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'Tudo o que foge do padrão gera impacto', afirma o fenômeno Pequena Lo

Pequena Lo, humorista do TikTok e Instagram - Divulgação
Pequena Lo, humorista do TikTok e Instagram Imagem: Divulgação

Letícia Naísa

Do TAB

13/09/2020 04h00

Com sotaque mineiro carregado, Lorrane Silva, 24, afirma ser uma "pessoa rara". Influenciadora e humorista, a Pequena Lo faz sucesso com piadas cotidianas no Instagram e no TikTok, onde reúne mais de 1 milhão de "pequeniners". Seguindo a leva dos humoristas de redes sociais, Lorrane faz piada sobre a infância, baladas, amizades, relacionamento, a relação com os pais, noites de insônia e claro, a quarentena.

Psicóloga de formação, Lo aposta na empatia e na identificação dos jovens adultos para produzir esquetes engraçadas com leveza. Também usa os ensinamentos da profissão para lidar com as críticas. Lorrane é uma pessoa com deficiência (PCD). Mas não gosta quando dizem que usa o humor para "superar" o que quer que seja.

O humor faz parte de seu jeito de ser, diz, mas ela tem consciência da importância de seu trabalho como plataforma de visibilidade para outros como ela. "Gera estranheza. Não é sempre que a gente encontra pessoas com deficiência, que fogem do padrão imposto, se tornando uma figura pública", afirma.

Em entrevista ao TAB, Lorrane reflete sobre seu papel nas redes sociais, representatividade, capacitismo e a importância de uma boa risada em tempos de pandemia.

TAB: Como você se tornou humorista?

Lorrane Silva: O humor está presente na minha vida desde a infância. Levei essa veia cômica para a internet em 2015. Comecei a gravar vídeos sobre as minhas vivências, bullying, preconceito. No início, falei muito sobre esses assuntos. Em 2016, fui para o Instagram e postava vídeos dançando, viralizava. Em 2017, fiquei parada por causa da faculdade, e voltei no final do ano seguinte. Comecei a fazer memes sobre assuntos do momento, sempre pesquisando coisas com que galera pudesse se identificar. Percebi que esses vídeos viralizaram mais no fim de 2019. Baixei o TikTok sem pretensão nenhuma. Não imaginava que faria esse sucesso todo. Comecei a ver que eu sou humorista. É uma definição recente.

TAB: É diferente se colocar como humorista, em vez de se assumir influenciadora?

LS: Gosto de me identificar como humorista, porque meu conteúdo é nesse segmento. Mas sou digital influencer. Estou levando representatividade, influenciando as pessoas, direta ou indiretamente, querendo ou não. Ainda mais nesse momento de pandemia. Recebo muito retorno de gente que mudou de opinião, isso é influenciar o modo como as pessoas pensam. E a identificação é o ponto principal dos meus vídeos. Acho que é a minha maneira de me expressar, atuar com caras e bocas, que é espontânea. Não faço roteiro. Vejo um vídeo, um meme, salvo e gravo do meu jeito. Fica diferente, porque cada um tem sua maneira de atuar, interpretar, estou sempre pesquisando. Acho que as pessoas se veem nas situações de infância e adolescência.

É ASSIM TODO DIA.. . . #humor#comedia#memes

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TAB: Pode rir na pandemia?

LS: Com certeza. O humor é bom em todos os momentos. Não só agora, mas levar alegria para as pessoas eu sempre gostei. Sempre fui de contar piada, ser engraçada. Acho que essa explosão na pandemia foi por conta da quantidade de informações que a gente tem. Muitas notícias ruins, infelizmente. As pessoas querem fugir disso. Muita informação ruim faz mal para a nossa saúde mental. Rir, ver uma comédia, um meme, tira um peso. Você relaxa. Mesmo a gente estando em pandemia, não é proibido rir. A gente sente empatia pelo momento, mas o humor é importante para aliviar.

TAB: Como é ser uma pessoa com deficiência fazendo humor?

LS: Quando eu comecei, em 2015, gerou estranheza nas pessoas. Estou desde 2015 trabalhando com internet e só agora ganhei reconhecimento. Pra mim, é gratificante levar essa representatividade de nós, PCDs. Tudo o que foge do padrão gera impacto, e gerou quando eu comecei. Teve comentários maldosos, desnecessários. Antes, me enxergavam como a "Pequena Lô: a deficiente que usava muleta, a baixinha". Hoje não recebo comentários negativos, não tenho haters. Isso é bacana. Hoje me enxergam como a "Pequena Lo: criadora de conteúdo, humorista". Totalmente diferente.

TAB: Você é inspiração para outras pessoas com deficiência?

LS: Recebo muito feedback de outras pessoas com deficiência. Tenho certeza de que eu influencio, levo uma mensagem. Tem quem diga que "a Pequena Lo usa o humor para superar sua síndrome rara". Não é isso. Eu sempre fui assim. Minha condição física é outra coisa. Não usei humor para superar nada. As pessoas que me assistem que são deficientes mudam sua visão sobre elas mesmas. Quero levar a mensagem de que nós somos capazes, sim, de realizar o que queremos, conquistar sonhos. Não é porque a gente tem uma limitação que a gente não é capaz ou é inferior.

Eu todinha

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TAB: Qual o limite do humor?

LS: O meu humor é leve, espontâneo. Uso para alegrar as pessoas, para elas se identificarem. Ele não é capacitista, mas há quem use o humor para se referir a nós de forma ruim. Nem tudo é motivo de piada. Não se faz piada com corpo, a maneira como a pessoa fala ou anda. Tudo tem limite. Para ser engraçado, não precisa ofender.

TAB: A internet é hostil para as pessoas com deficiência?

LS: Hoje vejo uma evolução grande. As pessoas com deficiência estão colocando mais a cara na internet para correr atrás de seu direito à acessibilidade. Antes isso era muito difícil. Quando comecei a postar vídeos, ficava insegura. Mas não é a internet [que é hostil], são as pessoas que a usam. O Brasil é complicado em questões de acessibilidade. Está melhorando, mas pode mudar mais. São coisas simples, por exemplo, um elevador. Eu tenho baixa estatura, não sou anã, as pessoas confundem, mas eu sou baixinha, não alcanço os botões do elevador. Faltam rampas para cadeirantes. Nos supermercados as prateleiras são muito altas. Falta ter uma visão mais ampla sobre isso, porque nos faz falta.

TAB: Qual é o seu diagnóstico?

LS: Nunca descobriram. Fizeram estudo genético quando eu nasci, mas não descobriram. O nanismo foi descartado. Tenho uma síndrome associada à displasia óssea, tenho os membros curtos. Brinco que sou uma pessoa rara, porque ninguém nunca descobriu o que eu tenho, o porquê. Mas mesmo que eu soubesse o diagnóstico, seria só uma descoberta, não mudaria a minha vida. Me perguntam bastante sobre isso, mas não me incomoda, não adianta querer fugir. Sou uma pessoa com deficiência e tenho que levar representatividade.

Mais um dia de quarentena . . . #humor#comedia#neon#danca

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TAB: Você tem uma rede de apoio?

LS: Minha família tem um papel enorme. Meus pais sempre me apoiaram, nunca tiveram vergonha de me expor ou falaram que eu era incapaz. Sempre me disseram que eu era capaz de fazer tudo o que eu quisesse. Isso me ajudou muito a ser quem eu sou hoje. Meus amigos também, nunca tive dificuldade de fazer amizade, sempre chegava fazendo piada, alguma graça para as pessoas conversarem comigo, porque elas ficam com receio. Acham que quando você é deficiente, não consegue conversar direito.

TAB: Você é formada em psicologia. Como isso influencia seu conteúdo?

LS: Eu me formei recentemente, sou apaixonada pela profissão. Eu ia atuar na área, mas tudo mudou. É um aprendizado que levo para a vida toda. Uso no dia a dia, para me comunicar com quem me manda mensagem, produzir meus stories. Filtro muito o que eu vou falar, porque sou uma referência, então a formação também me ajuda a emitir opiniões e a lidar com opiniões. Comentários maldosos não me fazem desistir, mas ter feito psicologia me ajudou muito a entender esses comentários. A internet é boa, mas tem de saber usar: as pessoas esquecem que tem outro ser humano do outro lado e despejam nos comentários. A psicologia me ajuda a entender que não é comigo o problema, mas com o outro, e a não me abalar.