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Na corrida das vacinas, 'árbitro final será o vírus', diz sociólogo

Cientista com vacina - Motortion/iStock
Cientista com vacina Imagem: Motortion/iStock

Letícia Naísa

Do TAB

30/08/2020 04h01

Desde que a pandemia do novo coronavírus explodiu, a comunidade científica vem investindo na busca por uma vacina. Mas, também desde o início da pandemia, uma guerra de narrativas foi travada: há quem seja contra ou a favor de certas medidas. Políticos e tomadores de decisão emitem opiniões que nem sempre estão em acordo com o que dizem os cientistas.

No início de agosto, a Rússia anunciou ter encontrado uma vacina para Covid-19. Ao invés de aplausos e alívio, a notícia foi recebida com ceticismo. China, Estados Unidos, Reino Unido e outras grandes potências também estão na corrida pela vacina que pode salvar a humanidade. Até o Brasil, apesar das dificuldades, conduz estudos para encontrar uma solução. Mas, assim como o uso de máscaras e isolamento social, a vacina também foi ideologizada. Para entender esse fenômeno, o TAB conversou com o físico e sociólogo Yurij Castelfranchi, professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e especialista em estudos sociais de ciência e divulgação científica.

Yurij Castelfranchi, sociólogo e professor da UFMG - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Yurij Castelfranchi, sociólogo e professor da UFMG
Imagem: Arquivo pessoal

TAB: A Rússia foi o primeiro país a anunciar que conseguiu produzir uma vacina e a batizou de Sputnik V. O que há por trás desse nome?

Yurij Castelfranchi: Sem dúvida, a escolha desse título, tal como em outros momentos na política russa, é uma mensagem muito bem escolhida. Ao chamar de Sputnik V essa candidata a vacina — remota candidata a vacina, mas que ele está vendendo como uma vacina já existente e real, esse é outro grande truque dele, populista —, está mandando uma mensagem à sua base, está reativando o orgulho nacionalista russo, lembrando uma grande vitória que abriu a corrida espacial. Ao mesmo tempo está mandando uma cutucada gigante num momento de tensões na política internacional, em particular para os EUA. É um dos grandes sinais do nacionalismo da vacina, dessa ideologização da corrida para a vacina.

TAB: Há muita crítica à vacina russa, assim como acontece com a vacina chinesa, muita gente diz que não confia nas pesquisas dos dois países. Faz diferença para a ciência o modelo político e econômico onde ela é desenvolvida? Por quê?

YC: Bom, para o vírus não faz diferença. O que importa é que uma delas seja de fato uma vacina. Nenhuma delas é uma vacina por enquanto, não temos uma vacina. Se ela vai funcionar ou não depende do vírus, principalmente, e da reação do corpo humano. Agora, a ciência depende do país onde é feita. Países com a China e a Rússia podem, digamos, ter uma margem de manobra para pegar atalhos, isso é muito perigoso. Em países onde a democracia funciona pior ou em regimes mais autoritários e populistas, os governos conseguem pegar atalhos, porque têm menos mecanismos de controle. Mas quem pegar atalho pode pagar muito caro o preço disso. Pode ser o fim da carreira política dessas figuras. Então, antes que uma vacina seja aprovada para ser distribuída em massa nos Estados Unidos ou na Europa, ela vai obviamente ter que demonstrar que passou por esses testes. Se os russos ou chineses não conseguirem demonstrar eficácia, a vacina não vai pegar. O resultado da vacina depende menos da ideologia, mas o processo de produção pode depender muito. O árbitro final vai ser o vírus.

TAB: Por que a vacina se tornou ideológica?

YC: Esse nacionalismo das vacinas é perigosíssimo, primeiro porque obviamente corremos um risco gigante de uma catástrofe sanitária mundial, humanitária, se a ideologia e o mercado decidirem como as vacinas vão ser distribuídas. As vacinas não podem ser distribuídas com base no país mais poderoso, porque grita mais ou porque briga mais e compra todas as doses. E também não pode ser pelo livre mercado, não pode ir antes para os ricos. Tem que ir primeiro para os operadores de saúde do mundo inteiro, para as pessoas de alto risco e segundo para onde tem mais casos, mais mortes. Depois, para o resto da população. Mas tem um segundo perigo: podemos confiar? Eu te falo que quem decide é o vírus. As pessoas acham que se sai de uma pandemia quando existe uma solução médica para ela, como a cura ou a vacina, ou as duas coisas, mas não é assim. Você sai de uma pandemia não só com a biologia e com a medicina, mas com a sociologia, antropologia, economia e ciência política, ou seja, se tem uma vacina e as pessoas não confiam nela e se recusam a tomar, isso mata mais que outros fatores. A vacina que for testada rigorosamente precisa de confiança. Precisamos desideologizar o novo coronavírus e a Covid-19. Não gosto muito de chamar de vacina chinesa ou vacina de Oxford. Na verdade, são vacinas de empresas, não tanto de nações, povos ou governos. O que está em jogo são grandes empresas, algumas das quais gigantescas.

TAB: A corrida das vacinas é comparável à corrida espacial da Guerra Fria?

YC: Em parte, sim. Mas os direitos de propriedade intelectual e as patentes funcionam de maneira muito diferente daquela época. A corrida espacial era uma corrida principalmente entre nações, lideradas por seus chefes de Estado e em nome de um orgulho nacional. É uma corrida oportunista. Agora, temos lideranças autoritárias que se baseiam na desinformação para se sustentar no poder e que ideologizaram a doença, os remédios, as máscaras, as vacinas. Eles não estão pensando no interesse da nação, mas em se manter no poder e manter funcionando a máquina de propaganda. Por isso, essa ideologização é tão forte nos países onde há os maiores fabricantes de mentira, que são justamente o Brasil, EUA e Rússia, e em parte da China também.

TAB: O governo de São Paulo fechou acordo com o laboratório da vacina chinesa enquanto o governo federal aposta na vacina de Oxford, e o governo do Paraná, na opção russa. O que há por trás desses acordos?

YC: Há mais de 160 candidatas à vacina espalhadas pelo mundo, de várias empresas. Não acho que um governo aposta nos russos em vez dos chineses por razões de bandeira. O que está acontecendo é mais simples. Todo o mundo está desesperadamente tentando apostar numa vacina, torcendo pra que dê certo pra que depois possa dizer: eu trouxe a vacina para vocês. Não é tão unilateral também, ou seja, o governo do Paraná não apostou tudo na opção russa, ele também está em acordo com a China, por exemplo. Os EUA estão apostando praticamente em todas as vacinas. Então, essa guerra, na verdade, não é uma guerra ideológica, é uma guerra de propaganda para políticos poderem salvar seu futuro político. A Rússia também vai também produzir a vacina de Oxford. A Itália chama a vacina de Oxford de vacina anglo-italiana, porque uma das fábricas de produção é perto de Roma.

TAB: Quais são os problemas dessa vacina russa?

YC: O problema da vacina russa é evidente: tal como muitos outros países estão fazendo, nos EUA, o Trump está pressionando para ter aprovações encurtadas de remédios e vacinas. A Rússia também tentou encontrar atalhos, então quando o Putin declara: 'Tenho a primeira vacina registrada do mundo', não é verdade, pelo simples fato de que o que aconteceu é que eles injetaram essa vacina em alguns militares e servidores do Putin e em seus familiares e pronto. A única coisa que eles podem saber é que talvez não faça mal. Mas a única maneira de saber se uma vacina funciona é esperar meses, porque você tem que deixar as pessoas viverem suas vidas e ver quem adoece. Não tem como essa fase ser encurtada. Essa é a principal preocupação da vacina russa. A fase 3, que quando se descobre se realmente protege as pessoas, ainda não foi aplicada.

TAB: E o Brasil? Estamos atrasados nessa corrida?

YC: Não acho que o Brasil está atrasado, na verdade. Há coisas de ponta, inclusive vários remédios e vacinas sendo testados. Acho que a ciência brasileira, na verdade, está dando o melhor de si e há grupos excelentes e competitivos. Obviamente o que acontece no Brasil é que a ciência brasileira foi dinamitada. O coração da produção de conhecimento foi agredido e destruído em suas capacidades de produção. O governo anterior já tinha feito cortes muito graves às universidades e à ciência, mas nesse governo, professores, intelectuais, cientistas e jornalistas foram propositalmente atacados. Então o sistema científico brasileiro foi propositalmente colocado de joelhos. A responsabilidade do nosso governo nessa crise de saúde é gravíssima e eu acho que um dia será julgada até judicialmente. De qualquer maneira, a ciência brasileira, as universidades brasileiras, estão salvando direta ou indiretamente milhares de vidas. A ação das universidades e dos cientistas está sendo extraordinária, tanto em termos de produzir equipamentos, quanto de construir redes na sociedade civil. Todas as áreas estão ajudando a construir uma resposta.