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DNA da saliva dá receita de cosmético, comida e vinho sob medida para você

Sushi Singularity quer servir comida customizável a partir de DNA, análise de flora intestinal e urina - Reprodução
Sushi Singularity quer servir comida customizável a partir de DNA, análise de flora intestinal e urina Imagem: Reprodução

Marília Marasciulo

Da agência Eder Content, em colaboração para o TAB, de Florianópolis

16/10/2019 04h01

E se fosse possível determinar quais os suplementos vitamínicos, cremes antienvelhecimento, rotina de exercícios e até mesmo vinhos ideais para você com apenas algumas gotas de saliva? Alerta de spoiler: isso tudo já existe. Com a popularização dos testes genéticos de farmácia, cada vez mais empresas usam o DNA dos clientes para criar produtos personalizados.

O que começou como uma modinha para descobrir a ancestralidade tem se transformado em um mercado bilionário. Até o início de 2019, mais de 26 milhões de pessoas fizeram um teste genético nos Estados Unidos para descobrir suas origens. Se o ritmo continuar assim, esse número deve chegar a 100 milhões nos próximos dois anos, segundo o MIT Technology Review. Mas é preciso que se diga: já há denúncias de fraudes e alertas de cautela sobre a nova febre.

Popularizados por empresas como 23andME, Ancestry — que já anunciou que vai incluir análise de saúde no serviço — e MyHeritage (o único disponível no Brasil, com kits por R$ 340), mais de 250 laboratórios fazem os testes atualmente. Rápidos e baratos, os testes têm preço médio que não costuma passar de US$ 60. Em uma pesquisa feita pela KPMG com 2.000 consumidores, 60% disseram que gostariam de fazer um teste, 75% estão dispostos a fornecer dados pessoais em troca de maior personalização, e 30% provavelmente aceitariam os aconselhamentos dos serviços.

"Soluções de bem-estar do tipo 'um tamanho serve para todos' são simplesmente ultrapassadas, ineficazes e potencialmente perigosas", diz um dos fundadores da LifeDNA, Cyril Moukarzel. Criada em 2017 com a proposta de "inspirar pessoas a usarem o poder de seus DNAs para viverem vidas mais saudáveis e plenas", a startup do Havaí usa um algoritmo para avaliar os dados genéticos e fornecer aconselhamentos de saúde, atividades físicas, nutrição e saúde mental. "Nós somos todos diferentes, e o que nos torna diferentes é uma combinação de estilo de vida, fatores ambientais e, o mais importante, nossa genética. A verdadeira personalização existe quando temos um entendimento profundo de todas as peças dessa equação", completa.

Infinitas possibilidades

Moukarzel não é o único de olho nas possibilidades desse novo mercado. No Brasil, a carioca Clube da Dieta tem entre os serviços o "lifestyle coaching com mapeamento genético". A californiana Vitagene, criada em 2014, oferece um serviço parecido, focando também em medicamentos e pacotes de suplementos "inteligentes".

Ainda na área dos suplementos e alimentação, a Rootine, do Tennessee, é um clube de assinatura de vitaminas customizadas com base em um questionário, exame de sangue e DNA. Por US$ 180 — teste de saliva incluso — o consumidor recebe um estoque de vitaminas para três meses. Habit, que recebeu financiamento da fabricante de enlatados Campbell Soup, começou como um delivery de comidas baseadas no DNA e hoje tem planos de nutrição e receitas personalizados.

Alguns kits de teste usam saliva, outros usam células do interior da bochecha - Getty Images/BBC
Alguns kits de teste usam saliva, outros usam células do interior da bochecha
Imagem: Getty Images/BBC

Para os cosméticos, o DNA é uma mina de ouro. Não faltam pesquisas que apontem que os genes desempenham um papel significativo no envelhecimento: faltavam só as gotinhas de saliva para as empresas alegarem ser possível conhecê-los para criar produtos específicos. A espanhola YouNom está entre as que prometem buscar no DNA traços de fotoenvelhecimento, hidratação, elasticidade e proteção antioxidante para desenvolver uma linha de cuidados para a pele, cabelos e unhas, que inclui creme (79 euros) e suplementos (entre 29 e 39 euros).

Como parece não haver limites para as possibilidades e a criatividade no uso de dados genéticos, algumas empresas têm propostas bem singulares. A californiana Strain Genie gera um relatório personalizado para uso de cannabis medicinal ou recreativa. A empresa garante que é capaz de dizer, por exemplo, quais variedades de plantas podem provocar experiências mais ou menos agradáveis, assim como qual o coquetel de canabinoides ideal para o seu corpo. Também da Califórnia, a Vinome usa a genética para fazer match com vinhos vendidos via loja online ou clube mensal.

Mas o ápice da experiência gastronômica genética virá mesmo em 2020, com a abertura do Sushi Singularity, em Tóquio. Já imaginou chegar a um restaurante que desenvolveu receitas exclusivas para você e mais ninguém? Quem fizer uma reserva no restaurante receberá kits de DNA, além de análise de urina e de flora intestinal. A partir disso, os chefs poderão criar receitas perfeitas para o comensal.

Como funcionam (e funcionam?)

Por mais diferentes que sejam os produtos oferecidos, a maioria das empresas usam o mesmo sistema: elas analisam marcadores de variantes no nosso DNA que estariam relacionados a algumas condições. Graças ao mapeamento do genoma humano em 2003, atualmente sabemos que cada pessoa tem cerca de três bilhões de pares de bases, que codificam genes, os nossos dados genéticos, mas 99,9% dos trechos são idênticos. Poder olhar somente para os marcadores nesse 0,01% de diferença é que tornou o processo mais barato e acessível.

Kit para coleta de DNA na saliva da 23andMe - AFP
Kit para coleta de DNA na saliva da 23andMe
Imagem: AFP

O problema é que, por mais que as empresas garantam ter estudos para embasar essa relação entre variantes e necessidades do corpo, há pouca evidência científica que corrobora as teses. Não à toa, já pipocam questionamentos. Em setembro de 2019, por exemplo, a Orig3n, uma das empresas que usam genética para traçar perfil de alimentação, exercício e produtos de beleza ideais para cada pessoa, foi acusada por antigos funcionários de não cumprir padrões científicos e inclusive fabricar resultados. "A prioridade era o marketing", disse um técnico de laboratório à Bloomberg Businessweek.

Eles também acusaram a Orig3n de dar dicas genéricas, como "usar filtro solar", para clientes que pagam até US$ 298 pelo serviço. Em um comunicado oficial, o presidente da empresa, Robin Y. Smith, afirmou que as alegações são falsas, e que desde 2017 a Orig3n realizou todos os testes genéticos sob a regulamentação federal do Clinical Laboratory Improvement Amendments (CLIA), como requer a Food and Drug Administration (agência americana de controle de alimentos e medicamentos).

Mistério até que é bom

"Existe essa ideia de que o DNA é algo muito importante, mas isso não é completamente verdadeiro", afirma o professor de Direito e de Genética Hank Greely, da Universidade Stanford. Greely é diretor do Centro de Direito e Biociência e estuda as implicações éticas, legais e sociais de novas tecnologias biomédicas, em especial as relacionadas à neurociência, genética e pesquisa com células-tronco. "Ele é só mais uma coisa entre outros fatores que determinam nossa saúde, e a maioria dos marcadores tem efeitos muito mais fracos do que fatores ambientais e até mesmo sorte."

Com exceção dos casos de doenças em que a variação genética é poderosa e determinante — como a doença de Huntington, em que uma mutação no cromossomo 4 necessariamente vai causar uma degeneração progressiva no cérebro — , nos outros elas somente indicam tendências que podem não se concretizar ou já se concretizaram. "Esses testes trazem resultados como dizer se você tem cabelo ruivo e sardinhas. Mesmo que você não precise do DNA para saber disso, basta se olhar no espelho", explica Greely. "O DNA é como uma tendência climática: ele ajuda a dizer que em São Paulo provavelmente faça mais calor em dezembro que em junho, mas ele não pode dizer qual será a temperatura em 14 de junho de 2020", afirma o especialista.

Há também a preocupação com a segurança de espalhar dados genéticos indiscriminadamente por aí. Afinal, apesar de prometerem confidencialidade, na prática nada impede que os dados sejam roubados por hackers ou que as empresas os compartilhem com terceiros, para então serem usados de maneiras bem diferentes. Em abril de 2018, a polícia da Califórnia identificou o Golden State Killer, que assassinou ao menos dez pessoas entre 1979 e 1986 graças à base de dados da GEDMatch, que faz testes genéticos de ancestralidade. Eles cruzaram as amostras das cenas dos crimes e encontraram familiares do criminoso.

Na visão de Greely, porém, não há tanto motivo para se preocupar. "As pessoas perdem um pouco da privacidade, mas não adianta para muita coisa ter informações sobre o DNA de alguém", minimiza. O problema maior é fazê-las acreditar que a genética tem a resposta para tudo e estimulá-las a gastar dinheiro com isso. "As pessoas têm mais dinheiro do que bom senso, e buscam formas de se sentirem especiais", diz. De certa forma, a ciência pode ajudar a dar respostas personalizadas, resume o especialista, mas estamos longe de saber tudo e acabar com o mistério da vida. "E, mesmo quando for possível ter todas as respostas, você realmente quer que a ciência diga qual comida você deve provar, em vez de simplesmente experimentá-la?"

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