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"Arquitetos" da quebrada usam criatividade para construir na periferia

Inês Bonduki/UOL
Imagem: Inês Bonduki/UOL

João de Mari e Sanara Santos

Da Agência Énois, em colaboração para o TAB, de São Paulo

30/07/2019 04h01

"Aqui não se constrói uma casa sem pensar nas que estão do lado", diz o pedreiro Geraldo Bezerra, 70. Na Favela da Ilha, no Jardim Planalto, zona leste de São Paulo, dezenas de residências carregam a assinatura do pernambucano.

Com muito cuidado, ele diz pensar da fundação à disposição das janelas das casas que faz, além de saber de cor todas as características do bairro, com residências de alvenaria nas encostas dos morros e dezenas de vielas onde as moradias são muito próximas uma das outras.

Em Suzano, a 40 quilômetros da capital paulista, Avilson de Santana, 44, relata as manobras inventadas para construir em áreas de mangue do litoral. "Era mó treta! Quanto maior o buraco que eu fazia para erguer uma coluna, mais água saía. Então eu usava cimento seco, sem água, misturando dentro do buraco aberto. Aí já colocava as ferragens para encher a coluna de concreto".

O pedreiro Geraldo Bezerra construiu por volta de 150 casas em 50 anos - Inês Bonduki/UOL
O pedreiro Geraldo Bezerra construiu por volta de 150 casas em 50 anos
Imagem: Inês Bonduki/UOL

Pedreiros da quebrada, Santana e Bezerra moram e trabalham na periferia. Mas eles fazem mais do que rebocar, pintar, construir e reformar: seja em morros ou em beiras de rios, dão a cara da arquitetura das quebradas.

Rodeada de afluentes do rio Tamanduateí, a Favela da Ilha está no meio de seis pequenas comunidades pertencentes ao distrito paulista de Sapopemba que, juntas, contabilizam mais de 284 mil moradores, segundo dados de 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A região foi palco das primeiras favelas paulistanas na década de 1940 e recebeu, pouco tempo depois, um enorme fluxo de migrantes, principalmente do nordeste brasileiro.

Foi ali que Bezerra se estabeleceu e, durante seus mais de 50 anos como pedreiro, construiu cerca de 150 casas. "Eu ajudei a construir a favela onde eu moro", afirma, relembrando histórias de quando aprendeu a profissão na adolescência.

Várias casas dividem as mesmas paredes, o que inviabiliza a utilização de janelas. Para iluminar as construções, o pedreiro sempre usa blocos de vidro nas partes superiores para facilitar a entrada da luz natural nos ambientes. Para circulação do ar - muitas casas apresentam mofo e cheiro forte -, Bezerra sempre orienta seus clientes a usarem porta balcão. Nos banheiros, para resguardar a privacidade, um vitrô sempre é recomendado.

Geraldo Bezerra conta que ajudou a construir a favela onde mora - Inês Bonduki/UOL
Geraldo Bezerra conta que ajudou a construir a favela onde mora
Imagem: Inês Bonduki/UOL

Bezerra nunca entrou em uma escola e diz ter contado com a curiosidade para aprender tudo da profissão nas grandes obras em que trabalhou, assim como Santanta, que estudou até a oitava série. Hoje, eles não só colocam a "mão na massa", mas leem plantas e planejam desde a fundação à disposição dos cômodos, rede elétrica e encanamento das residências.

Para Cecília Angileli, doutora em Arquitetura e Urbanismo e professora da UNILA (Universidade Federal da Integração Latino-Americana) no Paraná, os pedreiros são "os autoconstrutores" que pensam além da casa, ou seja, pensam em todo tecido urbano e buscam soluções dentro das limitações financeiras. "Acho que se os saberes do povo fossem mais reconhecidos, chegaríamos a soluções mais realistas", diz.

Ganha-pão

Inês Bonduki/UOL
Imagem: Inês Bonduki/UOL

No Brasil, a profissão de pedreiro não é regulamentada. A única tentativa de regulamentação data de 2011, a partir do Projeto de Lei 2774/11, de autoria do deputado federal André Moura (PSC-SE), mas foi arquivada na Câmara em janeiro deste ano. O texto previa um piso salarial para a categoria de R$ 1.500,00.

Um levantamento de 2015 do Data Favela mostra como a profissão movimenta a economia nos territórios periféricos. Apenas nas favelas paulistas, por exemplo, reformar a casa nos 12 meses seguintes era o desejo de 3,4 milhões de pessoas, enquanto pouco mais de um milhão delas tinha a intenção de comprar um apartamento em 2016.
Mais obras geram mais empregos. "A gente chama três a quatro serventes, chama os meninos jovens que estão sem e emprego e os adultos desempregados", conta Bezerra, que paga cerca de R$ 1.500, por casa construída aos ajudantes.

Ideias que brotam na mente

Enquanto se prepara para dar a segunda demão de tinta da cor framboesa em uma parede, Santana mostra algumas fotos com destroços de tijolos, madeira e telhas que se estendem por cômodos de uma casa destelhada. "Como a cliente não tinha condições de derrubar tudo e construir outra casa, o pai dela deu a ideia de aproveitar aquilo [a casa] e daí me chamaram".

A casa da cliente era geminada com a da vizinha. Mas, diferente de outras construções desse tipo, era unida pelo teto e não pelas paredes. "Fiquei com medo de cair a casa da prima dela [a vizinha geminada], porque era uma construção antiga", diz. Quando o pedreiro retirava uma telha da construção que trabalhava, ele derrubava, sem querer, alguma parte do teto no forro do telhado da vizinha.

Como alternativa, Santana fez uma espécie de cinta com canaletas "de fora a fora", como ele mesmo diz. Canaletas são parecidas com os blocos de concreto, porém, são vazadas no sentido horizontal, possuindo um formato "U", o que facilita a passagem de ferragens e do concreto.

"Eu assentei a canaleta ao redor de todos os cômodos da casa. Esperei secar, subi algumas fiadas para poder colocar o telhado. Estratégia monstra mesmo!", conta orgulhoso. "O único jeito, além do que eu dei, era quebrar tudo e levantar as paredes do zero, o que sairia muito mais caro. Mas a gente que está no ramo tem ideias que vêm na nossa cabeça, né?".

Gambiarra bem feita

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Imagem: Inês Bonduki/UOL

Santana diz que gosta do que faz. Diferente de Bezerra, o pedreiro quase 30 anos mais jovem costuma trabalhar sozinho. Ele diz que consegue sobreviver mensalmente com os R$ 2.500,00 que recebe, em média, pelos serviços e afirma que o que mais admira na profissão são as gambiarras "monstras" que faz, devido às condições financeiras dos clientes, e aprende a cada novo serviço. "São gambiarras bem feitas! Sempre com segurança", ressalta.

É o caso da maioria das construções feitas por ele nos bairros Jardim Maite e na Vila Colorado, periferias de Suzano. Por lá, as residências são construídas sem plantas e planejamento.

"Tem pessoas que não têm recursos, não têm dinheiro. Então a gente fazia uma coluna falsa com apenas duas barras de ferro", conta Santana. "Eu fazia um buraco de um metro, um metro e meio se desse, com a cavadeira, não usava nem broca. Enchia de concreto e colocava duas pontas de ferro e subia. Só que já subia na amarração", completa.

Depois das barras de ferros coladas paralelamente, era só fazer a amarração. Como o próprio nome diz, é o procedimento que permite amarrar as paredes entre si, para que elas trabalhem em conjunto e deixem a estrutura mais firme. As colunas "falsas" têm o mesmo formato de uma coluna "verdadeira", mas o pedreiro sempre deixa claro que elas não têm a mesma segurança, ou seja, não podem ser usadas como estruturas para a construção de um segundo piso. "É imaginar que uma família vai morar ali dentro. Tem que se colocar no lugar do cliente", diz.

Carina Guedes, mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e idealizadora do projeto Arquitetura na Periferia acredita que, além da segurança, é necessário ter cautela ao pensar em investir em reformas numa casa na favela. "Trazer o conhecimento técnico para a periferia, que já tem a técnica construtiva, é fundamental", avalia.

Professora da UNILA, Cecília Angileli segue na mesma linha e acredita que as duas frentes que constroem a cidade - universidade e periferia - deveriam estar mais próximas. "Existem esses arquitetos da quebrada. Faz tempo que eles existem e o problema é que eles não são a referência no ensino da Arquitetura no país", diz.

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