PUBLICIDADE

Topo

Filme usa deepfake para mostrar perseguição e mortes de LGBTs na Rússia

Jovens fogem da Rússia em cena de "Welcome to Chechnya", do diretor David France - Divulgação
Jovens fogem da Rússia em cena de "Welcome to Chechnya", do diretor David France Imagem: Divulgação

Tiago Dias

Do TAB

29/10/2020 04h00

Há um desconforto que acompanha o espectador durante todo o documentário "Welcome to Chechnya" (Bem-Vindo à Chechênia), exibido no Brasil pela primeira vez dentro da programação online da 44ª Mostra de Cinema de São Paulo, e que estreia em 18 de novembro nas plataformas on demand.

Primeiro pelo óbvio: o filme revela em detalhes a terrível cruzada contra gays e lésbicas na Chechênia, pequena república de maioria muçulmana, no sudoeste da Rússia. Ali, homossexuais são alvos das autoridades e de suas próprias famílias, encorajadas a matar os entes com comportamentos considerados "desviantes".

As imagens interceptadas de grupos radicais, que registram os ataques como troféus, são bastante gráficas e chocam. Em pleno século 21, um país prende, tortura e mata pessoas por simplesmente serem homossexuais. É como se Gilead, o regime autoritário da obra distópica "O Conto da Aia", de Margaret Atwood, existisse ali do outro lado do mundo.

"É por isso que eu chamo o filme de 'Bem-vindo à Chechênia'. Vemos o que acontece por lá, mas é apenas a ponta do iceberg", explica o diretor americano David France ao TAB. "Essa ascensão do populismo de direita está usando a comunidade LGBTQI+ como bode expiatório para reforçar seu controle autoritário. É uma forma de assustar a população e nos dividir, criando esses inimigos . Isso está acontecendo em toda a Rússia, no Leste Europeu e em outros lugares da Europa. Isso está acontecendo nos Estados Unidos. E certamente está acontecendo no Brasil", observa.

France passou os últimos anos acompanhando o trabalho de uma organização que ajuda chechenos que correm risco de morte a conseguir refúgio seguro em outros países. Dentro de um abrigo secreto, acompanhamos seus dramas, mas há algo na face e nos olhos desses jovens que causa estranheza. Para não revelar suas verdadeiras identidades, os rostos foram modificados digitalmente utilizando o deepfake, técnica de inteligência artificial que permite trocar rostos e mudar expressões faciais.

Cena do documentário "Welcome to Chechnya", do diretor David France - Divulgação - Divulgação
Cena do documentário "Bem Vindo à Chechênia", do diretor David France
Imagem: Divulgação

A tecnologia é polêmica por ser uma ferramenta de profusão de fake news, mas, no filme, esse "vale da estranheza" — como é chamada a sensação que os efeitos especiais provocam no espectador — serve como recurso narrativo na jornada de muitos desses jovens, para poder ser quem se é. E era fundamental que o público percebesse o uso da técnica na tela. "Queríamos que soubessem que as pessoas foram forçadas a se esconder. Mesmo dentro da rede secreta de abrigos, após conseguirem deixar a Rússia e encontrarem novos lares em partes mais liberais do mundo, eles estão em perigo", diz o diretor.

Em busca da identidade

France é jornalista investigativo e, desde 2013, retrata no cinema as lutas e a busca da comunidade LGBT pela sua própria identidade. Seu filme anterior, "A Morte e a Vida de Marsha P. Johnson" (disponível na Netflix) contava a trajetória da mulher trans que foi apagada dos registros da luta LGBTQI+ nos Estados Unidos.

"Absolutamente, é algo que me move. Sou de uma comunidade de ativistas, e o que me atraiu para o cinema foi a possibilidade de fazer uma crônica, contar histórias desse ativismo queer radical e transformador. Meus filmes contam uma variedade disso. Neste, é sobre o ativismo que está acontecendo em um mundo que é tão perigoso que o reconhecimento da identidade pode levá-los à própria morte", explica.

David France, diretor de "Welcome to Chechnya" - Divulgação - Divulgação
David France, diretor de "Welcome to Chechnya"
Imagem: Divulgação

O uso do deepfake não estava no horizonte quando o projeto começou, mas todos os métodos pensados se mostraram inadequados para contar aquelas histórias. "Eram técnicas que não tendiam a disfarçar aquelas pessoas, mas ampliar suas singularidades como se fossem caricaturas. Chegou um momento em que estávamos realmente preocupados em não encontrar uma maneira para que eles recuperassem suas próprias narrativas"

Supervisor de efeitos visuais, com créditos que incluem "Harry Potter e a Câmara Secreta" (2002), Ryan Laney convenceu o direitor de que a inteligência artificial poderia ser usada para fins afirmativos. Assim, os personagens ganham rostos de ativistas americanos, que cederam suas imagens como "escudos".

Em um dos momentos mais fortes do filme, a tecnologia é desfeita na tela quando um personagem revela seu rosto e nome: Maksim Lapunov. Ele foi o primeiro homossexual que desafiou as ameaças de morte das forças de segurança da Chechênia e apresentou denúncia formal nos tribunais.

Um ato de coragem necessário. Apesar dos relatos, não havia provas e testemunhas para contradizer Ramzan Kadyrov. Nomeado presidente da Chechênia pelo presidente russo Vladmir Putin em 2007, Kadyrov construiu ali uma espécie de Estado paralelo e nunca escondeu que os homossexuais estão no topo da lista de "indesejáveis". Ele nega tortura e assassinato, mas só por um motivo: "Não temos esses tipos de pessoas aqui."

Técnica do deepfake utilizou rostos de ativistas americanos como "escudos"  - Divulgação - Divulgação
Técnica do deepfake utilizou rostos de ativistas americanos como "escudos"
Imagem: Divulgação

Danos de um genocídio

Nessa jornada de fuga e sobrevivência, o diretor se deparou com cenas pesadas no abrigo: horas antes de embarcar para um novo país, um dos jovens tenta se matar. France disse que aquilo o marcou para sempre. "As pessoas congelaram no tempo. É horrível ver quanto dano um sobrevivente desse tipo de genocídio carrega. Aquele jovem está bem, mas sua vida não ficou muito mais fácil depois disso. Isso não me atraiu como cineasta, mas como ser humano", disse. "Eu sinto uma responsabilidade pessoal por cada um daqueles indivíduos que eu conheci. Assim como os ativistas no filme, sinto que a responsabilidade não termina na fronteira."

O diretor diz manter contato com os personagens, mas de dois, em específico, nunca ouviu mais falar. O cantor checheno Saleem Bakiyev é um deles. Uma das revelações pop do país, ele desapareceu do dia pra noite. 'Infelizmente, seus amigos e sua família aceitaram a declaração do governo checheno de que ele está realmente morto. Embora não tenham apresentado nenhum corpo, presume-se que ele foi morto durante a tortura, enquanto estava sob custódia dos agentes de segurança", conta France.

Casa secreta na Rússia abriga refugiados da cruzada contra LGBTs na Chechênia - Divulgação - Divulgação
Casa secreta na Rússia abriga refugiados da cruzada contra LGBTs na Chechênia
Imagem: Divulgação

Histórias como esta fazem do filme um poderoso veículo para abrir os olhos do mundo para a questão. Desde sua estreia nos Estados Unidos, em julho, o diretor tem feito exibições para legisladores. A ideia é forçar o governo de Donald Trump a emitir sanções contra os líderes da Chechênia.

"Vamos lançar o filme em algumas semanas na Rússia, finalmente. Queremos chegar aos russos que não têm acesso a notícias sem censura. Espero acessar corações e mentes do povo russo para ajudar a montar o tipo de resistência cultural necessária para acabar com isso", deseja France. Para ele, é uma questão de direitos humanos. Uma questão de todos os países.

"Estamos em um período de extrema retração após décadas de avanços na questão da tolerância, aceitação e integração das minorias sexuais. Todos nós estamos caminhando para a Chechênia de uma forma ou de outra. E é por isso que acho o filme é tão urgente. É algo que todos nós precisamos ver: é o que está por vir."