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Sputnik V: seria a corrida pela vacina de Covid-19 a nova corrida espacial?

Letícia Naísa

Do TAB

16/08/2020 04h00

Em 4 de outubro de 1957, a União Soviética lançava Sputnik no espaço, o primeiro satélite artificial a entrar em órbita. Os Estados Unidos responderam ao avanço tecnológico com a criação da Nasa, a agência espacial norte-americana, em 1958, numa corrida espacial que mobilizou a atenção do mundo. Parece que os tempos da Guerra Fria não acabaram: na última terça-feira (11), a Rússia anunciou mais um lançamento na tentativa de sair na frente, dessa vez em Terra, mesmo: Sputnik V é o nome da vacina russa para tratar Covid-19. Segundo o presidente da Rússia, Vladimir Putin, ela já foi aplicada inclusive em sua filha.

A vacina foi recebida com críticas e ceticismo pela comunidade científica. No mesmo dia em que a vacina foi anunciada, o presidente norte-americano Donald Trump divulgou a compra de 100 milhões de doses da vacina que está sendo desenvolvida pelo laboratório Moderna, nos EUA. "É uma corrida clara", avalia Sabine Righetti, pesquisadora do Labjor-Unicamp (Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas) na área de política científica.

Guerra quente

Para Yurij Castelfranchi, professor de sociologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e especialista em estudos sociais da ciência, há duas mensagens por trás do nome Sputnik V: uma que pretende reacender o orgulho nacionalista dentro da Rússia, e outra que é uma provocação para o exterior. "É um grande truque. Ele relembra um grande momento de orgulho nacional, constrói uma identidade coletiva e, ao mesmo tempo, dá uma cutucada gigante num momento de tensões de política internacional", afirma. "É uma mensagem muito forte, em particular para os EUA, onde ainda hoje queima no peito de muitos a história do Sputnik. Foi um choque na época para a opinião pública, um golpe grande que deu impulso para o investimento em ciência, tecnologia e educação científica nos EUA nos anos 1950", analisa.

O nome da vacina é emblemático, mas a corrida pela vacinas é comparável à disputa da Guerra Fria apenas em parte. "No sentido da retórica, essa gritaria de vacina inglesa, russa ou chinesa lembra muito a aposta que estadistas e chefes de Estado fizeram para se sustentar politicamente. É parecido, mas tem ingredientes e atores diferentes", diz Castelfranchi. Um desses ingredientes é de suma importância: a forma como o mercado funciona. Hoje, não são países que brigam. São farmacêuticas — o papel de peso é o das empresas privadas, não estatais.

Outro ingrediente de muito peso é a motivação. "A corrida espacial era uma corrida entre nações, liderada por seus chefes de Estado e em nome de um orgulho nacional e de ideologias. Essa nova corrida não tem base em ideias, não é ideológica, ela é oportunista. Políticos individualmente querem dizer que conseguiram uma vacina primeiro para se eleger." A mensagem clara, diz o sociólogo, é a da publicidade.

Para Evandro Carvalho, professor de direito internacional da FGV Direito Rio e da UFF (Universidade Federal Fluminense), ainda há um longo caminho para a Rússia percorrer até colher os louros da vitória sobre a vacina. "Não basta a Rússia lançar a Sputnik V, é preciso fazer o mundo saber, ter acesso à vacina e provar-se imunizado. Mas há um longo caminho para que a Rússia tire dividendos políticos disso", avalia.

Nos EUA, o país mais atingido pela Covid-19 no mundo, Trump também sente o peso da necessidade de se chegar a uma solução. "Ele está sendo pressionado pelo proximidade das eleições no início de novembro e precisa dar respostas rápidas à população", afirma Carvalho. "Diante da politização da pandemia, provocada também por ele, acaba por se colocar numa posição difícil de ter que encontrar a solução dentro dos EUA ou entre seus aliados." Para Carvalho, o mais importante na corrida não será quem desenvolveu primeiro uma vacina, e sim quem conseguirá produzi-la de forma eficaz, segura e em larga escala.

Vacinas e democracias

Por causa da emergência sanitária, estão também na corrida as vacinas chinesa, feita pela empresa Sinovac, e a de Oxford, feita no Reino Unido pelo laboratório AstraZeneca, ambas em testes de fase três no Brasil. No caso da vacina do Instituto Gamaleya, na Rússia, não se sabe com que métodos ela foi desenvolvida.

"Em regimes mais autoritários e populistas, os governos conseguem pegar atalhos porque há menos mecanismos de controle, inclusive na ciência", avalia Yurij Castelfranchi. "Produzidas em um país de menos controle democrático, as vacinas podem ser mal produzidas. E políticos que apostarem em uma vacina só porque ela promete chegar antes podem pagar um preço caríssimo, se depois ela não funcionar. Pode ser o fim da carreira política dessas figuras."

A Rússia registrou estudos de uma vacina em junho. Em julho, a Rússia foi acusada de tentar hackear pesquisas de vacina do Reino Unido. A OMS (Organização Mundial da Saúde) afirmou que está em contato com cientistas e autoridades russas para conseguir mais informações e revisar os detalhes dos testes.

Rigor e método

Criar uma nova vacina é um processo longo e rigoroso. O desenvolvimento requer cinco fases experimentais, e há diferentes formas de se atingir a imunização. Três dessas fases experimentais são clínicas, ou seja, envolvem testes em humanos. Há mais de 160 vacinas sendo estudadas pelo mundo. "Leva, no geral, cerca de dez anos, ainda que existam exemplos de um rápido desenvolvimento, como a do Ebola", afirma Mellanie Fontes-Dutra, pesquisadora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e coordenadora da Rede Análise Covid-19.

"Dada a emergência da situação, podemos conceder certas flexibilizações [nas fases], mas não podemos agilizar, reduzir ou simplificar de alguma forma a fase três, visto que é a partir dela que vem a avaliação definitiva. Cerca de 50% dos estudos que chegam à fase três falham, dada a sua relevância e 'ponto de afunilamento'. Muitas evidências acabam não se confirmando nessa etapa", explica Fontes-Dutra.

A corrida pela vacina é urgente, mas não deve ser feita sem respeitar protocolos. A preocupação dos especialistas sobre a vacina russa é que, além da falta de transparência dos resultados, não parece ter havido tempo hábil para respeitar as etapas. "A fase três leva uns dois meses de acompanhamento. Precisa de tempo para avaliar os resultados. A vacina russa foi registrada em fase um em junho; estamos em agosto e eles dizem que já funciona, que tem vacina pronta. Não daria tempo, não tem como acelerar esse processo", explica Sabine Righetti.

Até agora, os cientistas russos não publicaram os resultados dos testes da Sputnik V. Ela foi registrada em fase um com testes em 38 pessoas. "A gente não sabe o que aconteceu com essas pessoas, não foi publicado nenhum resultado. Isso não é ciência, não é assim que se faz vacina. A vacina russa não existe", afirma Righetti.

"Essa falta de transparência sobre as evidências científicas coloca-nos num cenário problemático, e discussões fora do âmbito científico ganham força, na tentativa de entender o que pode estar por trás disso", diz Fontes-Dutra. "A vacinação é nossa maior e principal ferramenta de saúde pública e ela deve ter adesão por ser segura e eficaz, garantida pelo método científico. E esse método precisa ser seguido, sem exceções."

Roleta russa

O governo do Paraná anunciou parceria com os russos para testar a Sputnik V no Brasil. Por aqui, ela deve passar por todas as fases para ser liberada pela Anvisa. "O árbitro final vai ser o vírus. Se uma vacina funciona mesmo, independentemente de ter sido feita na China ou na Rússia, as pessoas precisam confiar. E isso é um gigantesco problema."

Para que a pandemia chegue ao fim, além do esforço da ciência, há uma guerra de narrativas que requer esforço de análise de outras áreas como a sociologia, a antropologia e a economia. "Se as pessoas se recusam a tomar uma vacina, confiável ou não, isso mata mais do que o vírus. Se nessa corrida nacionalista as pessoas continuarem associando a vacina X à China e a vacina Y à Rússia, corremos o risco de que, mesmo que elas funcionem, teremos problemas seríssimos com os movimentos antivacina", diz Castelfranchi.

Desde o início, a pandemia passou um processo de politização, polarização e ideologização, "Quando não há compromisso com a verdade dos fatos e com a ciência, entramos no vale-tudo da política internacional", diz Carvalho. "Assim, a politização da corrida das vacinas é consequência deste cenário anterior."

Para Castelfranchi, a ideologização é ainda mais forte na Rússia, Brasil e Estados Unidos justamente porque são países onde as "fábricas de mentira" funcionam com mais força. "A pandemia coloca em xeque governos inteiros. Governos caem ou se sustentam a partir das respostas adequadas ou não que dão à população", afirma. "Não é a vacina que é ideológica. Determinados políticos precisam transformar em propaganda qualquer aspecto da Covid-19, culpando os outros ou prometendo uma solução para seus eleitores."