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'Tá tudo errado no modo de falar de Bolsonaro', diz fonoaudiólogo

O fonoaudiólogo Simon Wajntraub, em seu apartamento em Copacabana, no Rio - Ricardo Borges/UOL
O fonoaudiólogo Simon Wajntraub, em seu apartamento em Copacabana, no Rio
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Paulo Sampaio

Do TAB

14/01/2021 04h01

Já faz quase 50 anos que o fonoaudiólogo autodidata Simon Wajntraub, 70, conhecido pela natureza controversa de suas declarações, relativiza o problema da língua presa — causado pelo encurtamento do freio que liga o órgão à parte inferior da boca: "O que muita gente tem é língua solta", afirma. Em entrevista ao TAB, Wajntraub reconheceu que ele mesmo é "uma pessoa sem problemas de inibição para falar". Muito exuberante, o entrevistado respondeu inclusive a perguntas feitas por ele próprio.

Entre outras técnicas, sua metodologia inclui a "porradaterapia", que promete desinibir tímidos que precisam falar em público. Consiste em uma ofensiva no estilo das táticas militares, que leva a pessoa aos seus limites emocionais. Utiliza evocação de traumas, provocações pesadas e até xingamentos durante as consultas. "Colocamos o paciente sob forte pressão verbal, até fazê-lo botar para fora seus medos."

De acordo com Wajntraub, a porradaterapia não requer exercícios feitos em casa: "Em geral, o tímido chega aqui com problema na voz e na fala. A gente primeiro resolve isso. Nessa fase, prescrevemos exercícios. Depois, na porradaterapia, ele treina a fala na emoção. Esse é o erro da fonoaudiologia que se realiza hoje. Quando o paciente está no consultório, sem pressão nenhuma, fica tudo bem. Aí, ele vai para rua, sofre uma pressãozinha, volta gagueira, volta tudo."

Mesmo que o tratamento seja longo, Wajntraub explica que o interessado desembolsa apenas o valor da primeira consulta, R$ 700, de avaliação, e o de um pacote baseado no grau de dificuldade de cada um. "A gente estipula uma carga horária e, terminado esse período, o paciente prossegue ad eternum, sem custo adicional nenhum. Mas tem de se dedicar. Se ficar seis meses sem vir, e reaparecer, dizendo que não conseguiu passar em entrevista de emprego porque é gago, ou tem voz fina, então paga multa para recomeçar."

Palco, câmeras e refletores

Simon Wanjtraub tornou-se imortal graças a um comercial de autoria própria, veiculado desde os anos 1970, em que aparecia no horário nobre das principais emissoras de rádio e TV, dizendo: "Tem dificuldade na voz e na fala? Não consegue argumentar sob pressão? Tem fobia para falar? Eu sou o professor de fonoaudiologia e oratória Simon Wajntraub." Depois de informar um número de telefone, ele finalizava com um "Boas falas!", que virou bordão não só entre as crianças.

Ainda na ativa, Wajntraub se despede da mesma maneira nas lives que passou a apresentar na quarentena imposta pela pandemia da covid-19. "Ele atende a mais de 100 pacientes diferentes por mês", afirma o técnico de audiovisual Rodolfo de La Vega, que está à disposição para mostrar os "milagres" operados pelo fonoaudiólogo.

Antes da pandemia, Wajntraub mantinha seus atendimentos no apartamento que fica acima do que ele mora há 36 anos com a mulher, Ângela Alevatto, 70, em Copacabana, zona sul do Rio. Juntos, os dois imóveis somam cerca de 300 m². Wajntraub recebe a reportagem de TAB em um estúdio de cerca de 40 m² equipado com um pequeno palco cercado de refletores e câmeras que veiculam videos dele nas redes sociais.

Há ali um monitor grande, no qual De La Vega apresenta o "antes e depois" de diversos casos de cura quase instantânea de gagueira, inibição para falar e voz fina.

O estúdio doméstico utilizado para produzir as aparições do fonoaudiólogo - Paulo Sampaio/UOL - Paulo Sampaio/UOL
O estúdio doméstico utilizado para produzir as aparições do fonoaudiólogo
Imagem: Paulo Sampaio/UOL

Montagem com plateia virtual, elaborada por De La Vega para abrir as lives - Rodolfo de La Vega - Rodolfo de La Vega
Montagem com plateia virtual, elaborada por De La Vega para abrir as lives
Imagem: Rodolfo de La Vega

Falando grosso

Um dos exemplos mais eloquentes da capacidade curativa de Wajntraub é o do estudante de filosofia Isaac Nicacio, 27, que em 2012 apareceu no consultório apresentando "problema de voz fina". "Olha como ele falava", diz o fonoaudiólogo. "Mostra pra ele, Rodolfo." O auxiliar sintoniza o depoimento do rapaz: "No mesmo dia, ele saiu daqui falando grosso", garante o porradaterapeuta.

Isaac conta para a reportagem, por áudio, com a voz muito diferente do que a que apresentava no primeiro vídeo, que sua namorada à época mostrou a ele algumas postagens de "porradaterapia" no YouTube, e o convenceu a procurar Wajntraub. A voz de Nicacio não está só mais grave, mas empostada:

"Três dias depois, em uma apresentação na igreja que eu frequentava, já falei com a voz corrigida", lembra.

O estudante diz que frequentou o consultório durante cinco anos, até que sua rotina se modificou e ele não pôde mais ir continuamente. "No primeiro dia, corrigi a voz. Com o tempo, melhorei a timidez e a oratória."

O universitário Isaac Nicacio, que engrossou a voz instantaneamente com porradaterapia - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
O universitário Isaac Nicacio, que engrossou a voz instantaneamente com porradaterapia
Imagem: Arquivo Pessoal

Políticos famosos

Após informar que não é parente "nem distante" do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, Simon Wajntraub conta que votou em Jair Bolsonaro ("como todo mundo") e faz uma avaliação da "articulação fonética" do presidente da República.

"Bolsonaro tem a voz fraca, presa, e não articula bem as letras, os fonemas. Esse movimento da língua dele, o lábio, os dentes, tá tudo errado, torto, dá para melhorar bastante."

Entre os políticos famosos que, segundo ele, constam de sua carteira de pacientes, estão o ex-deputado federal pelo PSD do Rio Antônio Pedro Indio da Costa ("ele tinha voz fina, era tímido, virou um grande comunicador") e o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio (PSDB). "Tinha inibição em público, gaguejava um pouco, consertei isso nele."

Virgílio falou sobre o curso. "Conheci o doutor Simon Wajntraub quando atuava como diplomata, antes da vida política. O atendimento com ele era mais massivo e foi quem me ajudou a curar a taquilalia [velocidade da fala muito rápida, que pode prejudicar a inteligibilidade das palavras]. Após seu acompanhamento, quando retornei a Manaus para disputar meu primeiro mandato de deputado federal, pude contar com a ajuda da voz e do discurso."

De quando em quando, durante a conversa, Wanjtraub cita pacientes importantes que atendeu ao longo dos anos. "Eu dei aula para todos os jornalistas... O Rodolfo Schneider, por exemplo, da Band, tinha um chiado de carioca que eu eliminei. Hoje, ele é um diretorzão lá."

Schneider, que é diretor-executivo do grupo Bandeirantes, diz que Wajntraub fez um trabalho com jornalistas na emissora, mas não se recorda de ter sido, ele mesmo, atendido. "Acho que ele pode estar se confundindo. Tive algum contato, lá atrás, quando ele trabalhou na Band do Rio, mas meu sotaque continua muito carioca."

Arthur Virgílio Neto - Pedro França/Agência Senado - Pedro França/Agência Senado
Imagem: Pedro França/Agência Senado

Tatá e Gentile

Para comprovar a própria celebridade, Wajntraub menciona sua participação nos programas de Jô Soares, em 2013; de Tatá Werneck ("Lady Night"), em 2014; e Danilo Gentili, em 2017. "Eu acabei com a Tatá Werneck", diz. "Mostra os números pra ele, Rodolfo. Foram mais de 2 milhões de acessos no meu canal no YoTube. O programa foi considerado pelo UOL um dos dez melhores 'Lady Night' daquele ano", lembra.

Contudo, a aparição televisiva que mais mexeu com a estrutura egoica de Simon Wajntraub remonta a quase 50 anos atrás. Foi uma entrevista exibida no programa "Fantástico", da TV Globo, em 1973. "Naquele momento, eu pensei: 'Se eu apareci no Fantástico aos 26 anos, posso casar e constituir uma família que vai dar continuidade a minha obra'."

A entrevista concedida ao programa tratava dos métodos alegadamente revolucionários que ele havia criado para o tratamento da fala. Foi ao ar em agosto; em setembro, ele conheceu Ângela ("eu passei um trote, por sugestão de uma ex-namorada minha que era amiga dela, e a gente começou a sair"). Em outubro, eles foram morar juntos; em dezembro, os dois se casaram; oito anos depois, eram pais de 7 filhos.

O fonoaudiólogo, "na época do ´Fantástico`": "Olha como eu era!" - Reprodução/Arquivo Pessoal - Reprodução/Arquivo Pessoal
O fonoaudiólogo, "na época do ´Fantástico`": "Olha como eu era!"
Imagem: Reprodução/Arquivo Pessoal

Igual ao Bussunda

Ao contar sua biografia, Wajntraub romanceia a relação difícil com a família, e diz que ele é "igual ao Bussunda" (comediante do Casseta e Planeta morto durante a Copa de 2006). "Eu sou o errado que deu certo", acha ele.

Filho de judeus poloneses ("meu pai teve a primeira fábrica de joias do Brasil"), Simon nasceu na Tijuca, zona norte do Rio, e é o terceiro e único homem em uma família de quatro filhos.

Diz que nunca teve diálogo com o pai, que queria que ele fosse engenheiro. "Com 7 anos, eu imitava a voz dos coleguinhas de sala, como se estivessem fazendo bagunça, e a professora brigava com eles. Eu era o palhaço da turma. Nunca estudei. Sempre tive um olhar de cientista para as aulas, de filósofo."

Na sala de jantar do apartamento da residência, que fica no andar abaixo do estúdio/consultório - Ricardo Borges/UOL - Ricardo Borges/UOL
Na sala de jantar do apartamento da residência, que fica no andar abaixo do estúdio/consultório
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Cid Moreira puto

O fonoaudiólogo se apresenta também como locutor, professor e poeta. Conta que, como imitava com perfeição as vozes de Cid Moreira e Moacyr Ramos Calhelha, entre outros clássicos da locução, frequentemente era chamado para fazer comerciais radiofônicos no lugar de estrelas da época. "Eles ficavam putos."

Seu pai não se conformava com uma aptidão que "não daria em nada". "Ele achava aquilo tudo uma bobagem. Não conversava comigo sobre nenhum assunto, sexo, nada. Sabe como é, minha geração começava em puteiro...". Ele diz isso meio gratuitamente, caprichando no tom grave da voz, com uma expressão que remete à iniciação precoce do menino e à experiência longeva do macho maduro.

Base nude

Apesar de usar um tom queixoso ao falar do pai, Simon Wajntraub afirma que não alimenta ressentimentos. "Se alimentasse, estaria com a cara envelhecida", diz ele, que recebeu a reportagem com uma espessa camada de base nude no rosto.

Nos cabelos, Wajntraub diz que aplica Imedia Excellence número 1 preto, da L'Oreal de Paris. "É o mais caro do mercado, custa R$ 25. Tem creatina, vitamina E... Uso desde os 30 anos", segreda ele, enquanto coça o cocuruto usando apenas o dedo indicador, com cuidado para não desmantelar o resto.

O penteado estilo touca faz parecer que os cabelos estão colados à cabeça — exceto na nuca. Ali, os fios permanecem hirtos e unidos, e guardam uma distância regular da pele — por mais brusco que seja o movimento que o fonoaudiólogo faça com a cabeça.

Peruca?

"Não! Eu saí à mamãe. Ela morreu aos 90 anos, e ainda tinha muito cabelo." Rodolfo projeta no monitor uma foto em preto e branco de dona Malka Wajntraub.

A mãe do fonoaudiólogo, Malka Wajntraub - Simon Wajntraub/arquivo pessoal - Simon Wajntraub/arquivo pessoal
A mãe do fonoaudiólogo, Malka Wajntraub
Imagem: Simon Wajntraub/arquivo pessoal

Pantogar Neo

No estúdio, a presença discreta do primogênito de Wajntraub, Bruno, 43, reforça a extravagância do comportamento do fonoaudiólogo, que usa um terno preto largo, meio surrado, com botões dourados, camisa azul arroxeada e gravata no mesmo tom com listas diagonais.

Bruno veste jeans, camiseta e tênis, e de vez em quando sorri de alguma frase recorrente do repertório do pai. "Eu disse a ele para usar Pantogar Neo, ele não me obedeceu", diz Simon, apontando para a calvície prematura do filho.

Ele e Ângela se casaram com um festão para mil pessoas, escondidos da família Wajntraub, que não aprovaria a união com uma moça que não fosse judia ("no convite, eu era órfão: não tinha pai nem mãe"). Quatro anos depois, quando os pais dele já sabiam da existência de Ângela, ela se converteu, e eles se casaram na sinagoga, agora escondidos da família católica dela.

Publicitário também

De todas as profissões a que Simon Wajntraub se atribui, a que mais parece combinar com ele é a de publicitário. Tudo indica que sua capacidade de se autopromover não conhece limites. "Ele tem de ser a estrela sempre", diz Ângela, com tranquilidade. Assim como o marido, ela reconhece sua vaidade extrema — assume várias intervenções estéticas no rosto.

O casal me conduz, no fim da entrevista, para conhecer o apartamento residencial da família, no andar de baixo. No quarto deles, que é cercado por espelhos, inclusive no teto, o chão é de mármore, o colchão da cama "hiper king size" — na definição de Ângela — é coberto por uma colcha cor-de-rosa e a cabeceira é ornamentada com volteios de ferro dourado. Wajntraub justifica o eventual excesso com a necessidade de estímulos luxuriantes para garantir uma atividade sexual prolongada.

Selfie no quarto cheio de espelhos - Simon Wajntraub - Simon Wajntraub
Selfie no quarto cheio de espelhos
Imagem: Simon Wajntraub

Ele liga a TV e zapeia por três canais de "filmes para adultos". Dois deles mostram closes de sexo entre héteros. No terceiro, a dupla é de mulheres. O entrevistado forja um olhar de desejo insaciável que, na composição com o desenho do penteado em sua testa, alude a uma personagem do lendário humorístico "Chico City".

Wajntraub diz que Chico Anysio não foi seu paciente.