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Matheus Pichonelli

Ex-caçador, Doca Street fez da vida um safári até morrer em paz

Doca Street, em entrevista ao lançar seu livro de memórias, "Mea Culpa" (2006) - Marlene Bergamo/Folhapress
Doca Street, em entrevista ao lançar seu livro de memórias, "Mea Culpa" (2006) Imagem: Marlene Bergamo/Folhapress
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

23/12/2020 04h01

Dos muitos rodeios para explicar como Raul Fernando do Amaral Street passou pela vida como passou —um homem comum (ou banal, no sentido arendtiano), sem feito memorável a não ser ter matado a namorada — ninguém foi mais direto ao ponto do que Fritz d'Orey, amigo de Ângela Diniz e da família Street.

Para ele, Doca Street era só o filho de uma família rica, cheia de contatos, e muito influente. Não fazia nada e nunca gostou de estudar. "Sempre soube que era um vagabundo", disse d'Orey. "Vivia brigando, andava armado. Era semi-analfabeto e um idiota violento", resumiu, em entrevista ao podcast "Praia dos Ossos".

Doca morreu na última sexta-feira (18), em São Paulo, aos 86 anos, após uma parada cardíaca, segundo sua família. Teve tempo de conceder sua última entrevista ao podcast, em que se apresenta como alguém cansado de luta, arrependido até o último fio de cabelo branco pelo que fez e pagou. Ali deixava entrever alguns sorrisos e ideias sobre o mundo. Segundo ele, todo mundo reage quando alguém pisa no calo.

A pisada em seu calo resultou em quatro tiros no rosto de Ângela Diniz, sua então namorada, em 30 de dezembro de 1976. Se tivesse sobrevivido, Ângela talvez se lembrasse hoje, após 44 anos, da noite em que mandou o traste embora. Desde então teria poucas notícias do bon vivant com quem havia se mudado para viver o que os jornais à época chamavam de "paixão avassaladora".

As constantes e cada vez mais violentas crises de fúria e ciúmes do namorado já eram demonstrações suficientes de que aquele relacionamento não tinha futuro. Os amigos bem que avisaram. Era hora de dar um basta naquele sujeito controlador e agressivo que dizia amar demais. Quem ama não mata, aprenderia ela em algum momento, sem precisar ser vítima nem mártir da causa que virou slogan.

Rejeitado por ela naquela noite, Doca Street poderia ter virado a esquina e tomado outro rumo. Provavelmente ouviria algum sucesso da época sobre a humilhação masculina diante de uma mulher cruel. Em alguma estação de rádio, talvez tocasse algum hino do autoengano, do tipo "você pediu e eu já vou daqui. Nem espero pra dizer adeus". Choraria no conforto de quem sabe que não vai voltar, mas sonha.

Mas Doca Street não quis esperar a namorada compreender e, lamentando, seu nome chamar. Voltou à casa da praia e encerrou a conversa com cinco tiros, quatro dos quais alvejou a "Pantera de Minas" — como jocosamente se referiam a ela as colunas sociais.

Como nos tempos em que andava armado com o amigo Jorge pelas savanas africanas, caçador que era, o estado de natureza já não era ameaça. Estava domesticado e neutralizado como troféu.

Aquele crime, diz minha amiga Ana Paula Ferraz, escritora e jornalista, é a representação de uma norma da sociedade. Uma norma que domou, castigando a tiros, a mulher que transgride e quer ir além.

Ângela Diniz, socialite mineira que foi assassinada em 1976 pelo companheiro Raul Doca Street - Acervo UH/Folhapress - Acervo UH/Folhapress
Ângela Diniz, socialite mineira que foi assassinada em 1976 pelo companheiro Doca Street
Imagem: Acervo UH/Folhapress

Sumido da cena do crime, Doca Street reapareceria 20 dias depois em uma clínica de Taboão da Serra (SP), em estado de pré-coma alcoólico. Um jornal do Paraná registrou sua prisão ao lado da notícia de um treino da seleção brasileira em que os titulares venceram os reservas por 2 a 0. Gols de Zico e Rivellino.

No rodapé, o jornal noticiava também que a boate Click, de Cabo Frio, tinha acabado de lançar o drink Doca Street, em homenagem ao assassino. A fórmula levava Campari ("vermelho e agressivo") e uísque ("devido ao nome inglês do acusado"), além de Cointreau. Era servido com quatro balinhas dentro do copo.

Não foi a primeira nem seria a última homenagem a um assassino confesso, antes mesmo do julgamento, como mostrou Branca Vianna, podcaster e idealizadora de "Praia dos Ossos".

"Doca, Cabo Frio está com você", dizia uma das faixas à entrada do tribunal. Como uma final de futebol, com claque e torcida. A maioria favorável ao Barrabás versão Brasil de 1970.

Enquanto aguardava em liberdade, Doca chegou a dar autógrafo a um homem que explicou: meu filho é seu admirador.

Doca, que seria lembrado também na música "Nome aos Bois", dos Titãs — uma lista de admiráveis canalhas e ditadores —, tinha dinheiro não apenas para pagar um bom advogado, mas para comprar a biografia de homem de bem que, com um passado exemplar, agiu como agiu por paixão, raiva e legítima defesa da honra.

Era um "homem passional com talento especial para o trágico", como definiu, dramaticamente, seu advogado, o criminalista Evandro Lins e Silva. Foi ele quem se prestou ao trabalho de preservar a biografia do cliente enquanto a vítima era descrita como neurótica, lasciva, mãe irresponsável, dependente de "tóxicos" e medicamentos — a própria Eva a levar o homem bom ao pecado. Uma Eva que provocou a sua própria morte porque, segundo o advogado/acusador, queria morrer e obteve, do amante, seu suicídio assistido.

Diante do júri, Doca Street foi condenado a pouco mais de um ano de prisão, do qual já havia cumprido parte da pena. Saiu do julgamento em liberdade e com semblante abatido de viúvo atormentado. Ao menos para as câmeras.

O massacre foi tamanho que levou o poeta Carlos Drummond de Andrade a escrever que Ângela continuou a ser assassinada todos os dias e de diferentes maneiras.

Diante da aberração, o Tribunal de Justiça do Rio anulou a sentença. E determinou um novo julgamento. Em 1981, Doca Street foi enfim condenado a 15 anos de prisão.

O que mudou em tão pouco tempo?

A pergunta percorre boa parte do podcast de Branca Vianna e Flora Thompson-Deveaux, que fizeram questão de ouvir as mulheres que viram no assassinato de Ângela Diniz a gota d'água para se mobilizar, com a liberdade de um país que se abria contra a violência masculina tolerada pela letra da lei desde muito antes. O feminicídio da socialite forjou o slogan "Quem ama não mata".

Ângela Diniz nunca foi feminista, mas seu assassinato alavancou uma onda de revolta que se organizou a partir da Lei da Anistia, em 1979, ano do primeiro julgamento. Em 1981, o contexto era outro, embora esse mesmo país tenha contabilizado inúmeros casos de violência contra a mulher nos 40 anos que se seguiram, como bem lembrou Camilo Vannuchi em sua coluna no UOL. Puxam a fila homens como Pimenta Neves, Guilherme de Pádua, o goleiro Bruno e outros tantos homens e doutores da lei que destroçam a dignidade da vítima para preservar seus predadores.

Entre um julgamento e outro, Doca tentou normalizar a vida em São Paulo trabalhando como vendedor de automóveis. Em um documentário da TV Globo conduzido por Eduardo Coutinho, o dono de uma agência onde trabalhou o definia como um "bom elemento". Na mesma época, Doca foi convidado para trabalhar também na concessionária de um amigo que acabou arrolando como testemunha no processo. Quem tem amigo tem tudo, dizem.

Seguiu morando com a mãe, numa casa de alto padrão no Morumbi, bairro nobre de São Paulo. Em depoimento ao programa, seu pai, o empresário Luiz Gustavo Street, disse que não desejava a pai nenhum a dor que estava sentindo. Sobre Ângela Diniz, a vítima, preferiu o silêncio — segundo ele, em respeito aos filhos dela, "crianças inocentes" sem culpa pela mãe que tiveram.

Após o cumprimento da pena, Doca submergiu, mas não deixou de contar com uma rede de apoio, entre amigos e familiares.

No começo dos anos 2000, em uma entrevista com o assassino confesso (e já libertado), o colunista social Amaury Jr. praticamente estendeu tapete vermelho em forma de pano ao reforçar, logo nas primeiras perguntas, o mito do homem que perde a cabeça de tanto ciúmes — a palavra que mais apareceu na conversa.

Chama a atenção, na entrevista, o incômodo do assassino confesso em ter sido retratado como traficante e gigolô pelos veículos de imprensa. Também se incomodava com a fama de playboy. "Trabalhei a vida toda", garantia ele, embora tenha se embananado todo ao listar os locais onde labutou até então. Na dúvida, dizia atuar nos últimos anos na área de assessoria financeira — o mesmo que dizia quando era figura onipresente nas festas de bacana no Rio e em São Paulo.

Em 2006, quando lançou seu livro "Mea Culpa", Doca contou à repórter Laura Capriglione, na Folha de S.Paulo, ter ficado com vergonha da pena abrandada no primeiro julgamento. Pelo título do livro, parecia um homem arrependido e consciente de um mundo injusto a seu favor, mas o novo figurino poderia ser facilmente desnudado.

"Não entendi. Também não entendi por que era aplaudido e por que chovia mulher. Eu saía com elas, não resistia — testosterona no máximo —, mas não entendia. Um dia, uma moça me perguntou: 'Como eu faço para te seduzir?'. Fomos para o motel, tudo e tal, ela me disse: 'Você é o Doca ou não?'. Confirmei, ela me olhou decepcionada: 'Puxa, você nem me bateu?'. Saiu insatisfeita. Outra vez, fui ao cinema, baita fila, o gerente me viu: 'Você não precisa ficar na fila'. Eu pensava: 'Será que estou ficando louco? Vou dar mais tiro por aí'."

E riu.

Doca Street, em sua versão pós-prisão, podia ser tudo, menos um caçador em extinção.

Aceitou a fama de homem que mata por amar demais quando a expressão ainda era argumento jurídico. E disse que nada disso existia quando já não era bonito, nem rendia redução da pena, colocar amor e dor na mesma frase.

Com o livro, falou de si e de seu arrependimento.

Parecia ter entendido que o mundo mudava e precisava se repaginar, prestar contas aos filhos e netos. A lição de moral, se havia, era que dinheiro compra tudo, até o novo personagem. A certa altura, dizia querer lutar pelos direitos das mulheres, para que crimes como o que cometeu não voltassem a se repetir. Na mesma entrevista, se contradisse ao falar que o dinheiro do livro iria, na verdade, para crianças pobres.

Na pesquisa para o podcast, as produtoras encontraram uma revista chamada "Setenta" que, em setembro de 1970, retratou Doca Street com cardigã e gravata, sorrindo com cigarro na mão. "Há os elegantes, aqueles que cuidam das roupas e dos acessórios nos mínimos detalhes. E há os que são elegantes naturalmente, até com certa displicência. Raul Fernando Doca Street está neste último caso", dizia a publicação.

Haja lupa para encontrar tanta elegância em um sujeito que, convenhamos, era apenas... branco e rico.

Doca — diminutivo de "Fernandoca", seu apelido de infância — era usuário assíduo do Facebook. Lá, postava fotos de automóveis de luxo, mulheres nuas (muitas) e piadas de tiozão, como uma charge em que o patrão com cara de tarado pede para uma funcionária de saia procurar no alto de uma estante "documentos muito importantes".

Ele se mostrava ainda fã de filmes de faroeste, de Sergio Moro e do filósofo Luiz Felipe Pondé, de quem compartilhava alguns vídeos. Também parecia ter alguma obsessão por fotos de tigres, recorrentes em seu perfil.

Tinha cerca de 500 amigos, de quem costumava receber mensagens carinhosas. Entre seus contatos estava a corretora de imóveis Marilena Pires Ferreira Street, sua terceira esposa, com quem aparecia nas fotos até o fim da vida. Marilena era a amiga dos tempos de adolescência.

Ele também trabalhava ocasionalmente vendendo carros. Em suas últimas entrevistas, dizia ter um apartamento, dois automóveis e uma aposentadoria por idade pelo INSS. Gostava de ir à praia aos finais de semana.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL