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Quais são os conselhos da 'Taróloga de Oxford' para 2021

Taróloga Nayara Moura, 25, viralizou na internet depois de um vídeo sobre sua trajetória como estudante em Oxford - Gabriela Cais Burdmann/UOL
Taróloga Nayara Moura, 25, viralizou na internet depois de um vídeo sobre sua trajetória como estudante em Oxford
Imagem: Gabriela Cais Burdmann/UOL

Letícia Naísa

Do TAB

25/01/2021 04h00

"Você está com dívidas?". Foi esta a primeira pergunta que a cartomante me fez quando virou um cinco de ouros em cima da toalha branca na mesa.

Chovia uma garoa fina no bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, quando sentei em uma cadeira daquelas dobráveis de madeira em um café-bar-vendinha com a taróloga Nayara Moura, 25. Respondi que não. "Mas também não está tudo maravilhoso, você não está rica", sentenciou. De fato. "Ouros é a carta do dinheiro, o cinco é o meio do caminho, porque a última carta é o dez", explicou.

A consulta não foi planejada, mas veio em boa hora. O combinado inicial era uma entrevista por vídeochamada, sem a leitura das cartas. "Mas olha como o Universo é, né?", diz a cartomante no meio do jogo, segurando o baralho. "Acredita em destino quem quer."

Uma passagem inesperada por São Paulo no início de janeiro cruzou nossos caminhos. Em meados de dezembro, Nayara viralizou na internet por causa de um vídeo no TikTok em que dizia ter largado a carreira de professora de História para virar cartomante. Contava na rede social que tinha sido aprovada em dois "processos seletivos", um em Harvard e outro em Oxford, duas das universidades mais renomadas do mundo, durante a graduação — optou por Oxford — e que tinha feito mestrado na Espanha. Um currículo invejável. E, mesmo assim, largou tudo, chocando todo o mundo, inclusive a mim.

No vídeo, ela segue orgulhosa. "Nenhum brasileiro nunca tinha passado em Oxford e Harvard na minha linha de pesquisa, e eu passei nas duas, ao-mesmo-tempo", sublinhava de forma pausada, sem explicar exatamente o que foi a seleção e qual era a área.

De todo modo, "diploma não paga conta", lamenta Nayara, em entrevista ao TAB. "É sobre dinheiro. As pessoas romantizam muito as coisas. Faço aquilo em que eu sou boa", afirma, pragmática. Em suas redes sociais, se intitula a Rainha do Tarô e diz ser a maior cartomante do Brasil. Uma de suas clientes rasga elogios. "Jogo tarô desde 2006. Já joguei com ela e com mais três ou quatro pessoas. A Nayara foi a melhor", assegura Kellen Silva, 34, também professora de História em São João del-Rei. "Ela me atendeu antes de ficar famosa, agora eu estou 'brava' porque não tenho horário para retornar, mas bom pra ela", diz. Nayara afirma que sua agenda está lotada até junho. O preço da consulta: R$ 710 a hora.

No Instagram, a cartomante tem 34 mil seguidores. Por causa do vídeo, que acabou circulando em todas as redes, sofreu um cancelamento que ela considera injusto. "Eu mudei de profissão, só isso", desabafa. "Não fui racista, não fui machista, homofóbica nem agressiva ou violenta, não matei uma pessoa. É porque sou cartomante. Se eu tivesse aberto uma padaria, ninguém estava me cancelando", diz. Ela crê que a cancelaram por ter mudado de carreira. Boa parte das reações do público, entretanto, questionava seu histórico acadêmico.

Taróloga Nayara Moura, 25, viralizou na internet depois de um vídeo sobre sua trajetória como estudante em Oxford - Gabriela Cais Burdmann/UOL - Gabriela Cais Burdmann/UOL
Taróloga Nayara Moura, 25, viralizou na internet depois de um vídeo sobre sua trajetória como estudante em Oxford
Imagem: Gabriela Cais Burdmann/UOL

Terra: as origens

O cancelamento de Nayara tem relação com a sua trajetória, que começa na cidade de Divinópolis, interior de Minas Gerais. "Bem cidadezinha mesmo, com povo que vai pra praça jogar truco", define a cartomante, carregando no sotaque mineiro. Apaixonada pela disciplina de História na escola, não teve dúvida na hora de prestar vestibular na UEMG (Universidade Estadual de Minas Gerais). Foi aprovada em 2013.

No segundo semestre da graduação, decidiu que queria pesquisar guerras. Especificamente, a Segunda Guerra Mundial. Encontrou, em Belo Horizonte, capital mineira, um ex-soldado do regime nazista que se refugiou no Brasil. "Eu tinha uma bolsa de iniciação científica de R$ 400 e gastava no trânsito entre Divinópolis e BH", conta.

Em uma das viagens para a pesquisa de campo, que consistia em entrevistas com o ex-veterano de guerra alemão, pegou carona com uma professora da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), com quem não tinha nenhuma relação. Ela lhe deu um conselho: "Por que você não tenta estudar fora do Brasil?". "Foi coincidência do destino colocar essa mulher na minha vida, acredita quem quer, mas depois dessa carona, eu comecei a escrever um projeto para estudar fora do país", lembra a cartomante. "Mas eu queria universidades grandes, falei 'já que vou tentar e não vou passar mesmo, vou para as maiores'", diz. Sorbonne, na França, Salamanca, na Espanha, Harvard, nos Estados Unidos, e Oxford, no Reino Unido, receberam uma cópia de seu projeto de pesquisa, diz. Nayara afirma que foi aprovada nas duas últimas.

Ar: as viagens

O curso que Nayara fez, segundo a Universidade de Oxford, se chama "The Origins Of The First World War" (As Origens da Primeira Guerra Mundial, em português). Ela afirma ter feito duas disciplinas, uma sobre Primeira Guerra e outra sobre Segunda Guerra. Por e-mail, a secretaria do Departamento de Educação Continuada da universidade confirmou à reportagem de TAB a existência da matrícula de Nayara. Em seu vídeo, não fica claro se o curso era ou não uma pós-graduação.

Em nota, a universidade diz que o curso é uma modalidade "standalone" (como um curso de extensão) oferecida em 2015, de acesso aberto a qualquer interessado, com duração de três meses cada módulo. No total, Nayara estudou seis meses em Oxford, mas afirma que morou na Inglaterra por um ano.

"Quando eu fiz o curso, estava na graduação. Lá tem vários níveis que a gente não tem no Brasil, aqui é graduação, mestrado e doutorado. Esse curso entra como uma 'undergraduation', quando eu junto os dois, dá uma pós-graduação. Bato os créditos que eu preciso para validar como uma pós no Brasil", diz. "Não tenho vergonha de falar que não fui aprovada em todas as provas finais, mas fiz o curso, tenho um certificado", garante. Documento este que ela já exibiu em uma live no Instagram.

A viagem para estudar em Oxford em 2015 foi a primeira de muitas experiências internacionais da cartomante. "Aconteceu de tudo lá, mudou toda a minha vida", relembra. "Quando eu percebi que podia andar na rua sozinha à noite, que era normal para uma mulher inglesa de mais de 30 anos não se casar e ninguém fazer pressão social pra cima dela, o aborto ser legalizado e gratuito no sistema de saúde, surgiram muitos questionamentos que me fizeram jogar o tema de guerra pro ar. Voltei virada querendo pesquisar gênero", conta. Até hoje se considera feminista. "Não tem como não ser."

Outro diploma que Nayara exibiu nas redes para provar sua trajetória é de um mestrado na Universidade de Esneca, na Espanha, onde cursou seis meses de aulas presenciais no curso de Igualdade de Gênero e Prevenção de Violência de Gênero em 2018. O restante do curso fez à distância. Procurada, a faculdade não respondeu o contato da reportagem até a publicação.

A carreira acadêmica de Nayara permitiu que ela viajasse muito. Em certo ponto, virou mochileira. "Para quem acredita, faz parte da energia dos ciganos, é movimento. Se eu não viajasse, não teria sanidade mental", diz. Sua publicação acadêmica na área de estudos de gênero, de acordo com seu currículo Lattes, é extensa. Entre congressos e seminários pelo Brasil, conheceu a cartomancia.

"Peguei um ônibus com uma cartomante muito jovem, que tinha acabado de se formar em comunicação social e deixou a carreira para ser cartomante", conta Nayara. Quando o ônibus parou em São Paulo, a mineira pediu para a jovem abrir o jogo para ela na rodoviária do Tietê. "Ela olhou pra mim e falou: 'você vai mudar de profissão'. Pra mim, não fazia sentido nenhum, mas ela falou que eu ia entrar num relacionamento, ia me mudar e ia trabalhar com uma coisa com que nunca tinha trabalhado antes e era voltado para a espiritualidade", relembra. Para ela, que beirava o ateísmo na época, a previsão parecia ilógica. "Tive um processo muito dolorido com religiões, achei que ela estava louca e era charlatã", confessa.

Nayara, que já foi muito católica — a ponto de querer ser freira na adolescência —, pede a bênção do anjo da guarda antes de abrir seu baralho para se proteger. "O tarô não tem nada a ver com religião, é uma canalização de energias, mas faço porque acredito em anjo da guarda, que me protege da energia da outra pessoa que não conheço", explica. Foi aprendendo sobre isso com a prática. Tarô, frisa a cartomante, não é ciência, é arte. "Mas não é por isso que não funciona."

Passado o tempo da consulta na rodoviária, Nayara diz que tudo o que a jovem taróloga previu começou a acontecer. Mudou de cidade, mas não de profissão. "Então comprei um baralho para estudar esse negócio de cartas e comecei a me dedicar. Sempre gostei de estudar, mas nunca pensei que ia largar tudo", afirma. "Mas vida de adulto é pagar a língua e boletos", ri.

Taróloga Nayara Moura, 25, viralizou na internet depois de um vídeo sobre sua trajetória como estudante em Oxford - Gabriela Cais Burdmann/UOL - Gabriela Cais Burdmann/UOL
Taróloga Nayara Moura, 25, viralizou na internet depois de um vídeo sobre sua trajetória como estudante em Oxford
Imagem: Gabriela Cais Burdmann/UOL

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Taróloga Nayara Moura, 25, viralizou na internet depois de um vídeo sobre sua trajetória como estudante em Oxford
Imagem: Gabriela Cais Burdmann/UOL

Água: o tarô

Na primeira vez que abriu o baralho para alguém, já estava estudando havia três anos. Em seu primeiro jogo, manteve ao seu lado um livro do tarólogo Nei Naiff para consultar, caso não entendesse alguma carta. Mesmo assim, ficou nervosa. "Não de não entender as cartas, porque isso eu já estava entendendo muito bem, mas fiquei nervosa de não entender a pessoa. Como eu ia lidar com as expectativas dela?", conta. Sua primeira cliente era uma amiga que fez na internet.

A taróloga explica que não é sobre saber o futuro. "Sempre digo isso, o tarô é como a previsão do tempo na televisão. Quando falam que vai chover, você não controla a chuva, como não controla a pandemia ou se sua mãe vai adoecer ou não. Mas, sabendo que amanhã vai chover, você leva um guarda-chuva, fecha a janela e não deixa a roupa no varal antes de sair de casa. Você se prepara." Nayara afirma que não faz previsões. Não responde a perguntas como "meu marido vai voltar?" ou "vou me mudar de casa?".

Esta última pergunta, inclusive, foi uma das que fiz ao baralho. "Você escolhe. Três de copas com três de ouros. O conselho do tarô é pra você fazer o que pesar no seu bolso e não criar emoções, sem vínculos com um lugar que você sabe que financeiramente não compensa", me respondeu. "Subiu o aluguel ou encontrou um lugar melhor, mesmo mais longe, e mais barato, vai sem pensar duas vezes, vai dar certo. Nem problema com vizinhos você vai ter."

Taróloga Nayara Moura, 25, lê as cartas para a reportagem - Gabriela Cais Burdmann/UOL - Gabriela Cais Burdmann/UOL
Taróloga Nayara Moura, 25, lê as cartas para a reportagem
Imagem: Gabriela Cais Burdmann/UOL

Segundo ela, as previsões não são o mais importante do tarô. "O futuro não dá para mudar, se a gente acredita em destino. Só esteja preparado", aconselha. Então ela não previu a pandemia? "Não vi nada antes da pandemia", afirma. "Quer dizer, via muitos cinco de ouros, que fala da vida financeira. Essa carta saía pra todo mundo, os conselhos eram sempre: não troque de casa, não troque de carro, achei até que meu baralho estava viciado, não achei que poderia ser uma crise econômica mundial." A maioria dos homens pergunta sobre dinheiro, conta a cartomante, e as mulheres, sobre amor.

De setembro de 2019 em diante, o conselho era sempre o mesmo: guarde dinheiro. "As pessoas que o seguiram conseguiram se manter bem na pandemia", afirma Nayara. Para 2021, o conselho permanece. "Ao mesmo tempo, esse ano a gente tem o ano do amor, muitas crianças nascendo, muitas almas gêmeas se reencontrando. Tem saído muito a carta da Imperatriz, que pode ser gravidez ou indica que você vai colher o que plantou", diz. "Com relação à pandemia, do que eu já vi, queria ser otimista e poder dizer que tudo vai mudar, mas não vai. 2021 pode ter vacina, mas ainda virão muitas ondas ruins."

Taróloga Nayara Moura, 25, dá conselhos para 2021 - Gabriela Cais Burdmann/UOL - Gabriela Cais Burdmann/UOL
Taróloga Nayara Moura, 25, viralizou na internet depois de um vídeo sobre sua trajetória como estudante em Oxford
Imagem: Gabriela Cais Burdmann/UOL

Com cerca de 240 mil habitantes, Divinópolis já teve mais de 4.400 casos de covid-19. A própria cartomante entrou na estatística no início de novembro, mas não deixou de jogar tarô. "Não tive nariz escorrendo nem dor de cabeça, mas um cansaço gigantesco, dormia 14 horas direto."

Os atendimentos de Nayara, na maioria, são online. Antes da pandemia, os jogos pagavam o estilo de vida pé na estrada. "Mas não tem diferença", garante. "O tarô acessa a sua energia, eu posso fazer isso de qualquer lugar do mundo", explica. Por causa das viagens, fez muitos clientes fora do Brasil. Pagando em dólares, euros, libras e até ienes. Além de abrir as cartas, oferece cursos de autoconhecimento, espiritualidade e também ensina quem quer aprender a jogar tarô. No futuro, quer se dedicar à produção de conteúdo sobre tarô no YouTube para garantir uma renda mais fixa com vídeos monetizados.

O vídeo que viralizou no TikTok foi seu primeiro passo para partir para a plataforma do Google. "Não foi exatamente uma estratégia de marketing, eu só contei a minha história, mas meu cancelamento acabou sendo bom. As pessoas começaram a me procurar", conta. Se ela não esperava a viralização, esperava menos ainda as reações de ódio. "Quando fui à Oxford, muita gente me apoiou. Fizeram até vaquinha para me ajudar, nunca imaginei nada disso."

Taróloga Nayara Moura, 25, lê as cartas para a reportagem - Gabriela Cais Burdmann/UOL - Gabriela Cais Burdmann/UOL
Taróloga Nayara Moura, 25, lê as cartas para a reportagem
Imagem: Gabriela Cais Burdmann/UOL

Fogo: o cancelamento

Hoje, Nayara cobra cerca de R$ 300 por uma consulta mais simples, de meia hora. Seu curso mais recente, chamado "O Sagrado de Ísis", sobre autoconhecimento, estava sendo anunciado a R$ 240. "Cheguei a este valor depois que eu tinha uma agenda de três meses fechada e 300 pessoas na lista de espera", afirma. Sua lógica é de que, pagando muito, ninguém duvidará de sua palavra. "A minha consulta não é isca para vender curso, paga quem quer." Hoje, atende quatro ou cinco pessoas por dia e se considera empresária, pois emprega oito profissionais. "Não tenho ponto físico, todo mundo trabalha de casa, trabalha muito e ganha bem", garante.

A cartomante é categórica quando questionada se seu preço é negociável: não é. "Se eu não tivesse tanta certeza do que eu faço, já teria desistido", diz ao TAB. Acusada de ser charlatã e mentirosa, ela afirma que existe muito preconceito nessa área. "Se fosse no século 12, eu seria queimada na fogueira."

A má fama dos esotéricos, explica, vem de quem cobra isca e quer ganhar dinheiro fácil. "Dou até certa razão a quem me critica, tem muito charlatão que cobra R$ 50 pra abrir as cartas, fala que fizeram amarração pra cliente e depois cobra R$ 5 mil pra desfazer", conta. "Em nome da 'ciência', nunca ninguém me pediu a comprovação do meu currículo e isso me incomodou", diz.

Nayara leva porrada dos dois lados: de colegas cientistas de carreira e dos místicos que cobram por desamarração. Para responder à altura, depois de sua história viralizar, fez uma live no Instagram. "Não tenho medo do julgamento. Sou formada em estratégia de guerra na melhor universidade do mundo, isso ninguém me tira", diz. O acaso de sua passagem por São Paulo que permitiu nosso encontro foi uma escala de uma viagem para Cancún, no México. "Estou indo beber lágrimas dos haters", brincou.

Taróloga Nayara Moura, 25, lê as cartas para a reportagem - Gabriela Cais Burdmann/UOL - Gabriela Cais Burdmann/UOL
Taróloga Nayara Moura, 25, lê as cartas para a reportagem
Imagem: Gabriela Cais Burdmann/UOL

Os olhos castanhos naturais por trás das lentes de contato azuis chegam a marejar. "Acham que eu uso a minha carreira acadêmica para me vender como cartomante, mas não tem nem foto minha em Oxford na internet", diz. De fato, há apenas uma foto em seu Instagram na universidade. A maioria de seus clientes mais antigos não sabiam de seu passado, afirma Nayara, que não gosta do rótulo que ganhou de "taróloga de Oxford".

Ela diz ser regida pelo elemento água, e sua vida corre como um rio. "Estou cartomante hoje. A gente que é de água está em movimento o tempo inteiro. Pode ser que daqui alguns anos eu não esteja cartomante mais, e tudo tranquilo." Depois de responder a muitas perguntas, a chuva que caía quando sentamos frente a frente passou e é ela quem lança uma última enquanto embaralha as cartas: "Posso fechar o seu jogo?"