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O mundo é "muito Black Mirror", e isso tem uma explicação

Cena de episódio da série britânica "Black Mirror", que mostra um futuro tecnológico e distópico - Divulgação
Cena de episódio da série britânica "Black Mirror", que mostra um futuro tecnológico e distópico Imagem: Divulgação

Luiza Pollo

Da agência Eder Content para o TAB, no Rio

25/04/2019 04h01

Quantas vezes você já disse que alguma situação é "muito Black Mirror"? Talvez quando leu sobre o mundo pós-tela, ou quando soube que as pessoas têm enfrentado o bisturi para ficar mais parecidas com os filtros dos aplicativos.

Essas novidades meio assustadoras da tecnologia, cada vez mais rápidas e mais frequentes, realmente nos fazem pensar sobre os limites das telas nas nossas vidas. Mas Charlie Brooker e Annabel Jones, produtores executivos da série, não querem te fazer perder a esperança na humanidade. Pelo menos não muito.

Durante o evento Rio Creative Conference, o Rio2C, eles explicaram que a série é um exagero cômico do que podemos nos tornar. "Nós não estamos tentando passar uma mensagem, nós não estamos tentando fazer previsões sérias. Estamos apenas tentando levantar questionamentos", disse Annabel.

Por isso, às vezes a realidade parece ser ainda mais "Black Mirror" do que o próprio seriado britânico. "Quando as notícias são muito distópicas, você precisa equilibrar o quão distópico você quer que o entretenimento seja", afirmou Brooker. "Porque chega a um ponto em que, se você quer assistir a uma distopia deprimente, você só precisa olhar pela janela."

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Imagem: Divulgação

Brooker, que compara sua dependência das telas ao cigarro, disse que não considera Black Mirror uma série antitecnologia. "Da mesma forma que as pessoas não consideram A Maldição de Hill House antipessoas mortas." Não pegou a referência? Ele explica: "Nós usamos a tecnologia da mesma maneira que outras histórias usam o sobrenatural ou superpoderes. Nós mostramos as pessoas se autodestruindo, basicamente."

A série, diz Annabel, é um reflexo dos erros de pessoas de carne e osso, seduzidas por desejos humanos, e não da tecnologia: "Acho que muitas histórias de Black Mirror são muito pessoais, normalmente sobre as fragilidades e fraquezas humanas."

E como lidar com as nossas fraquezas para não cair no mau uso da tecnologia? Da mesma forma que lidamos com a maioria dos problemas: com ajuda da própria tecnologia, ora. Já existem apps que te ajudam a controlar o tempo que você passa no celular e até a tornar o aparelho menos interessante eliminando as cores e transformando tudo em tons de cinza. O próprio Instagram permite saber quanto tempo por dia o usuário passa no aplicativo e te deixa até configurar um alarme que avisa se você já extrapolou o número de minutos (ou horas) que quer passar conectado no dia.

Annabel Jones e Charlie Brooker, produtores da série britânica "Black Mirror", dão seminário no Rio - Cacalos Garrastazu/Eder Content
Annabel Jones e Charlie Brooker, produtores da série britânica "Black Mirror", dão seminário no Rio
Imagem: Cacalos Garrastazu/Eder Content

"Talvez a novidade será deixar as telas de lado", observa Annabel. "A tecnologia entrou na nossa vida tão rapidamente que a gente ainda está aprendendo a se relacionar com ela. Eu acho irônico que os próprios celulares estão nos avisando para deixá-los de lado. Então estou otimista que, como espécie humana, seremos espertos o suficiente para nos adaptar."

Viver mais... e pior?

Deixar o celular de lado e valorizar as conexões humanas também é a dica de Bernardo Zamijovsky, diretor executivo da VR Investimentos e curador de inovação do Rio2C.

Na palestra "O homem perpétuo num mundo volátil", ele falou sobre as evoluções tecnológicas que miram a vida eterna. Mas será que vale a pena ficar na Terra pra sempre (ou muito além dos 100 anos de idade) nas condições que estamos criando? "Eu abro mão de ser um homem infinito", disse.

Bernardo Zamijovky, curador de inovação do Rio2C, dá palestra no evento - Cacalos Garrastazu/Eder Content
Bernardo Zamijovky, curador de inovação do Rio2C, dá palestra no evento
Imagem: Cacalos Garrastazu/Eder Content

A busca pela imortalidade pode até não resultar numa população de ciborgues imortais até os anos 2030, como prevê o futurista norte-americano Ray Kurzweil, diretor de engenharia na área de pesquisa do Google. Mas que estamos vivendo mais, estamos. Tentativas de renovar as células, rejuvenescer o sangue e até transferir a consciência humana para computadores já estão em pauta, e, se não vivermos para sempre, pelo menos existiremos por mais tempo.

Mas pra quê tudo isso, se os valores e as conexões pessoais são cada vez mais escassos?

É esse o questionamento de Zamijovsky. Assim como Annabel e Brooker, ele não se considera um pessimista. "Eu estou sendo realista que temos que medir melhor os impactos." Repensar nossos objetivos e valores seria a chave para criar um futuro menos distópico.

Ele estende a análise também à nossa relação com o trabalho. O jeito "millennial" de encarar o trampo é, para o especialista, prejudicial. Sabe aquela história de ter um "propósito", trabalhar que nem louco e vestir a camisa da empresa? Então, isso pode até trazer alguma satisfação pessoal (e transformar as startups em unicórnios), mas não vai ajudar em nada a sociedade, avisa Zamijovsky.

"Por alguma razão os jovens estão buscando esse propósito nas empresas, mas não estão buscando neles como indivíduos", analisa. "Um jovem que não tem ambição, um jovem que não quer ter uma família, um jovem que não quer ter um objetivo de conquista, esse cara não tem um propósito nem um valor pessoal. Eu acho que isso é uma grande armadilha e está nos levando a essas relações instantâneas."

A solução começa na família, afirma. Desliga o celular para almoçar, isso vai mudar a sociedade. Isso faz toda a diferença." Nem que, para isso, você precise colocar um despertador no próprio celular para lembrar de deixá-lo de lado.

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