PUBLICIDADE
Topo

Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Relatos da pandemia: encarei meu medo e atendi a oferta do plano funerário

Funeral - Getty Images
Funeral Imagem: Getty Images
Conteúdo exclusivo para assinantes
Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

10/07/2021 04h00

A pandemia do coronavírus atualizou minhas configurações de pesadelo.

Antes de março de 2020, não imaginava que se tornaria real um velho medo de acordar com um telefonema, tarde da noite, com uma oferta de plano funerário. "Tarde da noite", aqui em casa, tem um conceito amplo. Começa às 20h e vai até as 5h, quando acordo de sonhos intranquilos e qualquer chamada soa como emergência.

Faz alguns meses que uma das certezas dessa vida é que, não se sabe o dia ou a hora, o telefone com a oferta tocará. Às vezes mais de uma vez. No mesmo dia.

Não tenho nada contra planos funerários. Tenho até amigos que fizeram. Também não ignoro que uma vida bem vivida é uma vida sem surpresas. E que, por prudência, seria de bom tom facilitar o trabalho de amigos e parentes quando minha hora chegar. Meu problema é ser desperto, já noite adentro, com uma proposta do tipo e perder o embalo do sono pensando na dita — basicamente, o que faço entre as 5h e as 20h.

Perdi as contas de quantas vezes desliguei o telefone no ato tão logo a gravação de uma certa Viva Mais Plan me localizava pedindo atenção para as vantagens de morrer sem enrosco. Tudo piorou quando, por ossos do ofício, escrevi sobre essas estratégias de televendas e ouvi do presidente da Associação Nacional de Agentes Funerários que, em vez de caixão, posso estar contratando um golpe telefônico.

Não sei se é o caso da empresa que tem me ligado dia sim, outro também. É até provável que não seja. Na dúvida, algumas semanas atrás, resolvi enfrentar o medo de frente.

Primeiro, acessando o site da companhia, onde uma placa de boas vindas me recebeu com um imperativo categórico: "Planeje o amanhã". Se ideia era tratar o caminho natural da vida sem sustos, a imagem de um tal Marcão do Povo sorrindo aquele riso franco e puro para um filme de terror, como atestaria Raul Seixas, me fez fechar o laptop e fugir por alguns dias daquela ideia.

Até que o telefone tocou.

Por sorte, eram 9h e o dia ensolarado de começo de outono parecia afastar as nuvens da morbidez. Tinha acabado de colocar meu filho na aula online e não queria transparecer nas frestas da minha testa enrugada qualquer sinal de pânico.

Como quem não teme a morte, digitei com firmeza o número que me tirava da mediação digital e me colocaria em contato com um vendedor em viva voz —certamente um ceifador de olheiras profundas fazendo bico num call center, segurando o telefone com as mãos peludas e a voz cavernosa. Foi quando descobri que meu maior medo era uma jovem de 19 anos, timbre adolescente, e planos imperdíveis para minha vida dali em diante. Com um texto decorado, ela invertia o ditado segundo o qual para tudo dá-se um jeito, menos para a morte.

No caso dela, havia solução do meu óbito até meu sepultamento. Toda documentação que precisava ser resolvida em cartório estaria encaminhada. Se preferisse cremação, ok. Se não, e se o acaso não me protegesse enquanto andasse por aí distraído, eu poderia cair sem burocracia em uma urna de alta resistência ornamentada com coroa de flores, pétalas e véu bordado.

Só precisava ficar atento para não morrer a mais de 100 km da locação do velório, cujo aluguel eles mesmos providenciariam. Era a distância prevista em contrato para o translado. Quando ela perguntou se minha família tinha terreno, pensei na hora em responder que nosso sobrenome era aluguel.

Ela riu, simpática. Disse que se referia àquela outra parte, um pouco mais profunda, que nos cabe neste latifúndio material. Nunca tinha pensado nisso, confessei, mas não precisava me preocupar, ela jurou. Numa urgência, ela me descolaria uma gaveta ou carneira com tudo pago durante três meses.

Já fazia as contas de qual serviço de streaming ia cancelar para fechar o negócio quando lembrei que, semanas antes, tinha falhado miseravelmente na missão de entrevistar pessoas que, na pandemia, passaram a vender por telefone serviços do tipo, levando choro e ranger de dentes aos possíveis clientes mal precavidos. Não ia ser dessa vez que ia garantir minha urna, mas a crônica enfim ganhava corpo — ou voz.

O jogo virou quando a conversa sobre o plano funerário se transformou em entrevista. Nela, a Larissa (nome fictício) contou que, antes da pandemia, era recepcionista em uma clínica de estética. O novo normal inviabilizou o trabalho no salão, mas abriu portas para um call center no interior de Minas Gerais, onde há três meses ela vende planos funerários ao lado de outras 15 pessoas. A sede da empresa fica a quilômetros dali, no Tatuapé, zona leste de São Paulo.

Quando telefona para os potenciais clientes, Larissa ouve alguns xingamentos, sim. Quais, não contou. Ela prefere lembrar dos que, gentil e educadamente, pedem para serem retirados da lista dos disparos para poder morrer sem paz.

Quem demonstra disposição para ouvir a mensagem ensaiada até o fim e falar com um dos atendentes em carne e osso encontra alguém orientado, do outro lado da linha, para tratar com naturalidade "uma necessidade que todo mundo tem". "Muita gente não gosta de ouvir, mas a gente tenta mostrar que, gostando ou não, a morte é uma coisa que vai acontecer. Todo mundo vai passar por isso."

Larissa disfarça, mas admite que a pandemia virou um filão para o tipo de negócio. "Tem muita gente preocupada, né? Muita gente liga pra cá." Em busca de caixão?, perguntei.

Na verdade, contou a atendente, as pessoas estavam atraídas mesmo por uma espécie de venda casada. Pela oferta, você compra o direito de morrer sem burocracia e ganha um cartão com desconto para aquisição de medicamentos e atendimento médico. A ideia é convencer o potencial cliente de que ele não está contratando a morte, mas uma vida mais longa — na melhor das hipóteses, claro.

Larissa ainda não tem plano funerário. Mas jura que pretende fazer isso em breve, no nome da mãe. Quando viu que estava perdendo o cliente, ela voltou a ler o roteiro e me indicou um número para direcionar as perguntas mais específicas para os responsáveis. Foi o que fiz em duas ocasiões, nas quais um atendente pediu para que eu entrasse em contato por e-mail.

Uma pena não terem retornado.

Queria muito saber como uma empresa que até outro dia vendia Ômega 3 (foi o que a Larissa me disse) conseguiu fechar convênio com a funerária mais próxima dos 5.570 municípios brasileiros. Um feito logístico para general de guerra algum botar defeito.

Também queria ouvir a companhia sobre as mais de 500 reclamações recebidas nos últimos seis meses no site Reclame Aqui — a maioria por abordagem invasiva.

Ainda aguardo o retorno. Espero que no horário comercial.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL