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Por que 'Pantanal' foi tão importante em 1990 -- e o que esperar do remake

Cristiana Oliveira é Juma Marruá, em "Pantanal" - Divulgação
Cristiana Oliveira é Juma Marruá, em "Pantanal" Imagem: Divulgação

Mônica Manir

Colaboração para o TAB

14/09/2020 13h01

Está aberta a temporada de caça à atriz que fará o papel de Juma Marruá no remake de "Pantanal". Foi a TV Globo oficializar, no domingo (6), o lançamento da novela para 2021, e o banco de apostas nas redes sociais pegou fogo em torno da personagem mais emblemática da trama: a moça que virava onça. Rostos conhecidos e outros nem tanto simulam uma juba (que onças não têm) e olham de baixo para cima, como um felino acuado, a fim de cativar o olheiro da emissora e a simpatia do público para o papel que consagrou a atriz Cristiana Oliveira há 30 anos.

Em paralelo, discute-se se seria o momento de tanto auê em torno do anúncio. O pantanal mato-grossense vem sendo consumido por incêndios — os piores desde o fim dos anos 1990. Pareceu deboche vibrar com a produção de um entretenimento em vista da devastação do bioma que lhe servirá de cenário. Negacionismo. Futilidade diante de coisa séria. Foi assim que muita gente interpretou, ao menos nas redes sociais.

Reinterpretação do Brasil

A novela "Pantanal", entretanto, não tem histórico de futilidade. Está mais para divisora de águas: a versão original foi ao ar na extinta TV Manchete de 27 de março a 10 de dezembro de 1990. Em 223 capítulos, o autor Benedito Ruy Barbosa descortinava uma paisagem pouco visitada pela maioria dos brasileiros, habitada por uma comitiva de peões tão desconhecida quanto — e o fazia dentro de um gênero consagrado como carro-chefe da modernidade, da cidade grande.

"Até então, a novela desempenhava um papel semelhante ao do cinema clássico de Hollywood no começo do século 20, que apontava a urbanização como movimento inexorável", diz Esther Hamburger, professora titular de História do Cinema e do Audiovisual na ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), em entrevista ao TAB. Era uma migração acompanhada de liberalização dos costumes, de anonimato, com menos sujeição à fofoca e ao controle, que deixava na rabeira uma vida campestre de conotação negativa, invariavelmente dominada pelo chicote de um coronel. "Pantanal" virou esse eixo. "Ela apresentou uma reinterpretação do Brasil", afirma Hamburger.

Valores mais tradicionais, como o patriarcado e o casamento, ganharam força no enredo. O coronel José Leôncio, o protagonista, tinha três filhos varões. Mas quem se impôs em "Pantanal" foi a paisagem, em longos e lentos clipes, com o uso generoso de planos abertos e um estilo épico de narrativa. "É uma nova abordagem estética, que influenciou telenovelas e séries futuras da própria Rede Globo", diz ao TAB Laura Graziela Gomes, professora titular do Departamento de Antropologia da UFF (Universidade Federal Fluminense). Ela lembra que essa abordagem remetia a um imaginário mítico num momento político igualmente difícil para o país.

No Brasil, vivia-se o governo Collor e seu plano de confisco da poupança, aureolado pelas recentes conquistas obtidas no papel por meio da Assembleia Constituinte de 1988. Enquanto assistia à novela, Gomes se perguntou várias vezes sobre o sentido de se mostrar tanta água. A vinheta, por exemplo, era quase toda subaquática, culminando com o mergulho de uma mulher nua (interpretada pela atriz Nani Venâncio) que se une a um homem nu. "Ocorreu-me, naquele momento, tratar-se de uma alusão à 'pureza' depois de todo o perigo que experimentamos no passado recente do regime militar e as incertezas da Nova República".

Cena da novela "Pantanal" - Divulgação - Divulgação
Cena da novela "Pantanal"
Imagem: Divulgação

Realismo fantástico

A trilha sonora do músico Marcus Viana, como destaca a professora da UFF, contribuiu para imprimir o clima mágico e valorizar a narrativa visual da novela, misturando o new age com a música sertaneja mais tradicional, repertório também disruptivo para o momento. Dois músicos — Sérgio Reis e Almir Sater — viraram inclusive atores de "Pantanal". Sater fazia um violeiro misterioso, que ora parecia ter um pacto com o demônio, ora encarnava o próprio.

Sérgio Reis teria apresentado Benedito Ruy Barbosa à região quando da construção de seu hotel-fazenda no Mato Grosso. Em uma noite movida a vodca e cerveja, embalado por modas de viola, o autor ficou em êxtase com o arrebol refletido na água, cortado por tuiuius, e rascunhou a sinopse da novela com os personagens centrais. Já na cidade, desenvolveu o primeiro capítulo e o mostrou à Globo — onde suas novelas se restringiam ao horário das 18h. Demorou para que uma equipe da emissora visitasse o local a fim de averiguar a viabilidade do projeto. Benedito conta que "foi burro", pois chegaram na época errada, das cheias. A negativa a "Amor Pantaneiro", primeiro nome da trama, foi automática.

O diretor Herval Rossano, integrante da turma que explorou o local, disse anos mais tarde que o gigantismo das equipes da Globo e as exigências de conforto dos atores da casa não condiziam com a proposta da obra. Com uma equipe bem mais enxuta, a Manchete abraçou a ideia. Assim, a maior planície alagada do planeta abocanhou a audiência do horário nobre — e fez o mesmo anos mais tarde, em 2008, quando o SBT exibiu sua reprise.

A Juma de 2020

Fazer um remake após três décadas implica se submeter a comparações com a original, além de enfrentamentos com a severa concorrência dos serviços de streaming e o desgaste da mídia televisiva, que no dia 18 de setembro faz 70 anos de chegada ao país. "Para o bem e para o mal, a televisão não ocupa mais um lugar privilegiado para falar deste Brasil tão fragmentado", diz Esther Hamburger.

Ao mesmo tempo, a crise ambiental é um tema atualíssimo, e parece inevitável que seja debatida na nova versão, considerando que o Brasil vive e é um dos protagonistas da crise. "Tal fato torna-se mais crítico quando lembramos que o Brasil sediou a Rio-92 durante o governo Collor, tendo sido signatário das decisões tomadas naquela reunião", resgata Laura Gomes.

Quanto à Juma, a antropóloga entende que se a nova Marruá for apenas uma moça bonita que toma banho nua no rio — e eventualmente vira onça enquanto vive um tórrido romance —, não engajará o público aguerrido à defesa da natureza, ainda mais em ano pré-eleitoral. "Agora, se encarnar uma líder ambientalista, feminista, ativista dos direitos das populações tradicionais da região da qual seria representante, em suma, se for uma espécie de Greta sertaneja que vira onça, sem dúvida causará polêmica, mas será bem mais interessante e promissora para a emissora."