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Rússia testa "cortina de ferro" da internet, e isso pode ter efeito mundial

Russos fazem protesto em Moscou por mais liberdade na Internet e contra as medidas do governo nacional  - Alexander Nemenov/AFP
Russos fazem protesto em Moscou por mais liberdade na Internet e contra as medidas do governo nacional Imagem: Alexander Nemenov/AFP

Luiza Pollo

Agência Eder Content, em São Paulo

29/03/2019 04h04

A Rússia discute se desconectar da internet mundial. Segundo a BBC e a própria mídia local, o país pretende fazer testes para descobrir se consegue manter seus cidadãos online, dependendo totalmente de servidores internos e sem comunicação via web com o resto do planeta. Seria uma espécie de soberania da Runet, a internet russa.

Na prática, durante os momentos em que a conexão for cortada com sucesso, dentro da Rússia só será possível acessar informações que estejam hospedadas no país, sob o domínio .ru. Pode até ser que sites de fora fiquem acessíveis se dentro do território russo houver CDNs (content delivery networks, servidores geograficamente distribuídos que replicam conteúdo externo). Mesmo assim, os sites estariam desatualizados.

Isso nunca foi feito - pelo menos não com a mesma magnitude - e faz parte de um projeto maior: a criação de um mecanismo para ligar e desligar a conexão com o resto do mundo na hora em que o governo bem entender.

O objetivo oficial seria proteger o país de ciberataques e tentativas de derrubada da internet russa, principalmente vindas dos Estados Unidos. Mas um "interruptor" como esse poderia ter consequências graves ao aumentar o controle de informações por parte do governo local. O Open Observatory of Network Interference (Ooni), que monitora censura na internet desde 2012, aponta a Rússia como um dos 12 países em que há casos confirmados de censura na web, como bloqueio de sites.

Só que o prejuízo não ficaria restrito às fronteiras russas. "Quanto mais [a rede] é concentrada, mais é possível que os mecanismos de controle sejam eficientes e há mais possibilidade de censura. Como ela é interconectada, para nós brasileiros isso também deveria ser motivo de indignação", afirma Marco Konopacki, coordenador de projetos na linha de Democracia e Tecnologia do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio).

O escudo de armas da Rússia reflete no teclado de laptop, mostrando a influência estatal sobre a internet local - Maxim Shemetov/Reuters
O escudo de armas da Rússia reflete no teclado de laptop, mostrando a influência estatal sobre a internet local
Imagem: Maxim Shemetov/Reuters

Os obstáculos para colocar o plano em prática são grandes, mas a ideia já está no papel. O projeto de lei 608767-7, apelidado de Internet Soberana, foi apresentado no fim de 2018 com o objetivo de "garantir a operação segura e sustentável da internet no território da Federação Russa". Por enquanto, o projeto está tramitando na Duma, que corresponde à nossa Câmara dos Deputados. Ainda há mais duas etapas de aprovação na Casa, para depois ser encaminhado ao Conselho da Federação (correspondente ao nosso Senado) e só então passar pelo presidente. Palavra final na tramitação, Vladimir Putin é a favor da soberania.

Vicente Ferraro Jr., membro do Laboratório de Estudos da Ásia (LEA-USP) e mestre em Ciência Política pela Higher School of Economics (HSE) de Moscou, diz que a proposta reflete a política externa do país. "Esse projeto se insere dentro da lógica de que a Rússia está passando por um conflito geopolítico com o Ocidente", afirma, algo que ganhou maior contorno a partir de 2007.

"Durante os anos 1990, a Rússia fez diversas concessões ao Ocidente e não teve correspondência", lembra o cientista político, citando a atuação dos Estados Unidos na Ucrânia e na Geórgia, apoiando líderes com política externa anti-Rússia, os conflitos do país com a OTAN e a questão da Crimeia. Como vem sofrendo diversas sanções desde a recuperação do território, explica o pesquisador, a Rússia teme que as retaliações cheguem também à internet.

Outra questão em jogo é a própria política interna russa. Ferraro explica que o projeto é coerente com o endurecimento do regime e o fechamento do país. "Seria uma continuação das leis Yarovaya, um pacote que reforçou o controle de informação na internet e redes sociais pelos órgãos de segurança, principalmente a FSB, o Serviço Federal de Segurança que sucedeu a KGB."

Defensores do projeto alegam que a medida protegeria a Rússia de ataques cibernéticos vindos de outros países. E isso não é mentira, diz Konopacki, do ITS Rio. "A internet não é só fonte de informação de usuários domésticos", diz ele. "Com a evolução da internet das coisas (a IoT) e equipamentos mais conectados, o que está por trás disso é a capacidade de controle da rede a tal ponto que nenhuma ameaça externa possa colocar em risco a infraestrutura do país." Hoje, explica, sistemas como o das câmeras de segurança das ruas e até mesmo de usinas nucleares ou da alimentação de energia elétrica estão suscetíveis a ataques externos.

Mas colocar o plano em prática não será tão fácil assim. Há quem diga que é até impossível. Baixar essa "cortina de ferro digital" é tecnicamente complexo - inviável, segundo muitos pesquisadores - e custa caro.

De acordo com reportagem da Bloomberg, as empresas provedoras de internet no país afirmam que os 20 bilhões de rublos russos (aproximadamente US$ 300 milhões, ou R$ 1,2 bilhão) estimados por um dos autores do projeto não são suficientes para cobrir os custos de implementação e manutenção do sistema. Erros e interrupção de fornecimento de dados advindos dos testes poderiam adicionar alguns milhões a mais nessa conta.

Se por um lado a proposta alega que o objetivo é proteger a Rússia de ataques cibernéticos vindos de outros países, nas entrelinhas outras questões se sobrepõem. De que forma a lei pode servir como um mecanismo de controle do governo russo sobre informações que interessam a cidadãos do mundo todo?

Censura no interruptor virtual

O novo projeto de lei prevê a criação de uma mecanismo que possibilite o desligamento da rede externa em momentos pontuais. Não significa que a Rússia vai separar sua internet do resto do mundo indefinidamente, mas apenas que testará sua capacidade de fazê-lo quando bem entender. Isso pode ocorrer, por exemplo, em momentos de protesto.

No dia 10 de março, mais de 10 mil pessoas foram às ruas de Moscou, segundo organizadores (eram 6 mil, segundo a polícia), para protestar contra a cortina de ferro digital. Pelo menos 16 manifestantes foram presos. O protesto, que ocorreu também em outras cidades, foi em parte organizado por meio do aplicativo de mensagens Telegram. Criado por russos, o app foi alvo de retaliações do governo, que aprovou uma lei em 2016 que exige quebra de criptografia de mensagens quando solicitada.

Só que o aplicativo não deseja e nem é tecnicamente capaz de fazer isso, afirma o cofundador Pavel Durov. O país tentou bloquear o funcionamento do Telegram por lá, mas sem sucesso. "Eles fracassaram em cumprir essa determinação, e, enquanto tentavam, vários sites russos sofrerem quedas e tiveram problemas", observa Ferraro.

Todo o conteúdo dos provedores de internet do país já está submetido a um "grande firewall", explica Konopacki. Mas a Rússia não aplica um controle tão expressivo quanto a China, por exemplo, que tem uma topologia de rede similar e usa essa possibilidade para bloquear acesso a serviços como Facebook, Google e WhatsApp.

"A lei não é sobre ameaças externas, ou sobre banir o Facebook e o Google, coisa que a Rússia já consegue fazer legalmente", disse à Bloomberg Andrei Soldatov, autor do livro The Red Web: The Kremlin's Wars on the Internet (A rede vermelha: as guerras do Kremlin na internet, em tradução livre). "É sobre ser capaz de cortar certos tipos de tráfego em certas áreas em momentos de desordem civil."

Fake News, só para exportação

Em novembro de 2018, os Estados Unidos teriam conseguido bloquear tentativas de interferência vindas da Rússia nas eleições de meio de mandato americanas. O objetivo do ataque seria causar discórdia entre os americanos durante as eleições. Fala-se em ciberguerra de informação, e há indícios de que a Rússia esteja envolvida.

"O fenômeno do Brexit e as eleições de Donald Trump e Jair Bolsonaro, por exemplo, têm um aspecto social, mas foram muito estimulados pela guerra de informações", avalia Konopacki. "A tecnologia por si só não é capaz de eleger uma pessoa, mas a desestabilização criada gerou processos sociais que confundiram e desestabilizaram processos de escolha democrática." A ideia é que, sem acesso a informações corretas ou com acesso limitado, não é possível tomar uma decisão consciente.

Proteger a rede interna seria, portanto, proteger o país dessa munição cibernética de desinformação que a Rússia parece conhecer bem, mas da qual outros países também podem se apoderar e usar para atacar. "Não pense que esse tipo de prática tem no fundo algum pensamento nobre, democrático", opina o pesquisador. "É a criação de um mecanismo de controle sobre uma mídia que está se tornando cada vez mais potente, e não sabemos direito quais são os efeitos que ela pode causar se explorada para algum objetivo político-social."

Konopacki, que foi também assessor da Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça e coordenou o debate público para regulamentação do Marco Civil da Internet no Brasil, alerta que os testes e uma possível implementação da cortina de ferro digital vão contra a ideia de se construir uma internet livre, democrática e até mesmo mais rápida e eficiente.

A rede é totalmente interconectada e, se não sofrer interferências, vai sempre buscar o caminho mais rápido para transferir informações. Com o bloqueio de um país inteiro nesse sistema, há consequências para todos. "Imagine uma estrada que te liga de um ponto a outro em dez minutos", compara o especialista. "Se ela é fechada, você vai precisar pegar um desvio de, digamos, 40 minutos. Bloquear um pedaço da rede é prejudicial para toda a internet mundial."

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