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Roberto Carlos x Tim Maia: memes debatem quem é o rei da música brasileira

Nas redes sociais, usuários usam do bom humor para sugerir o posto de um novo rei da MPB; especialistas analisam histórico dos artistas - Divulgação
Nas redes sociais, usuários usam do bom humor para sugerir o posto de um novo rei da MPB; especialistas analisam histórico dos artistas Imagem: Divulgação

Henrique Santiago

Colaboração para o TAB

12/06/2020 04h00

A música popular brasileira tem um rei há mais de 50 anos. Seu nome é conhecido por milhões de pessoas no país e no mundo: Roberto Carlos. Entretanto, esse trono está longe de ser aceito por unanimidade. Nos últimos anos, as redes sociais iniciaram um debate, por meio de memes, em que a realeza das últimas cinco décadas foi destituída — dando lugar a Tim Maia, a quem foi entregue a coroa e o papel de eterna desavença do "ex-monarca".

É difícil saber quem deu início a essa discussão bem-humorada, mas a página Tim Maia Sincero é a principal catalisadora desse movimento na internet. Criada pelo gestor ambiental Nícolas "Bahia" Guimarães em 2016, a página reúne quase 180 mil fãs do Síndico, que acompanham a publicação de brincadeiras relacionadas a letras de música, situações cotidianas, política e, claro, as provocações com Roberto Carlos. Os posts sobre o "verdadeiro rei" são os que mais geram engajamento na rede.

Fã confesso de Tim Maia, Bahia se diverte com as postagens e diz que são uma forma de enaltecer o cantor, morto em 1998. "Para mim, o Tim é o rei da música brasileira e eu acho que ele não teve a valorização que merecia. Ele tem vários discos obscuros que são obras de arte, conduziu uma carreira independente à sua maneira, tinha seus méritos como cantor, tocava vários instrumentos. Rola esse sentimento de injustiça, sim. O que incomoda é como esse reinado [do Roberto] é imposto. Mas não vou comprar briga para ver quem é ou não o rei. É uma brincadeira sadia com fundo de verdade", explica ao TAB, aos risos.

Esse foi fácil

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O ponto de interrogação que paira sob as cabeças de quem desconhece por que Roberto Carlos é chamado de rei é explicado pelo historiador Paulo Cesar de Araújo. Autor da biografia não autorizada "Roberto Carlos em Detalhes", censurada pelo artista em 2007, ele explica que a "coroação oficial" aconteceu no programa televisivo do Chacrinha, em 1966, sendo reconhecido como "Rei da Juventude". Foi nessa época, inclusive, que Tim Maia procurou o amigo para pedir uma ajuda em sua carreira — até então, sem rumo.

Cena cortada e revolta dos fãs

Esse fato, aliás, marca a histórica rusga existente entre os dois. Em seu livro, Araújo narra que o futuro Síndico não conseguiu conversar com o rei e foi humilhado ao ver notas de dinheiro amassadas serem jogadas em sua direção pelo produtor Carlos Manga, que acompanhava a comitiva de Roberto Carlos. O episódio foi reproduzido na cinebiografia Tim Maia, mas gerou revolta quando a Rede Globo transmitiu o filme em 2015 e editou a cena em questão, exibindo no lugar um depoimento de Roberto em que ele conta como ajudou o amigo ao indicá-lo para uma gravadora.

Seria a relação entre Tim e Roberto marcada pelo ressentimento? Paulo Cesar de Araújo opina: "Tim era muito falastrão, criticava tudo, esculhambava o Roberto. Ele [Tim] me contou que o Roberto ligava todo ano para a mãe dele. Me falou isso de uma forma tão terna, ali eu o vi 'desarmado'. E disse que, num ano, o Roberto ligou, soube que ela tinha morrido e começou a chorar ao telefone. Alguém com mágoa ia dar um depoimento assim?", questiona. "Em 1985, Tim foi convidado para o especial do Roberto, estava com sucesso recente, voltou com tudo depois de 'Me dê motivo'. Se tivesse alguma mágoa, não iria. Mas ele tinha uma bronca, sim, vivia espinafrando o Roberto."

Roberto Carlos e Tim Maia foram companheiros na banda The Sputniks, nos anos 1950, e se reencontraram musicalmente em 1969, quando Tim compôs o soul "Não vou ficar" a pedido de Roberto. Dois anos depois, o Síndico imprimiu seu toque à canção em um álbum solo.

"Perguntei ao Tim o que ele achou da gravação do Roberto, e ele: 'ah, muito fraca, né?', ao que eu retruquei: 'E a sua?'. 'Pior ainda'", revela, aos risos. "Provoquei, perguntando se ele gostava de alguma música do Roberto. E ele falou que 'Debaixo dos caracóis dos seus cabelos' é uma música bonita, é uma música boa", complementa.

Relíquias que viralizam

Essas histórias possivelmente renderiam bons memes se existisse rede social nos anos 1970. Hoje, o compartilhamento dessas imagens com doses cavalares de bom humor e ironia é sucesso entre os brasileiros. Em tempos de polarização política, o uso dessa linguagem fica mais evidente por apresentar a divisão de dois lados completamente opostos.

Na página Tim Maia Sincero, a efervescência do discurso político ganhou força nas publicações — o que, segundo Bahia, fortalece a identificação de Tim Maia. "Ele deixava o lance do racismo bem claro. Em entrevista, falava que o Brasil precisava de um senador preto. Que preto precisava de escola boa. Que preto não era colocado em cargo bom por ser preto. Às vezes, os seguidores reclamam que a página está falando de política, mas Tim Maia é uma figura política. Não coloco nada que não é dele ali. Resgatamos vídeos antigos que ninguém dava bola e hoje viralizam", observa.


A convivência desses personagens -- apresentada como pouco afetuosa, diga-se -- recebe novos ares a partir do contexto político em 2020. Para Daniela Ribas, doutora em sociologia pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e diretora de pesquisa da Sonar Cultural, os memes traduzem, de maneira bem simplista, uma visão maniqueísta de bem e mal representada por Tim Maia e Roberto Carlos, respectivamente.

Se, no contexto geral, a história construída até aqui posiciona os dois músicos como contrários, o mesmo será visto no contexto político atual. O Síndico aparece como um símbolo progressista - reforçado por ser um homem negro de origem periférica - e, portanto, novo rei da música popular brasileira desse público.

"Em uma análise rasa [ao olhar os memes], Roberto Carlos é de direita, Tim Maia é de esquerda. Roberto é conservador e Tim é um porra-louca progressista. Um é A, outro é B. Além do mais, o Tim não está mais aqui para se posicionar. As pessoas têm uma 'missão' de falarem por ele. Os memes do Tim Maia são isso, essa coisa de 'falem mim por mim, a trajetória e narrativa que eu construí estão aí para serem usadas'", acredita.

King Tim

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Por que tão populares?

Os protagonistas desta história compartilham uma popularidade raramente vista na indústria fonográfica brasileira. Ainda que caminhem pelo território da MPB, cada um seguiu um caminho musical diferente, mas igualados pelo romantismo. Em entrevista ao TAB, José Geraldo Vinci de Moraes, pesquisador de História da Cultura Brasileira, enxerga que o intérprete de "Primavera" e "Sossego" tem apelo de massa -- e também se renova ao conquistar um público considerado mais alternativo.

De acordo com ele, a incursão de Tim em um soul à brasileira justifica a apreciação de ambos os lados, sem divisões ou polarizações. Não à toa, músicas como "Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)" atingem o povo. Já os projetos mais obscuros como os três volumes de "Racional", álbuns inspirados na seita Cultura Racional, são disputados por colecionadores do Brasil e do mundo.

"Tim fazia uma música que parecia muito sincera, por isso brigou com a TV e o rádio. Eram conflitos de personalidade e de convicção de sua produção musical. Ele tinha um apelo cool naquele período, como se diz hoje, mas era muito limitado ainda — e vai ressurgir com uma grandeza talvez de rei no começo século 21", afirma.

Do outro lado, Paulo Cesar de Araújo assinala que não há no Brasil artista mais popular que Roberto Carlos. A capacidade de tocar com sua música as mais diversas classes sociais, do pobre ao rico, do milionário ao médio, é um feito único no país. Por fazer uma música considerada comercial e vendável, seu trabalho era reconhecido, segundo as elites culturais dos anos 1960 e 1970, pela falta de compromisso com as tradições brasileiras e por ignorar questões sociais, como a pobreza, a fome e a ditadura militar. Mesmo sendo combatido, sua popularidade permanece em alta até hoje, sendo protagonista do especial de fim de ano da Globo há 45 anos.

"O fundamental de Roberto é sua obra. Ela fica, porque está gravada em alta tecnologia e sempre vai conquistar novos fãs. Se ele dependesse só da narrativa, da memória... O seu trabalho está aí", diz, e em seguida completa: "Ele é a expressão do homem médio brasileiro, aquele cara que não se liga em política e vê o mundo pela televisão. Ele é mais um, mas é considerado o rei da música brasileira."