menu

Topo

Sociedade


Afrofuturismo encara novo desafio em tempos reacionários

Reprodução
Cena do filme "Pantera Negra" mostra guerreiras de Wakanda, país fictício africano onde acontece a ação Imagem: Reprodução

Bianca Borges

Do TAB, em São Paulo (SP)

2018-12-21T04:00:00

21/12/2018 04h00

O Pantera Negra, personagem que deu projeção ao afrofuturismo perante as novas gerações, enfrenta inimigos como vampiros, mercenários armamentistas, xamãs malignos, irmãos ambiciosos, mulheres vingativas e até o Homem-Gorila. Já o movimento estético e político que mistura ancestralidade africana e tecnologia está encarando um novo rival nesses tempos reacionários: governos conservadores que não querem saber de protagonismo de outros grupos étnicos.

No caso brasileiro, a guinada se deu com a eleição para presidente de Jair Bolsonaro (PSL). Ele já foi processado por racismo (descreveu os quilombolas com termos usados para animais de criação, como "o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas" e "acho que nem para procriadores servem mais"), qualificou os movimentos por direitos civis como seguidores do "coitadismo" e prometeu "botar ponto final em todos os ativismos".

Para Lu Ain-Zaila, ficcionista e pesquisadora de afrofuturismo, a iminência de um acirramento do racismo em nossa sociedade traz uma única vantagem: as pessoas que habitualmente se omitem finalmente entenderem a necessidade de participar. "O racismo não deixou de acontecer, nos últimos dois, três, 15 anos. O que vai mudar agora é que as pessoas que adotaram essa visão política e social vão querer falar mais alto. E a gente vai falar ainda mais alto o quanto discordamos e vamos resistir. Os que estão em cima do muro, sem perceber o que está acontecendo, terão que acordar", afirma.

Divulgação
Lu Ain-Zaila, ficcionista e pesquisadora de afrofuturismo nascida na Baixada Fluminense Imagem: Divulgação
Em um nicho ainda dominado por homens brancos, Lu escreve novos capítulos na literatura brasileira. Autora de "Duologia Brasil 2408 [(In) Verdades e (R)Evolução]", a escritora da Baixada Fluminense diz enxergar no movimento uma forma de construir histórias com personagens majoritariamente negros e, em especial, mulheres, com autonomia e poder. "São mulheres com presença, que pensam, agem, têm emoções... Não são um objeto no cantinho da sala, parado, esperando para ser salvo. Não! Elas é que salvam. Afrofuturismo é quando escrevo uma ficção científica em que coloco uma astronauta negra, que saiu da periferia e que vai até a última fronteira, conter um ataque alienígena. Quantas perspectivas como essa você já viu?", questiona.

Pedagoga de formação, Lu é também autora de artigos sobre ficção especulativa e imaginário sociorracial brasileiro. Em seu trabalho, busca desenvolver o afrofuturismo em uma perspectiva local, e não apenas as norte-americanas [onde o movimento surgiu]. "Quando escrevo um conto de fantasia que mistura maracatu e coloco como personagens principais pessoas negras, vivendo em outro planeta, em que elas fazem magia, falam em Iorubá... Isso é uma mudança incrível! Personagens falando uma língua de um país africano e não usando palavras nórdicas, que é o que a gente naturaliza, quando falamos em fantasia", afirma.

Contra a opressão

O Brasil é o país fora do continente africano com a maior população mundial de negros (52% autodeclarados). O número de brasileiros negros só é menor que o de negros naturais da Nigéria.

UOL
Eugenio Lima, pesquisador de afrofuturismo, vê a luta contra o racismo como objetivo para os tempos atuais Imagem: UOL

Para Eugenio Lima, pesquisador da cultura africana da diáspora, o cenário requer um trabalho digno de super-herói para evitar uma escalada de violência. "Acho que teremos momentos de tensão, em que precisaremos lutar para garantir os princípios constitucionais. Se o racismo é crime, a luta antirracista é uma obrigação constitucional. Essa articulação precisa também demonstrar que o Brasil é signatário de vários acordos internacionais que propõem o combate ao racismo como um fundamento da sociedade", afirma.

Já Fábio Kabral, autor do romance "O Caçador Cibernético da Rua 13" e de diversos ensaios sobre afrofuturismo, se revela um pouco menos preocupado com o futuro governo. Para ele, o pior que poderia ter acontecido à população negra já foi feito e seus desdobramentos repercutem todos os dias. "O que veremos daqui a quatro anos? Se prevejo um cenário apocalíptico? Para mim, como negro, o grande apocalipse já aconteceu, e foi com a escravidão. O que acontecerá agora é que teremos as mesmas coisas, e talvez elas endureçam mais. Mas não entro nessa de "o mundo vai acabar". Por que o mundo já acabou, há muito tempo", afirma.

Kabral defende que o cotidiano para os negros no Brasil, em especial no seu estado natal, o Rio, já é um cenário violento e hostil, e que isso foi naturalizado pela maioria. "Muitos têm falado sobre o novo governador do Rio de Janeiro [Wilson Witzel], que ele pode ser uma ameaça e que sua polícia vai matar muita gente. Matar quem? Igual como outro dia, quando fizeram com um negro, porque confundiram seu guarda-chuva com um fuzil? O genocídio da população negra já ocorre e vai continuar acontecendo", protesta.

O escritor não se diz surpreso com o comportamento do presidente eleito. "O Bolsonaro, para mim, não é novidade. Ele nega a escravidão da mesma forma que muitas pessoas negam, afirmando que o português nunca pisou na África... As pessoas apenas acreditam nisso e acabou. Embora ninguém saiba explicar o porquê em Moçambique e Angola se fale português", afirma.

O futuro negro

Quantos personagens com superpoderes e que viraram ícones da ficção científica você conhece que têm rosto africano? Provavelmente, dá para contar nos dedos, mas essa lista cresceu consideravelmente após o fenômeno do filme "Pantera Negra", baseado na história em quadrinhos dos anos 1960 que acontece na fictícia Wakanda, nação africana que nunca foi colonizada nem escravizada e desenvolveu uma sociedade ancestral altamente tecnológica. Um dos pioneiros do movimento é o músico, poeta e filósofo norte-americano Sun Ra, que ficou conhecido nos anos 1960 por sua experimentação musical e "filosofia cósmica".

Reprodução
Sun Ra, multiartista que foi um dos pioneiros do movimento afrofuturismo na década de 1960 Imagem: Reprodução

Na literatura, o afrofuturismo tem rosto de mulher. Uma das pioneiras no ramo, considerada a "primeira-dama da ficção científica", foi a norte americana Octavia E. Butler (1947-2006), que discutia temas raciais e de gênero em suas obras, antes mesmo da invenção do termo afrofuturismo. Mas o movimento se consolidou só nos anos 1990, por meio do ensaio "Black to the Future: Ficção Científica e Cibercultura do Século XX a Serviço de uma Apropriação Imaginária da Experiência e da Identidade Negra", do teórico norte-americano Mark Dery.

Lima, que é também DJ e diretor teatral, destaca a capacidade do movimento de imaginar futuros com forte presença negra. "Durante muito tempo, o negro foi visto como algo atrasado, como se os frutos da diáspora africana fossem uma espécie de anti-avatar da tecnologia. O afrofuturismo tenta elaborar realidades fantásticas e proposições filosóficas onde não existe contradição entre o negro e a tecnologia. No meu trabalho, ele impacta na reivindicação de eu ter o meu futuro em minhas mãos. Reconstruir do ponto de vista da narrativa e da presença, uma outra história possível, que não seja a história do passado colonial", descreve.

Para ele, o afrofuturismo se opõe à aniquilação da memória, à negação do conhecimento e das contribuições de um grupo dominado, conforme aponta o pensamento do cientista social Boaventura de Sousa Santos, que insere esse processo em uma lógica de dominação étnica e racial. Kabral é outro que busca na ancestralidade uma conexão com o futuro. "Uma das bases é o protagonismo da cosmovisão africana. O meu contato se dá por meio do mundo yorubá, da perspectiva afrobrasileira do candomblé. Quando me perguntam a diferença entre o afrofuturismo brasileiro e o norte-americano, parto da minha experiência com a criação literária, porque entendo o afrofuturismo a partir do que eu crio. Na minha literatura, apresento o imaginário yorubá a partir do que vivencio no candomblé", explica.

Mais Sociedade