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'Rainha não, deusa suprema': memórias de uma ex-sadomasoquista de 80 anos

Memórias e segredos de Wilma Azevedo, a rainha do sadomasoquismo no Brasil Imagem: Iwi Onodera/UOL

Tiago Dias

Do TAB

18/12/2020 04h01

As instruções para chegar ao destino vieram à moda antiga. "Passa a curva do S, passa 2 faróis; no terceiro, entra à direita." A construção se materializou exatamente como descrita — casa antiga com um jardim na frente, muro baixo de portão largo.

A sexta-feira está quente em São José dos Campos, no interior de São Paulo, e uma senhora de 80 anos, estatura baixa, cabelo loiro e opaco, de saia longa e blusinha de crochê, aparece na porta. Seguida por dois cachorros, ela arrasta os chinelos e abre os braços.

Os vizinhos da frente assistem à movimentação, talvez imaginando se tratar de visita de parente que mora longe. Não é o caso; esta é a casa da rainha do sadomasoquismo no Brasil. Wilma Azevedo era assim conhecida entre 1980 e 2000.

A primeira mulher a escrever em revistas e livros sobre dominação, submissão, sadismo e masoquismo, antes mesmo do acrônimo BDSM se popularizar, difundiu o chamado "sadomasoquismo erótico", definição que veio a pautar pesquisas e discussões.

Trocamos mensagens e áudios de WhatsApp por semanas. No primeiro contato, ela desconfiou. "Desculpa, tinha muito sadomasoquista que aparecia falando que era jornalista", mandou, por áudio. Depois que me identifiquei, ela gravou uma sequência de mensagens. Estava animada. "Por favor, venha aqui. Gostaria de confessar tudo que está guardado dentro de mim."

Hoje, Wilma está aposentada do trabalho de pesquisa e das aventuras sexuais. "Não preciso de homem nem pra sexo. Se eu precisar hoje, aos 80 anos, me masturbo. Tenho muita experiência nisso e me satisfaço muito bem", avisa.

Imagem: Iwi Onodera/UOL
Lançado em 1986, "A Vênus de Cetim" reuniu os primeiros contos eróticos escritos por Wilma Imagem: Iwi Onodera/UOL
A obra que estampa a capa decora até hoje a sala da escritora, entre bibelôs e fotos antigas Imagem: Iwi Onodera/UOL

As mãos que um dia castigaram servos agora passam grande parte do tempo cuidando de plantas e ervas. Sob o mesmo teto de madeira dos anos 1950, onde cresceu, Wilma vive com os vira-latas Leroy e Dick, bibelôs e quinquilharias, fotos na parede da sala, móveis desgastados pelo tempo e interruptores e tomadas de outras épocas.

Sua maior preocupação no dia era alugar a casinha dos fundos para complementar renda e dar fim à goteira em um cômodo improvisado, do lado de fora. Há tempos ela tenta proteger o que chama de "tesouro". São caixas que guardam pedaços de uma vida inteira, catalogadas com sua letra: "poesia", "livros", "teatro", "erótico", "sadomasoquismo". Os segredos, diz ela, serão revelados numa trilogia autobiográfica. Um dos volumes se chama "A Verdadeira História de Wilma Azevedo".

Imagem: Iwi Onodera/UOL
Imagem: Iwi Onodera/UOL

A verdadeira história

Wilma nasceu Edivina. O nome de tom celestial aparece nas primeiras crônicas publicadas em jornais de São José dos Campos nos anos 1960. Ela guarda recortes desses anos num caderno esfarelado pelas traças. Já o nome, ela diz ainda detestar.

Na década seguinte, morando no Rio, assinava textos na revista "Amiga" como Edi Ribeiro, até descobrir que revista de sexo pagava mais. Wilma Azevedo estreou em uma edição de "Ele & Ela" de 1983, num artigo publicado em um folheto descartável. Este nome estaria na capa de quase todas as edições da "Club dos Homens", revista de conteúdo explícito que a contratou com um salário melhor após a repercussão inicial. O sucesso fez nascer depois a primeira publicação voltada exclusivamente aos praticantes.

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Com textos de Wilma, "S&M Especial" foi uma das primeiras publicações voltadas para a prática no Brasil Imagem: Iwi Onodera/UOL

Em primeira pessoa, ela narrava o que sentia em relações sadomasoquistas. Apesar da fama, sempre disse que, mais do que praticante, era uma pesquisadora sobre o tema, mas o leitor tinha ali um bônus valioso para criar suas fantasias: uma personagem sem pudores de detalhar cada aventura sob o ponto de vista feminino. A caixa postal vivia lotada de cartas de homens que confessavam os desejos mais reprimidos e descreviam as práticas mais insólitas. Todo mundo queria ser lido por ela e, com sorte, ver sua história impressa.

Seu primeiro livro, "A Vênus de Cetim", foi publicado em 1986 "com tudo que o '50 Tons de Cinza' depois veio a fazer", ela observa. O cartunista Henfil (1944-1988) disse que ele mesmo reprimia seus desejos até ler o trabalho da escritora, a quem chama de "alma-irmã" no prefácio. "Wilma pisou na cabeça da cobra-demônio e não deixou que Adão e Eva fossem expulsos do Paraíso", escreveu. A escultura de uma mulher seminua que ilustra a capa ainda decora a sala.

Imagem: Iwi Onodera/UOL
Imagem: Iwi Onodera/UOL

Confissões na caixa postal

Wilma escolhe calça e camisa florida cor-de-rosa para posar para as fotos, mas a tarde quente pede algo mais fresco. Com um vestido de vários tons de vermelho, ela mexe na caixa de correspondências. São cartas datilografadas, outras com garranchos miúdos quase ilegíveis.

Em português rebuscado e reverente, Yuri se despedia "humildemente aos vossos pés, desesperadamente aguardando novas ordens ou castigos". Já Sérgio detalhava à "idolatrada Wilma", sem florear, a prática da "fezedologia" (na verdade, o fetiche em manipular fezes é chamado de coprofilia).

Ela faz uma careta de reprovação. "Ficava com uma sensação horrível com alguns relatos, mas também me intrigava. Queria entender aquelas pulsões." Chegou a alguma conclusão? "Descobri que existia o maldoso, que deve ser punido pela lei; o psicopata, que precisa ser tratado pela medicina; e o erótico, que é bom, agradável, contanto que seja consensual."

Mais cartas vão para o chão: uma assinada pelo "podólatra do Leme", outra desejando "morder, amarrar as pernas e espetar o clitóris" da destinatária. Um envelope demora mais nas mãos de Wilma: era um homem que desejava ter os testículos arrancados pela "rainha". Wilma lê com voz calma e serena: assim, ele ficaria "feliz, contente, realizado, capado, capadinho, castrado, feliz feliz, feliz, capado, eunuco".

Imagem: Iwi Onodera/UOL
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Tapas e beijos

Wilma narra histórias como se estivesse ditando longos parágrafos. Descreve coisas que só conclui horas depois. Algo, no entanto, não se perdeu: como em seus contos, ela fala sobre sexo sem rodeios e é dona de todas as suas ações. "Mas isso aconteceu com você ou é ficção?", pergunto, enquanto ela narra um dos "capítulos" de sua vida. "Você fica colocando o boi na frente das coisas, me atrapalho toda", repreende.

Fato é que antes mesmo de se tornar "rainha", ela trabalhou em uma espécie de clube para cavalheiros da sociedade carioca se esbaldarem na luxúria com discrição. Wilma era uma espécie de secretária, a principal divulgadora. Eram os anos 1970 e ela tinha quase 40 anos, mas, como ela mesma se descreve, "um corpo jovem, uma pessoa sempre agradável, todo mundo queria ter sexo comigo, mas eu só aceitava daqueles que eu sabia que ninguém ia querer". Era também um trabalho? "Nunca precisei, eu não daria pra ser puta".

À época, Wilma pulava de emprego em emprego para manter dois filhos e um marido acamado por um AVC — realidade um pouco diferente da descrita em "O vênus de cetim", em que justificava suas aventuras sexuais por ser uma mulher livre, já viúva e sem filhos nem pais vivos.

Imagem: Reprodução
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Em 1986, Wilma fez uma sessão de fotos com Karina, sua "escrava" Imagem: Reprodução

Foi no clube que ela ouviu falar de sadomasoquismo: um visitante preencheu a ficha de inscrição perguntando se havia espaço para as práticas. O clube foi fechado pela polícia, mas aquele contato rendeu uma troca de correspondências que durou um ano. Ele procurava uma escrava sexual. Wilma sacou que tinha achado o tema certo para oferecer ao editor de "Ele & Ela" e deu sopa: disse que tinha interesse, desde que fosse ela a dominadora. Ele topou.

Wilma conta que saiu de casa para o primeiro encontro como um policial em ação: "Era matar ou morrer". Entrou no motel vestida de couro e, de improviso, ordenou: "Ajoelhe. Para receber uma rainha, você precisa se ajoelhar". O escravo recebeu o nome de Cosam ("masoc", de masoquista, ao contrário) e protagonizou muitos contos. Em "Submissão", ela narra a primeira vez que foi dominada por ele. Não foi apenas uma experiência, ela diz, "foi amorzinho". Cosam chegou a conhecer o marido e os filhos de Wilma como "amigo".

O relacionamento acabou porque Cosam queria abandonar a família para ficar com Wilma. Recém-viúva, ela não concordava. Anos depois, na seção de cartas da revista "Private", um leitor escreveu: "Desejo que Wilma Azevedo e todos os farsantes que tiram proveito do S&M caiam nas trevas do esquecimento". Era mágoa, e era Cosam. "Só soube disso depois da morte dele. Morreu de tanto fumar."

Cosam ainda existe dentro de um estojo de isopor cheio de fotos que Wilma esconde nos fundos de outra caixa. Eternizado em imagens antigas, junto com outros homens e mulheres amarrados, mamilos enganchados, pênis repuxados por correias e rostos sempre cobertos.

Um homem parrudo aparece com frequência, às vezes de lingerie ou com uniforme de empregada doméstica, mas sempre em um banheiro. Wilma diz que é Alemão, dono de uma fábrica de alimentos em São Paulo, seu "escravo nobre". Em outras fotos, com a data de 1985, Wilma pisa na cabeça de uma mulher loira. Para os leitores, era Karina, sua escrava. Para mim, uma amiga que topou uma encenação. "Tirei essas fotos porque as pessoas tinham muita curiosidade em ver como era", diz.

Imagem: Iwi Onodera/UOL
Imagem: Reprodução
Sem nunca mostrarem os rostos, seus parceiros estão eternizados na caixa de fotos Imagem: Reprodução

Alguém bate palma no portão. Ela estranha, diz não estar esperando ninguém. Um minuto depois ela volta: "Era o moço querendo saber do quartinho para alugar".

Na vizinhança, Wilma é conhecida como a irmã de Sebastião Teodoro Azevedo, ex-vereador da cidade, morto em 2019. Ari Rodrigues, 59, é dos poucos que sabem de sua vida pregressa. Ele ajuda nos afazeres mais pesados de manutenção da casa e a descreve como uma pessoa simples, às vezes sistemática, mas "gente boa". "Ela contou cada coisa pra mim de arrepiar os cabelos. Eu sei que ela não é mentirosa, mas tem coisas que é difícil de acreditar", diz, enquanto serra um pedaço de tapume para ajudar a amiga a proteger as caixas. E sussurra, ainda que ninguém estivesse por perto: "O cara comer a própria bosta. Isso é coisa de louco, parceiro".

Mulher não peca

Aos poucos, Wilma deixou de ter seus contos publicados e passou a dar mais entrevistas. Aos 60 anos, chegou a falar do seu terceiro livro, "Sadomasoquismo sem medo", no programa de Jô Soares. Mas na vida pessoal, ela trocava a persona dominadora pela palavra de Deus. A revelação se deu alguns anos antes, em um evento cuja imagem mais nítida na lembrança é a de pessoas fazendo sexo em cima de um palco e de alguém no microfone gritar ironicamente que "o sangue de Jesus tem poder!"

Foi como uma epifania. "Na hora deu um branco em mim, um mal estar tão grande. Usar o nome de Deus num ambiente desses? Ali eu decidi: Wilma Azevedo vai sair de cena e vai sair agora", conta. No dia seguinte, ela participava de um culto na Igreja Universal do Reino de Deus. Batizada, renegou a própria história e parou de divulgar seus livros. Hoje, diz não ser mais evangélica. "Tudo ladrão."

No quintal amplo, ela mostra um pé de jabuticaba. Era ali que a pequena Edivina pegava roupas no varal, se vestia como palhaço e fazia apresentações para as crianças do catecismo. Foi só por isso que ela topou estudar em colégio de freira. "Lá tinha 'teatrinho' e eu queria ser artista", diz.

Wilma conta que tinha uma "curiosidade nata" sobre sexualidade nesse período. No colégio ouvia muito que "o homem pecava". Sorria por dentro, satisfeita: "Graças a Deus sou mulher, não tenho nada a ver com isso".

Imagem: Iwi Onodera/UOL
Retrato do casamento em 1958; Wilma tinha 18, o marido, 28 Imagem: Iwi Onodera/UOL

A imagem da pequena palhaça está pendurada na sala, numa parede que começa a descascar: faz parte de um mosaico desalinhado de retratos e imagens. A filha ocupa a maior moldura. Era um desejo dela que a mãe voltasse a morar na cidade natal. Wilma atendeu prontamente em 2013, meses antes de perdê-la, vítima de um câncer no coração.

Entre fotos de netos, filhos e sobrinhos, uma Wilma de 18 anos posa ao lado do marido no dia do casamento. O primeiro beijo, ela diz, é uma das páginas mais bonitas da autobiografia. "Foi quando conheci meu príncipe encantado." Ela conta a primeira vez na lua de mel. Foi na praia, contra a vontade dele. "Fui pra cima dele, teve aquela fricção. Tive meu primeiro orgasmo lá."

Mas a vida de casada não seguiu exatamente o conto de fadas, ela conta enquanto almoçamos. Fez curso de datilografia escondida do marido e ouvia dele reclamações diversas: era úmida demais, larga demais, magra demais. O castelo ruiu quando ela descobriu que o marido a tinha "traído" com a empregada da casa, uma criança de 12 anos.

Passou pelo que chama de "privação de sentidos". Para ela o mundo se revelava podre. Ligou o gás do fogão, fechou janelas e frestas e colocou a cabeça no forno. Foi resgatada antes de desmaiar.

A vingança viria logo depois, com a chegada de um ginecologista "bonitão" na cidade. Entrou no consultório, relatou as reclamações do marido e propôs: "Vim pra ter uma relação sexual com você e ver se eu sou normal", conta, enquanto retira uma espinha de peixe da boca com os dedos. "Foi rápido. Ele disse que aquilo era lubrificação, era uma dádiva. E eu vi que quem tinha problema era meu marido, o médico tinha uma espessura muito maior."

Imagem: Reprodução
Imagem: Iwi Onodera/UOL
Imagem: Iwi Onodera/UOL

Vil, Má

"Não quero tirar foto com nada disso", diz Wilma, quando a última caixa é aberta. Mexo com cuidado, mas ela entra na frente e vira a caixa no chão. Se esparramam pelo quintal chicotes, objetos de bondage, anéis penianos. Uma barata morta resiste enroscada numa calcinha de couro com espinhos.

A última vez que Wilma mexeu naquela caixa foi para gravar o documentário "Vil, Má", do cineasta Gustavo Vinagre. Nele, a escritora senta diante da câmera para contar suas histórias e ler seus contos, sem nunca deixar claro qual é qual. Ela assistiu ao filme pela primeira vez na Alemanha, quando o filme integrou o Festival de Berlim este ano, o último antes da pandemia. A emoção de se ver numa tela grande foi tamanha que a pressão subiu. "Quase me deu um derrame cerebral, meu filho. É como Cora Coralina, depois de velha, alcançar tudo isso!"

O único porém do filme, segundo a protagonista, é usar as polaroids mais explícitas da sua caixinha. A preocupação se estende pela família. "Uma das minhas irmãs odeia Wilma Azevedo. É uma família muito religiosa, nunca leram o que eu escrevi. Acham um absurdo o que fiz." Já o filho, ela diz, sempre a apoiou.

Entretido, nem percebo quando Wilma entra novamente dentro do quarto. Minutos depois, ela reaparece maquiada e de cabelo preso, retocado com laquê e um novo look: uma blusa curta e uma calça de couro vermelha. Diante da minha cara de surpresa, ela brinca: "Quem tá na chuva é pra se molhar".

Imagem: Iwi Onodera/UOL
Imagem: Iwi Onodera/UOL
Imagem: Iwi Onodera/UOL
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Do chão, ela pega uma máscara preta delicada e uma minissaia de couro, que coloca em volta do corpo amassado pela calça apertada. Tenta abotoá-la, sem sucesso: "Olha como a velhice é triste", lamenta.

Depois dos primeiros cliques, ela levanta o rosto e aponta o dedo para uma mordaça: "Pega essa", pede com uma voz mais impositiva. "Sim, senhora", respondo ironicamente de forma servil. Ela olha para a fotógrafa e dá uma risadinha: "Ele não viu nada ainda", diz.

Para quem sonhava em ser artista, qual era a sensação quando vestia aquelas roupas e encarnava uma dominadora?, pergunto. "Aí eu me sentia a própria rainha", responde. "Não, rainha, não. Uma deusa suprema."

Imagem: Iwi Onodera/UOL

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