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Por que os carros autônomos ainda não estão nas ruas?

Cadê o volante? Falta muito ainda para vermos carros assim nas ruas - Eric Risberg/AP
Cadê o volante? Falta muito ainda para vermos carros assim nas ruas Imagem: Eric Risberg/AP

Luiza Pollo

da agência Eder Content, colaboração para o TAB, em São Paulo

29/08/2019 04h01

Já faz pelo menos dez anos que os veículos autônomos são promessa. Mas sentar-se no banco do motorista e aproveitar o tempo de trânsito para ler um livro ainda é um sonho distante.

Enquanto isso, nossos celulares se transformaram em computadores, descobrimos os serviços de streaming e a economia compartilhada entrou na nossa vida. Por que, então, a automação dos carros está demorando tanto para chegar?

A culpa é, basicamente, nossa. A imprevisibilidade humana não combina muito bem com a precisão e o respeito total às regras que vêm embutidos nos códigos dos veículos autônomos. "É muito mais fácil automatizar algo quando você não tem a presença desse elemento confuso que é o ser humano", afirma Fernando Osório, professor do LRM (Laboratório de Robótica Móvel) do ICMC-USP (Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo), em São Carlos.

O LRM trabalha com tecnologias de automatização de veículos no Brasil desde 2009. Toda essa trajetória colaborou, segundo Osório, para que a equipe vencesse, em julho deste ano, um desafio internacional de segurança de carros autônomos, disputado pelos melhores laboratórios do mundo.

Em 2013, um carro automatizado pelo LRM foi colocado em teste nas ruas de São Carlos com autorização especial, a primeira avaliação do tipo em vias públicas da América Latina.

Para Stella Hiroki, doutora sobre cidades inteligentes pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), a forma como será feita a transição dos veículos de hoje para os do futuro é uma questão essencial. "Misturar carros autônomos e não autônomos vai gerar grandes problemas de trânsito", diz.

Soluções como vias inteligentes levam em conta a convivência pacífica do velho com o novo. Na opinião de Osório, dificilmente os carros como temos hoje vão desaparecer, assim como carroça não sumiu com o advento do automóvel.

O Brasil, no entanto, está longe de ficar pronto para ter automóveis autônomos nas ruas. Segundo a KPMG, empresa de auditoria independente, nós somos o pior dos 25 países analisados para receber carros autônomos. Caímos da 17ª posição em 2018 para a 25ª no Índice de Prontidão para o uso de veículos autônomos 2019.

Temos a pior qualidade de infraestrutura viária, a pior cobertura 4G e estamos entre os cinco piores em quantidade de sedes de empresas no ramo. Ao mesmo tempo, os consumidores brasileiros aparecem em quinto lugar quando o quesito é entusiasmo com a tecnologia.

Nós X Eles

Divulgação
Imagem: Divulgação

A ideia pode ser empolgante e ter cara de filme futurista, mas há desafios e resistências a vencer para colocá-la em prática - ou melhor, nas ruas.

Para começar, Osório observa que é difícil convencer a população de que a tecnologia pode ser melhor do que um ser humano atrás do volante. "Tem que desmistificar a questão de que ela vai tirar o emprego (de motoristas), ou aquela ideia de que vai ter que escolher entre atropelar uma criança ou uma idosa." Mas é inquestionável, afirma o pesquisador, que uma máquina não vai beber, não vai ficar com sono, não vai se distrair no celular ou cometer imprudências. "Ela nasce mais segura", argumenta o professor da USP.

A polêmica à qual ele se refere é o desafio de se programar um carro para tomar decisões difíceis, nas quais um acidente parece inevitável. Em diversas críticas aos veículos autônomos, levanta-se o conhecido problema ético: se um trem fosse atropelar cinco trabalhadores distraídos nos trilhos, mas você pudesse puxar uma alavanca para desviá-lo e matar apenas uma, você o faria? Muita gente usa essa comparação para dizer que os carros precisarão tomar esse tipo de decisão e teriam que ser programados por um humano para isso. "A verdade é que você vai trabalhar para evitar o acidente a todo custo", explica Osório.

Na indústria, o argumento mais forte está num índice tão alto quanto preocupante. "Nossos veículos autônomos têm o objetivo de eliminar o erro humano, causa primária de 94% dos acidentes", diz a General Motors. O mesmo índice aparece no site da Waymo, empresa que começou nos laboratórios do Google em 2009 e hoje lidera pesquisas e aplicação da automação de veículos. "Nós nos comprometemos em desenvolver veículos totalmente autônomos porque acreditamos que isso é mais seguro e melhor para todos", diz a empresa.

Mas não é só a população que precisa ser convencida sobre a chegada dos autônomos. "O que você vai fazer com a infraestrutura que atende aos carros não autônomos?", questiona Stella. Negócios como estacionamentos e postos de combustíveis podem se tornar obsoletos, já que os veículos poderão circular sem parar e provavelmente serão também elétricos, entre outras mudanças.

Até o comércio de rua pode sofrer com a mudança, se considerarmos que veículos totalmente autônomos não vão parar em semáforos por tanto tempo. "Tem um mercado muito grande que vai ter que se adequar, e acredito que ele ainda não esteja aberto a essa mudança", diz.

Autônomo, mas até que ponto?

Carro autônomo do Google - Justin Sullivan/Getty Images/AFP
Carro autônomo do Google
Imagem: Justin Sullivan/Getty Images/AFP
Por enquanto, o futuro mais factível para os automóveis é parecido com o dos aviões, compara o professor da USP. As aeronaves voam em piloto automático a maior parte do tempo, mas sempre há um humano, ou melhor, dois, na cabine para assumir o controle quando necessário.

Osório afirma que o futuro é de carros mais seguros, mas não necessariamente independentes dos humanos. A ideia é que o sistema do veículo consiga aumentar a segurança com aquilo que ele faz de melhor: dirigir segundo as leis, estar sempre atento, identificar toda a sinalização e se comunicar com outros veículos para evitar colisões. Outra função importante é servir como um fiscal do próprio motorista, emitindo alertas quando perceber que o ser humano atrás do volante não está em condições de dirigir.

Há cinco níveis para classificar a automação de veículos, criados pela SAE, Sociedade de Engenheiros Automotivos. Os completamente autônomos, ou seja, capazes de lidar com todos os aspectos da direção sem nenhuma intervenção humana, são os carros de nível 4 e 5. Há quem diga que eles estarão por aí em 2030.

No nível 3, você não está dirigindo, mas o sistema ainda pode pedir sua ajuda. Por enquanto, o único carro comercial nessa categoria é o Audi A8, anunciado em 2017, mas que ainda está batalhando por regulamentação para circular nas ruas da Alemanha. O que existe atualmente em alguns países são automóveis de nível 2 de automação, como alguns modelos da Tesla que, entre outras características, conseguem mudar de pista sozinhos.

"O salto tecnológico foi muito rápido. Conseguimos chegar a protótipos que já estão funcionando em situações reais", observa Osório. É o caso da Waymo, que conseguiu aprovação para colocar veículos considerados de nível 4 nas ruas da região metropolitana de Phoenix, nos Estados Unidos, para transportar passageiros. Por enquanto, há motoristas (humanos) de prontidão em todos os carros.

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