustão", no último domingo (16), primeiro sinal de tempos difíceis no entretenimento Imagem: Reprodução/Twitter

Tiago Dias

Do TAB

17/03/2020 04h00

No último domingo (15), a imagem da plateia vazia no "Domingão do Faustão" causou espanto nas redes sociais. A cena pode até parecer insignificante frente às notícias do avanço do novo coronavírus no Brasil, mas foi provavelmente o primeiro sinal ilustrativo de como a pandemia deve afetar nossa forma de se entreter daqui pra frente.

No mesmo dia, fãs do Backstreet Boys também experimentaram algo parecido quando o grupo, após shows em Uberlândia (MG) e Rio de Janeiro (RJ), cancelou a apresentação em São Paulo — com público previsto de 40 mil pessoas. Seria a última grande apresentação em estádio que o Brasil veria nas próximas semanas ou até meses.

Segundo especialistas, o país está prestes a entrar numa curva ascendente de casos de covid-19. Uma das recomendações mais importantes é evitar aglomerações, incluindo espetáculos, shows, jogos, exposições ou mostras. A lista de eventos que passam a não acontecer essa semana é extensa e isso deve mudar nossa relação com todo e qualquer tipo de entretenimento.

No Rio de Janeiro, casas de shows, teatros e cinemas já passaram o fim de semana fechados. Em São Paulo, muitas salas de exibição e museus limitaram a entrada dos visitantes. A partir desta terça-feira (17), entretanto, os planos mudam: a orientação na capital paulistana é que esses estabelecimentos fechem as portas por um mês — assim como aconteceu em Nova York, onde a Broadway, maior referência de entretenimento teatral do mundo, parou totalmente. Estima-se que a receita perdida possa chegar à cifra de US$ 100 milhões.

Thelma e Camila em 'Amor de Mãe' - Reprodução/Globo - Reprodução/Globo
Thelma e Camila em 'Amor de Mãe'
Imagem: Reprodução/Globo

Não há como prever o impacto social e econômico desse apagão, especialmente por causa da rapidez necessária com que as decisões foram tomadas. Se, há sete dias, ainda se vendia ingressos para o Lollapalooza Brasil, que aconteceria nos dias 3, 4 e 5 de abril (com público estimado a 80 mil por dia), chegamos a essa semana com a notícia de que a novela "Amor de Mãe" teve gravações canceladas e sairá do ar na sexta-feira.

É a primeira vez na história da TV brasileira que isso acontece com uma novela. Os campeonatos estaduais de futebol também foram adiados. Sem duas formas de lazer quase institucionalizadas no país, o brasileiro será testado como nunca antes. Por quanto tempo? Ninguém sabe dizer.

Thelma e Lurdes, de Amor de Mãe (Reprodução) - Reprodução / Internet - Reprodução / Internet
"Amor de Mãe" teve suas gravações canceladas por tempo indeterminado
Imagem: Reprodução / Internet

Chapéu virtual

As alterações abruptas e a falta de perspectiva sobre a indústria do entretenimento vão afetar profundamente a vida dos profissionais desse mercado — muitos autônomos, que recebem por obra ou serviço prestado. No Twitter, músicos passaram a pedir para que o público compre produtos oficiais e não peçam reembolso dos ingressos de eventos que tiveram ser adiados.

"Demonstrem apoio a artistas, produtoras, casas de show e festivais nas redes sociais e ouçam muita, muita música", diz em nota a SIM (Semana Internacional de Música), evento anual em São Paulo que serve como polo entre artistas, produtores e público: "O impacto no mercado musical é inevitável e o prejuízo ainda é incalculável", afirma a nota.

"Como o momento é sem precedentes, acho que temos que lidar com cuidado e responsabilidade com tudo o que envolve a saúde pública, mas também manter em vista a sustentabilidade do nosso setor", diz Fabrício Nobre, produtor cultural e organizador do Festival Bananada, que acontece em agosto de 2020 e pode não ser afetado pela pandemia -- diferentemente de outros eventos musicais concentrados no primeiro semestre.

Nobre duvida que vá haver alguma ação do governo federal para minimizar as perdas nessa área, cujo faturamento previsto para 2020, antes da pandemia, era de US$ 43 bilhões, segundo pesquisa da consultoria PwC.

"O que está sendo feito é que os grupos de produtores, casas e artistas estão se articulando e apresentando algumas soluções para tentar impedir que o impacto [na indústria cultural] seja devastador", conta Nobre, que trabalha exclusivamente com música ao vivo — assim como 80% das pessoas com quem ele se relaciona. "Fritando e trabalhando em planos e ideias para conseguir manter ações com música ao vivo em atividade", conclui. Em Portugal, produtores se organizaram para colocar de pé o Fica em Casa Festival virtualmente. Serão 6 dias de apresentações diárias, transmitidas pelo Instagram, com artistas importantes do país, como Antonio Zambujo e Luísa Sobral. Ideias parecidas já estão em desenvolvimento por aqui.

Um exemplo desse impacto já foi sentido com a suspensão do SXSW (South by Southwest), um dos maiores eventos de inovação do mundo, dias antes do início da feira -- que gera em torno de US$ 356 milhões para a economia de Austin, no Texas. Já o buraco deixado pelo Festival Coachella, na Califórnia, é estimado em torno de US$ 1 bilhão.

Ambos os eventos são exemplos referenciais, com valor de marca agregado. Mas, nas palavras de Adam Siegel, gerente de entretenimento da American Agents & Brokers, companhia de seguros americanas de festivais, estar em território desconhecido será ainda mais nocivo para quem organiza eventos menores. "Pode ser devastador para os pequenos empresários que dependem dos negócios semanais e não têm grandes fundos de reserva", afirmou à Variety.

Show dos Backstreet Boys em Buenos Aires em 7 de março de 2020 - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Show dos Backstreet Boys em Buenos Aires em 7 de março de 2020
Imagem: Reprodução/Facebook

Os organizadores de um festival como SXSW têm de pagar seus artistas através de uma cláusula no contrato do seguro, que prevê eventos de "força maior", mas a ausência de um seguro específico para vírus e pandemias deixam despesas diretas sem cobertura. "Há muito mais em jogo do que pagamentos aos artistas. Mais pessoas nessa cadeia alimentar serão afetadas: fornecedores, equipe, comércios locais", explica Siegel.

O SXSW reconheceu recentemente que, apesar de ter seguro para cancelamento de eventos devido a terrorismo, intempéries, lesões e outros eventos, a feira não contava com seguro para vírus e pandemias. Nas últimas semanas, muitas delas pararam de oferecer cobertura para a covid-19. "Você não pode contratar um seguro para um prédio em chamas", diz Siegel.

Sala de cinema - iStock/Olhar Digital - iStock/Olhar Digital
Imagem: iStock/Olhar Digital

Vácuo de filmes e séries

A situação no cinema é igualmente nebulosa. O TAB procurou as principais redes do Brasil, mas nenhuma quis falar diretamente sobre como o apagão vai afetar seu funcionamento daqui pra frente. Algumas redes dentro de shopping ainda estão funcionando, apesar da orientação. O fim de semana teve a presença mais baixa em muito tempo: 86 mil, uma queda de 40%.

Sabe-se apenas que a agenda de estreias tem caído como dominó, desde quando a maioria dos quase 70 mil cinemas da China, segundo maior mercado cinematográfico do planeta, fechou no final de janeiro.

Já são 50 estreias adiadas, entre elas, promessas de blockbusters como "Um Lugar Silencioso - Parte 2" e "Velozes e Furiosos 9", que ficou para o ano que vem. A produção brasileira sobre o caso de Suzane Von Richthofen, com estratégia inédita de lançamento duplo, só deve estrear quando tudo voltar à normalidade.

A indústria do entretenimento deve descobrir, na prática, como pandemias podem criar novos comportamentos no consumidor. A Universal, por exemplo, avisou que vai disponibilizar direto on demand os seus principais lançamentos de março em diante — como o terror "A Caçada" e "O Homem Invisível". Isso pode ser o empurrão para a transição em massa para o streaming.

De olho nesse momento -- e com a programação em suspenso, com gravações paralisadas e programas que sairão da grade --, a Rede Globo liberou o acesso à sua plataforma de streaming, a Globoplay, por 30 dias, na faixa.

Coincidência ou não, a Netflix aproveitou para estrear a série documental "Pandemia: Como Prevenir uma Epidemia" e colocou o produto no topo dos mais assistidos. Segundo a revista Variety, no final de fevereiro, enquanto mercados de ações globais despencaram, o preço das ações da Netflix subiu 0,8%.

Mas a ideia de que a Netflix seria a empresa que mais surfaria (e lucraria) num momento inédito como esse é simplista, na visão de Laura Martin, analista de entretenimento da Needham and Company de Nova York. Primeiro porque, assim como os estúdios e emissoras tradicionais de TV, a plataforma interrompeu toda a produção de filmes e programas de TV nos Estados Unidos e no Canadá -- bem como os estúdios Disney e a Amazon, que colocou de molho a aguardada produção de "O Senhor dos Anéis". Um vácuo que será sentido com força nos meses subsequentes ao fim da pandemia.

Ao jornal britânico The Guardian, Martin disse que a Netflix só ganha dinheiro com as assinaturas mensais. Portanto, não faz diferença se um assinante acessa a plataforma por uma ou 24 horas ao dia. Além disso, ela pede atenção no impacto financeiro na vida das pessoas, diante da pandemia. "Se você tiver que decidir entre comida e sua assinatura da Netflix, me parece que você se desfaz da Netflix", disse.