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Futuro sem contagem de likes será bom para todos (até para os influencers)

Lugares classificados como "instagramáveis" são os ideias para conseguir milhares de likes - Divulgação
Lugares classificados como "instagramáveis" são os ideias para conseguir milhares de likes Imagem: Divulgação

Luiza Pollo

Da agência Eder Content, em colaboração para o TAB, de São Paulo

28/06/2019 04h01

Você posta uma foto no Instagram. Em alguns segundos, pula um coraçãozinho na barra inferior da tela. Ufa, uma curtida. Depois disso, de tempos em tempos você volta ao aplicativo para conferir se o número está subindo. Rolando no app, você passa por dezenas de fotos, boa parte delas com centenas ou milhares de likes. Talvez, sem nem perceber, esteja internalizando tudo isso como normal. Ou vai dizer que você nunca nem ao menos pensou em apagar uma foto se ela não teve curtidas suficientes para os seus padrões?

Sentir-se bem ao receber curtidas nas redes sociais não necessariamente é sinal de narcisismo ou vontade de atenção. É uma resposta biológica, um shot de dopamina calculado por especialistas para nos fazer passar mais tempo logados. As consequências psicológicas também aparecem quando vemos o número de curtidas e seguidores das pessoas que estamos seguindo, estimulando uma espécie de competição. E o próprio Instagram reconhece que isso é problemático.

Adam Mosseri, chefe da rede social, anunciou em abril deste ano, durante a conferência F8, que a rede começaria a testar esconder o número de curtidas dos posts. Além disso, a contagem de seguidores nos perfis apareceria menor e abaixo da bio - ou seja, se tornaria menos chamativa. O modelo já está sendo testado no Canadá e tem esta cara:

Adam Mosseri, chefão do Instagram, anunciou novo formato do app com likes menos evidentes - Reprodução
Adam Mosseri, chefão do Instagram, anunciou novo formato do app com likes menos evidentes
Imagem: Reprodução

Antes do anúncio, quando já rolava a fofoca de que o Instagram estava testando a mudança, muita gente (até a cantora pop Katy Perry) entendeu que seria "o fim do like" na rede social. Mas não é bem assim. Ainda é possível curtir publicações e o usuário continua tendo acesso ao número de likes em seus próprios posts. O que muda é que os usuários vão precisar contar as curtidas uma a uma se quiserem saber o número exato de curtidas de uma publicação de outra pessoa. No scroll normal do dia a dia, só vai dar para saber que "@xyz e outras" deram um coraçãozinho para a publicação.

"Nós não queremos que o Instagram seja como uma competição", disse Mosseri na F8. "Nós queremos que as pessoas se preocupem menos com o número de likes que elas estão recebendo no Instagram, e passem um pouco mais de tempo se conectando com as pessoas que importam para elas."

E não foi só o Instagram que começou a prestar atenção aos problemas das métricas expostas. O YouTube decidiu padronizar a forma que mostra o número de inscritos nos canais do mundo todo. A partir de agosto, todos devem aparecer "arredondados", ou seja, um canal com 133.017 inscritos terá, em seu perfil, o número abreviado: 133k. Isso se aplica aos canais com mais de mil inscritos.

O Twitter não anunciou nenhuma medida nesse sentido, mas o CEO, Jack Dorsey, se mostrou simpático à ideia recentemente. Durante uma conversa ao vivo com os curadores da conferência TED no Canadá, ele comentou que a empresa decidiu, inicialmente, mostrar o número de seguidores com destaque nos perfis. "Foi a decisão correta naquele momento? Provavelmente não", admitiu. "Se eu pudesse começar de novo, eu não enfatizaria tanto a contagem de seguidores. Eu não enfatizaria tanto a contagem de likes."

Piscina de bolinhas ou de espuma garantem boas fotos e bons likes no Instagram - Divulgação
Piscina de bolinhas ou de espuma garantem boas fotos e bons likes no Instagram
Imagem: Divulgação

Ele chegou a dizer que talvez nem criasse a função 'curtir'. "Na verdade não contribui com o que a gente vê agora como a coisa mais importante, que é uma contribuição saudável na rede, uma conversa com a rede, participação na conversa, aprender algo com a conversa. São coisas nas quais não pensamos 13 anos atrás, e acreditamos que são importantes agora."

Estratégia de marketing ou mudança efetiva?

Apesar das pequenas mudanças (ou da intenção de mudanças) das outras redes, o Instagram vem liderando os esforços pela melhora na experiência do usuário quando se trata de saúde mental.

E não é por menos. A rede foi considerada em diversas pesquisas a pior rede social nesse quesito para os jovens, tanto do ponto de vista da autoestima, minada por fotos retocadas de pessoas "perfeitas", quanto pelo FOMO (sigla para "fear of missing out"), a sensação de que está todo mundo fazendo coisas legais das quais você não faz parte.

"Como as mídias sociais têm sido muito criticadas, elas estão correndo atrás, antes tarde do que nunca, para tentar fazer com que o tempo despendido desses locais seja mais proveitoso. Tenho acompanhado pessoalmente o pessoal do Instagram, que tem feito esforços bem grandes para favorecer que o uso seja associado ao bem-estar", observa Cristiano Nabuco, coordenador do Núcleo de Dependências Tecnológicas do Programa Ambulatorial Integrado dos Transtornos do Impulso (Pro-Amiti) do Instituto de Psiquiatria do HC da USP.

Exposições e centros culturais reservam espaços para ânsia de selfies dos frequentadores - Gabriel Cabral/Folhapress
Exposições e centros culturais reservam espaços para ânsia de selfies dos frequentadores
Imagem: Gabriel Cabral/Folhapress

Nabuco comemora a possibilidade do fim da contagem pública de likes e afirma que é essencial que as redes trabalhem lado a lado com profissionais da saúde mental para equilibrar o jogo. Ele explica que nossa relação com as redes espelha institntos básicos humanos, que precisam ser entendidos para melhorar nossa experiência também online.

"Se há milhares de anos as tribos de 100 pessoas tinham, digamos, cinco machos-alfa, hoje nas redes sociais quantos machos e fêmeas-alfa eu vejo? 5 mil? Todo mundo é ótimo, e isso cria um mal-estar que indica para o cérebro que você não é bom o suficiente, que tem que se esforçar em busca de valorização, de curtidas. As pessoas começam a se tornar like seekers. Quando eu publico algo e ninguém curte, eu apago." Como você provavelmente já ouviu falar, a rede social acaba potencializando a sensação de isolamento de alguns. E isso não é bom para ninguém - nem para as pessoas, nem para as próprias empresas.

Da praça pública à sala de casa

Na abertura da F8, Mark Zuckerberg deixou bem claro que os próximos passos do Facebook (que é dono do Instagram desde 2012) serão focados em privacidade e nas relações mais próximas entre as pessoas.

Da rede social como praça pública, a ideia é passar à sala de casa, numa conversa mais íntima com amigos e outras conexões nas redes. A mudança de paradigma, que vem após diversos escândalos que chegaram a levar Zuck a depor no Senado dos Estados Unidos, pode sim ser positiva do ponto da saúde mental, defendem psicólogos.

"Falar em praça pública funciona quando você é ouvido. Se não, o vazio é maior. Se você sobe no banquinho da praça pública e ninguém para pra te escutar, é mais provável que você se sinta ainda mais sozinho. Quando uma só pessoa para, você se sente mais acolhido, mas ouvido", avalia Andréa Jotta Ribeiro Nolf, do Núcleo em Pesquisa em Psicologia e Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (NPPI-PUC/SP).

Ao que tudo indica, as novas políticas do Instagram podem mesmo ser eficazes. O que não quer dizer que a empresa não saia ganhando com isso também. Andrea avalia que, para o Instagram, é mais interessante pulverizar os interesses do usuário e não incentivar as curtidas em massa em certos influenciadores. "Não sei até que ponto eles (o Instagram) entenderam que precisam do cooperativo, ou só estão enganando a gente. Mas nós somos autônomos. Vale potencializar os seres humanos e as relações pessoais para fazer um bom uso das tecnologias."

Como ficam os influencers?

Muita gente até torceu para que os influenciadores digitais perdessem relevância com a mudança, mas não é bem assim. Pelo menos para quem produz conteúdo de qualidade, sem comprar likes e seguidores.

Marcelo Proença, CEO da Hello Group - empresa que há dez anos oferece mentoria e agencia carreiras de influenciadores digitais - vê a alteração de maneira otimista. "Acreditamos que é mais importante ter conteúdos relevantes do que populares", afirma. "Acho que essa relação primária com o like vai ser substituída por uma coisa muito boa, que é o engajamento com qualidade."

Segundo ele, as marcas já procuram os influencers como um canal tradicional de mídia e, portanto, tratam esses perfis a partir de uma estratégia definida. Os números importam (e eles continuarão disponíveis para os criadores de conteúdo), mas importa também que aquele veículo (o influenciador) passe uma mensagem que esteja em sintonia com os valores da empresa.

"Se estamos pensando numa relação comercial saudável, não vai fazer diferença nenhuma (esconder os likes). A empresa vai investir em você porque acredita que você vai comunicar corretamente, a partir do briefing que foi acertado. Essa coisa do número está mais relacionada com uma coisa emocional do que com algo do mercado comercial das redes", acredita Proença.

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