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Máquinas podem acabar com a necessidade de aprendermos outros idiomas

Daniel Neri/UOL
Imagem: Daniel Neri/UOL

Kaluan Bernardo

Do TAB, em São Paulo

06/08/2019 04h01

Dnyan Yewatkar tinha 17 anos e resolveu viajar a pé pela Índia, que tem 22 línguas oficiais. Era madrugada quando passava por um vilarejo no sul do país e foi atacado por cachorros. Ao ouvir os latidos, moradores apareceram com pedaços de paus nas mãos. O jovem tentava avisá-los que não era ladrão, mas como não conhecia o idioma da região, a comunicação falhou. Assustados, os locais bateram nele, causando traumatismo craniano. "Fiquei no chão até acharem que estava morto", conta.

Traumatizado, Yewatkar tinha medo de ter problemas com linguagem novamente. Mas em Mianmar, um amigo sugeriu usar o Google Translate. Atualmente, o jovem está viajando novamente. Ele pedalou mais de 70 mil quilômetros e passou por 75 países. Vai sozinho e falando três idiomas (marathi, hindi e inglês). Quando não conhece a língua, conta com o celular e seu aplicativo. "A tradução automática se tornou um serviço insubstituível para mim. É como uma linguagem global que eu uso para entender os outros e expressar meus sentimentos", diz.

Já são 13 anos que serviços de tradução automática estão entre nós. O Google Translate atualmente permite traduzir mais de 100 idiomas, tanto em áudio, quanto em texto ou imagem. Além dele, existem vários outros, como iTranslate, Microsoft Translate e Papago, que funcionam melhor ou pior dependendo do idioma que traduzem.

Se no começo as traduções eram tão literais que soavam cômicas, hoje a inteligência artificial está no centro de diversos debates sobre o futuro da tradução e da linguística.
Mas, afinal, a tecnologia pode dinamitar a Torre de Babel e permitir o mundo inteiro se comunicar de uma forma nova? Ou, ainda, criar uma espécie de idioma global?

O Google diz que não pensa nisso. "Queremos derrubar barreiras linguísticas e ajudar as pessoas a terem conversas rápidas, não chegar a criar uma nova língua universal", afirma Sami Iqram, diretor de produto global responsável pelo Google Translate, ao TAB.

Tu hablas machine learning?

Para entender o futuro da tradução automática e seu impacto no mundo, é preciso primeiro saber como chegamos até aqui. Alex Waibel, professor de Ciência da Computação do Departamento de Tecnologias da Linguagem na Universidade Carnegie Mellon, em entrevista à rádio pública norte-americana WBUR, destaca três momentos da inteligência artificial.

No início, os sistemas apenas seguiam as regras que os programadores estipulavam. Isso era um problema para identificar contextos como um todo e, consequentemente, a tradução parecia muito "ao pé da letra".

A tecnologia deu um salto com o chamado aprendizado de máquina (ou machine learning, como é mais conhecido, em inglês). Com esta técnica, os sistemas "aprendiam" sozinhos e usavam estatística para adaptar o contexto da sentença e calcular qual era a tradução mais provável.

Por fim, em 2016, o Google passou a utilizar rede neural artificial. A técnica permite diferentes graus de abstração. Como o nome sugere, a máquina imita, em certa medida, o funcionamento de um cérebro. Desta forma, o sistema consegue utilizar conhecimento prévio e aplicar a novos problemas para os quais não especificamente foi programado.

"O sistema neural artificial usa o contexto todo e traduz tudo ao mesmo tempo. É como um quebra-cabeças. Antes, a máquina analisava a imagem, mas ia montando as peças pedaço por pedaço. Agora, ela avalia primeiro as cores, as formas, curvas e já têm o desenho todo", explica Iqram.

Mais fácil aprender japonês em braile

À medida que as redes neurais artificiais evoluírem, os sistemas de tradução poderão substituir os tradutores humanos? O Google diz que não. "Não estamos competindo com os humanos. Estamos tratando um problema diferente, as pessoas têm um processo criativo. Não estão apenas traduzindo, estão colocando emoção, trazendo metáforas diferentes. O que estamos fazendo com a máquina é só facilitar a conexão entre as pessoas", comenta.

Caetano Galindo, tradutor e doutor em Linguística pela Universidade de São Paulo (USP), concorda, mas acredita que as ferramentas de tradução automática já impactam bastante o mercado de tradutores.

Em traduções mais técnicas e simples, muitos profissionais já usam a tradução automática e, depois, apenas finalizam e corrigem o texto. "Isso aumenta demais a velocidade de produção e diminui bastante o preço pago ao tradutor, que está trabalhando em um ritmo absurdo para ganhar a vida", comenta.

Daniel Neri/UOL
Imagem: Daniel Neri/UOL

Ele acredita que, em um futuro não muito distante, a tradução literária poderá ser comida pelas bordas. "Os gêneros menos artísticos ou elaborados vão sendo feitos neste misto de tradução automática e humana", diz. "E aí talvez surja uma ideia mais gourmet de tradução, com pessoas procurando por certas grifes - da mesma forma que hoje compram produtos feitos à mão", diz. Ele compara com a música erudita: "Você pode pedir para um computador ler uma partitura e obter um resultado aceitável. Mas ainda se espera a arte, a assinatura do intérprete".

O processo de tradução automática também pode automatizar preconceitos linguísticos. "Discutimos muito sobre isso e procuramos algumas soluções. Em algumas línguas, por exemplo, oferecemos masculino e feminino para uma tradução que não tinha gênero", diz Iqram. "O viés na tradução não é um problema só da máquina, é humano também", defende.

Além do gênero, há também a imposição dos idiomas. Se você quiser traduzir do português para o coreano, possivelmente o Google irá traduzir primeiro para do português para o inglês e, depois, do inglês para o coreano. Isso porque a maior parte do conteúdo da internet está em inglês - e a ferramenta utiliza o conteúdo pré-existente na rede para as traduções.

Para Galindo, no curto e médio prazo, isso pode aumentar o impacto do imperialismo do idioma inglês. "Traduções podem sim reforçar certas tendências anglicistas da língua. Mas é resultado da má tradução. A boa tradução não ocupa esse papel. Estamos vivendo um momento em que a tradução de máquina ainda não é suficientemente boa. E isso ainda pode ter um impacto temporário sobre vários idiomas. Mas isso não é uma mudança de ordem, é uma intensificação de algo que já acontece", comenta.

Marcello Modesto, professor da USP e doutor em Linguística pela Universidade do Sul da Califórnia, diz que tal fenômeno reforça a importância de se pensar na conservação de pequenos idiomas. "Nem todas as línguas têm o mesmo peso na internet. Quase não há conteúdo online em línguas indígenas, por exemplo. E isso aumenta o problema do imperialismo da língua majoritária e pode matar as minoritárias", alerta.

Ele cita como exemplo o povo belga, que fala alemão, francês e neerlandês (também chamado de flamengo). "Eles vão continuar a falar flamengo na região. Mas, como pouca gente fala e há pouco conteúdo online na língua, as ferramentas não vão ser sofisticadas neste idioma. E aí as pessoas vão preferir produzir conteúdo em francês - em um processo que se retroalimenta. Na internet, o flamengo morre", diz. "Isso não quer dizer que no dia a dia a língua vá desaparecer. Na vida offline, continuam usando em pequenas comunidades", ressalta.

Modesto diz que é importante refletir sobre tal tema para a manutenção e sobrevivência de pequenas línguas. "A internet pode ajudar a conservá-las se fizermos um esforço de empoderamento, produzir conteúdo nestas línguas menores.

Fala que eu te escuto

Em "O Guia do Mochileiro das Galáxias", de 1979, Douglas Adams imagina o "Peixe Babel", um animal dourado que as pessoas colocam nos ouvidos e é capaz de traduzir todos os idiomas instantaneamente. Ainda não chegamos lá, mas já existem fones de ouvido que traduzem em tempo real - embora a qualidade do trabalho seja duvidosa.

No mundo que Adams imaginou e para o qual caminhamos, a tradução se torna invisível e a situação muda. Com tradutores muito eficientes e rápidos, as pessoas têm a ilusão de conversar no seu próprio idioma. "Isso pode levar a uma paradoxal situação de descolamento no qual as pequenas línguas ganham mais força e evoluem como sempre evoluíram", diz Galindo.

Neste cenário, as pessoas não precisam mais falar uma segunda língua global, como o inglês. "A língua internacional é dada pela máquina. Não preciso mais ser bilingue, apenas falar a minha pequena língua da minha microscópica comunidade para conseguir me comunicar com um norueguês ou com um inglês", comenta.

Modesto também acredita que as línguas poderão evoluir naturalmente em um mundo dominado pela tradução automática e isso pode desincentivar o aprendizado de novas. Talvez chegue uma hora que você não precise aprender um idioma. "Isso é negativo, pois o computador vai deixar de lado várias nuances", comenta.

O processo de extinção linguística, no entanto, está mais relacionado a fatores políticos e econômicos do que tecnológicos. "Estimativas nada catastróficas preveem a redução de milhares de línguas para algumas centenas no final do século", diz Galindo.

Qualquer grupo social que fique separado ou descolado de uma influência política, econômica ou linguística, terá sua língua se transformando naturalmente até que fique tão diferente que se torne outra. "A globalização e a internet tornaram isso mais difícil", comenta Modesto.

Yewatkar conta a história do dia em que fugiu de um leão em Mianmar, se perdeu e foi parar em uma comunidade com uma língua que o Google não reconhecia. Ele passou nove dias com eles, apenas se comunicando com linguagem corporal e mostrando que, nem tudo, é possível nem necessário traduzir. Ainda assim, acredita que ferramentas de tradução automática irão nos aproximar mais: "A relação de duas pessoas que podem falar em suas línguas nativas é muito preciosa", diz.

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