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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como o WhatsApp explica a ascensão e a possível queda da estupidez no poder

O presidente Jair Bolsonaro coloca máscara durante evento no Planalto - Ueslei Marcelino/Reuters
O presidente Jair Bolsonaro coloca máscara durante evento no Planalto Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

17/07/2021 04h00

Não faz muito tempo, numa terra não muito distante, existia uma candidata a presidente nos EUA enrolada em uma pequena grande encrenca que se tornaria determinante para sua derrota nas eleições de 2016. Isso porque, em seus tempos de secretária de Estado, Hillary Clinton usou (pasmem!) um servidor particular para trocar e-mails, em um mesmo endereço, com amigos e subordinados do governo.

Fratura exposta da confusão entre público e privado, o episódio virou um escândalo (como assim uma secretária de Estado não usa a conta oficial do governo? O que tinha a esconder e/ou compartilhar?) explorado à exaustão pelo seu adversário, Donald Trump.

O resto é história, e ela termina com um bando de lunáticos invadindo o Capitólio a mando de um presidente birrento, batendo o pé para reconhecer o revés na eleição de 2020. Não fosse a cúpula militar daquele país, uma hora dessas o sujeito descongelado no tempo e vestido de viking já seria seria pré-candidato à sucessão como gratidão aos serviços prestados.

No futuro em copia-e-cola do que nos espera, historiadores terão dificuldade para explicar em que vórtice nos enfiamos para fazer, em tão pouco tempo, aquele episódio dos e-mails privados parecer uma unha encravada diante do corpo putrefato exposto a alguns quilômetros dali.

Parte das respostas passa pela ascensão do WhatsApp e seus congêneres, como o Telegram —por onde procuradores e juízes brasileiros combinavam estratégias, como numa prancheta de futebol de várzea, para mudar os rumos do país.

Desde que a humanidade passou a andar pelas ruas com o nariz colado na tela de um celular, ficou praticamente impossível manter dois minutos de diálogo sem que alguém dissesse "mas eu vi aqui no WhatsApp que...". A probabilidade dessa frase terminar bem é nula. Pode estar chovendo canivete em tempo real que o interlocutor terá sempre a opção de sacar a arma do bolso para provar que viu no WhatsApp que faz sol, essa é a opinião dele e fim.

Sentenças já consolidadas (por exemplo: "a terra é redonda" ou "água hidrata") nunca mais pararam de pé desde então. A nosso lado sempre tem um contato informado por fontes secretas provando que a combinação de dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio é uma dose engarrafada da bomba H capaz de abalar as bordas da terra plana. Pior: eles têm provas, "mas a Globo não quer que você saiba disso". A confusão eletrônica ajudou a transformar, com um pouco de montagem e ousadia, qualquer quadrúpede em mito.

Na virada da última década, já estava claro que o tio e a tia do WhatsApp haviam se convertido na maior força política da contemporaneidade. Quem subestimou essa força está até agora tentando provar que não estava na reunião entre Stálin e Mao Tsé-Tung que decidiu criar em laboratório o vírus da covid-19, como atesta a montagem em PaintBrush made in gabinete do ódio.

A ativação dessa força política resultou, ao menos por aqui, no maior programa de empoderamento de gente estúpida do qual se tem notícia.

Quando percebemos, graças às lorotas contadas na caixa de mensagens de vizinhos, amigos e parentes, a educação do país estava sob o comando de um ministro que não sabia usar crase ou concordância, confundia Kafka com kafta e escrevia "paralização" com z. O Meio Ambiente estava a cargo de um devoto da lenda do boi bombeiro. A Pesca, de um secretário que dizia em público que o peixe era inteligente e sabia driblar óleo em alto mar. A Economia virou laboratório de todo tipo de demofobia que já era cringe antes do Orkut. E a Cultura passou a ser chefiada por um ex-ator da Malhação que não sabe escrever o nome do técnico da seleção (um nome de QUATRO letras).

Isso sem contar os assessores de projeções matemáticas que juravam, até pouco tempo, que o coronavírus mataria no máximo quatro mil compatriotas em um ano e que a melhor vacina contra covid-19 era o vírus. O chefe da turma que vive e se alimenta de teorias da conspiração é um presidente que oferece cloroquina para ema e, sem teleprompter, não consegue ligar duas frases de lé com cré.

Diferentemente dos técnicos e profissionais da área, nenhum dos atores empoderados pelo WhastApp subestimou suas capacidades e poderes. Aqui reside o segredo do sucesso e a receita da tragédia.

No Brasil, nenhum cidadão é obrigado a produzir provas contra si. A não ser aqueles que emporcalham a testa quando tentam tomar sorvete.

Quem tem acompanhado as sessões da CPI da Pandemia já notou para onde levam as pistas da tragédia em versão áudio ou mensagem fora de hora. A mais recente delas é contada por uma empresa que, até ontem, vendia material de construção — e que conseguiu bolar um plano para ser recebida e oferecer 400 milhões de vacinas para o governo de um dos países mais devastados pela pandemia.

À sombra das agendas oficiais, os acertos e propostas estranhas eram discutidas e registradas pelo... WhastApp.

Coisa de gênio. As trocas de mensagens colocam no balaio um reverendo e um PM de folga que vendiam imunizantes como quem vende miçanga no shopping. Agora, as provas reunidas em prints e áudios trocados longe dos processos formais são hoje a dor de cabeça que afeta até o funcionamento regular dos intestinos mais grossos de Brasília.

Eis a ironia da história: o app que empoderou tanta gente estúpida está prestes agora de destronar os seus dublês de espertalhões.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL