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Com Argentina fechada, 'tráfico' de vinho dispara na fronteira com o Brasil

Rodrigo Bertolotto

Do TAB, em Dionísio Cerqueira (SC)

07/07/2021 04h01

É um "tráfico" diferenciado: no lugar de tijolos de maconha e cocaína das apreensões perto do Paraguai ou da Bolívia, garrafas de vinho das melhores safras e terroirs famosos. Aproveitando o trecho de fronteira seca no sudoeste do Paraná, contrabandistas trazem por trilhas na mata o refinado entorpecente argentino, liberado por lei, mas sem o devido imposto de importação.

A Argentina está com suas fronteiras fechadas desde 16 de março de 2020. E isso modificou totalmente a vida e a economia das cidades da divisa. Famílias foram divididas, comércios que dependiam do turismo de compras ficaram às moscas e simples balconistas viraram contrabandistas para conseguir sobreviver em meio à crise gerada pela pandemia.

"Meu nome é Juliano, mas o pessoal me chama de Gringo. Se precisar que eu traga algo de lá, me avisa", assim, sem dar sobrenome para não atrapalhar sua atividade, ele se apresenta aos turistas que chegam à fronteira e dão de cara com a faixa dizendo "não ultrapasse" e dezenas de gendarmes argentinos de sentinela para evitar que o tradicional trânsito de pessoas ajude na disseminação da covid-19 por ali.

Barba ruiva atrás da máscara e gel no cabelo, Juliano estaciona sua moto em uma viela, fica de tocaia vendo a troca de guarda e, quando pode, muda de calçada e de país com a mochila cheia. Em geral, traz vinho (pela metade do preço do praticado no Brasil), mas também aceita encomenda de doce de leite, alfajores, perfumes e outros itens.

Com o fechamento fronteiriço, ele foi dispensado da loja em que trabalhava do lado argentino e decidiu se arriscar contrabandeando para o território brasileiro. Filho de mãe brasileira e pai argentino, ele tem tios, avôs e primos dos dois lados, uma realidade comum aos moradores da região.

"O problema é na volta. Se me pegam, tenho que pagar uma multa pesada. A situação está muito ruim lá, e essa punição quebra as pernas da gente." Os argentinos pegos pela Gerdamería pagam 10 mil pesos de multa (R$ 500), o equivalente ao que os desempregados receberam de auxílio emergencial pelo governo de Alberto Fernández. Se é brasileiro, fica detido 14 dias de quarentena por entrada ilegal no país.

Juliano é um varejista dessa contravenção — o grosso da muamba etílica vem de "piques" e "carreiros", como são chamados por lá os caminhos no meio da vegetação, no trecho de fronteira sem rio entre as cidades paranaenses de Barracão e Santo Antônio do Sudoeste. Das trilhas vão para carros e ganham as rodovias até os grandes centros.

Rotina binacional

Dionísio Cerqueira, Barracão e Bernardo de Irigoyen são como três bairros de uma única cidade de 30 mil habitantes, mas estão em três unidades federativas diferentes — respectivamente Santa Catarina, Paraná e Misiones (província da Argentina). É a única área urbana no trecho de 25 quilômetros de fronteira seca entre os dois maiores países da América do Sul — a extensão total do limite é de 1.261 quilômetros.

O Brasil tem outras cidades binacionais, mas nenhuma outra fronteira foi fechada por tanto tempo e de forma tão rigorosa durante a pandemia. O Uruguai adotou a política de "liberdade responsável", não bloqueou a alfândega e fechou apenas por períodos os free shops, como o que existe em Rivera, ao lado da gaúcha Santana do Livramento, separadas apenas por uma ilha central de uma avenida.

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Agentes da gendarmería argentina fazem sentinela para evitar trânsito de pessoas na fronteira seca com o Brasil
Imagem: Caio Guatelli/UOL

Já o Paraguai foi severo em 2020, mas relaxou as restrições neste ano na metrópole de 200 mil habitantes formada por Pedro Juan Caballero e a sul-mato-grossense Ponta Porã. Uma força-tarefa conjunta controlava com cavaletes e bloqueios a circulação de comerciantes e compradores a pé ou de carro. Nos últimos meses, porém, o sistema foi desmontado.

Essa desatenção nas fronteiras foi um dos fatores que fez a segunda onda da covid-19 atingir com mais força a região, com a variante Gamma (antiga P.1), primeiramente detectada em Manaus, virando predominante nos contágios em vários países. A América Latina foi a região mais atingida pela pandemia em 2021.

A aventura de ir às compras

"Desse bicho da covid não tenho medo. Tenho que me preocupar mais com aqueles milicos", diz Marcelo Juan, apontando para dois fardados de verde-oliva com a metralhadora cruzada no peito diante de uma casa em construção.

Postado em uma esquina, ele e a família esperam uma brecha para atravessar com uma sacola com mantimentos e outra com um pneu para a bicicleta do menino. "Está em falta lá em Irigoyen, e meu filho quer brincar. Tive que atravessar." O que era corriqueiro antes da pandemia agora virou uma aventura.

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Casal de moradores atravessam a fronteira com compras do lado brasileiro para a Argentina
Imagem: Caio Guatelli/UOL

O aposentado brasileiro Adilson de Jesus, 76, cruzou para seu país natal atrás de remédios e pacotes de bala. "Eu não bebo, não fumo, meu vício é doce. Se é pouca coisa, as autoridades não ligam", argumenta, antes de caminhar para a Argentina, onde trabalhou a vida toda, mora e recebe sua aposentadoria.

Um dos guardas viu que ele estava conversando com a reportagem do TAB e correu para abordá-lo. À distância, dá para ver Adilson abrindo a bolsa plástica e se explicando. Em um minuto, o gendarme volta para seu posto e o aposentado segue seu caminho para casa.

Era comum os argentinos irem ao dentista ou ao mecânico do lado brasileiro. Enquanto no sentido contrário, os compradores procuravam gás de cozinha, gasolina, farinha e óleo vegetal. Com a crise atual, os vizinhos ultrapassam a divisa para fugir da inflação (21% só no primeiro semestre) e do desabastecimento.

O vinho e a selva

Durante a pandemia, o consumo de vinho aumentou 18% no Brasil, o maior crescimento do mundo segundo a OIV (Organização Internacional do Vinho). Cresceram muito mais as apreensões de vinho contrabandeado: mais 300% em 2021, segundo a Receita Federal.

Se a circulação de pessoas foi freada, a de mercadorias continuou na pandemia, o que dá para ver pelo pátio de caminhões da aduana de cargas de Dionísio Cerqueira. Os motoristas são testados e, se der positivo, passam por isolamento de duas semanas em Bernardo de Irigoyen.

Os governos de Brasil e Argentina tiveram posturas diametralmente opostas durante a pandemia. O presidente Alberto Fernández determinou forte quarentena, prevendo no início até detenção a quem circulasse sem justificativa e permissão, enquanto do lado brasileiro o governo brasileiro foi até à Justiça contra o lockdown.

Essa diferença até motivou a polêmica frase de Fernández, falando que "os brasileiros vieram da selva, mas nós, os argentinos, chegamos em barcos que vinham da Europa". Mas naquele trecho de fronteira é justamente o contrário: a Argentina tem as maiores reservas de floresta de seu território na província de Misiones, enquanto do lado brasileiro a colonização, principalmente de descendentes de alemães e italianos, devastou grande parte do ecossistema para criação de porcos, galinhas e vacas e plantações de milho e soja.

A pista do crime

A pista foi projetada sobre a linha de fronteira para os moradores fazerem ciclismo ou atletismo. Mas atualmente eles estão correndo dos policiais argentinos. Só o universitário brasileiro Christian Santos treina para uma corrida de 10 quilômetros. Ele tem saudade das baladas da boate La Gata, em Irigoyen, e Line Up, em Dionísio Cerqueira. "Existe uma rivalidade, mas raramente sai porrada durante as noitadas", lembra.

Quem estava para briga eram os contrabandistas, que não gostaram nada de um fotógrafo registrando suas rotas para uma reportagem. "Não quero ver vocês quando voltar", gritou um deles, com o dedo em riste. Outro passou de bicicleta xingando: "Saiam daqui. Vão tomar no c..."

A dois passos do Brasil está o ponto final do ônibus que traz do centro de Bernardo de Irigoyen os estudantes da escola provincial nº 765, que tem na fachada a seguinte inscrição: "la escuela más oriental del país" — ali é o extremo leste da Argentina.

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O escritor alemão Klaus Keilhauer visita a fronteira Brasil-Argentina na cidade de Dionísio Cerqueira (Santa Catarina)
Imagem: Caio Guatelli/UOL

A quatro quarteirões dali está o Parque Turístico, onde até 2019 dava para ir para o exterior até de pedalinho em forma de cisne branco (uma das atrações no lago). Além do narguilé e do som alto, agora por lá é proibido também pisar na parte do gramado que pertence à Argentina.

Por lá, um improvável andarilho se surpreende. "É um muro invisível, mas dá para sentir sua força. Queria ver com meus olhos", sentencia Klaus Keilhauer, escritor que mora em Berlim (Alemanha) e está há seis semanas no Brasil. Ele está escrevendo um livro sobre fronteiras e muros, como o que foi erguido na cidade em que vive. "É tão estúpida como qualquer divisão do mundo", diz, olhando os policiais de fronteira se movimentando diante de uma loja chamada Perfumelandia.