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'2020 será um ano leve'?: pandemia mexeu com crenças sobre astrologia

Astrologia - Josh Rangel/Unsplash
Astrologia Imagem: Josh Rangel/Unsplash

Elisa Soupin

Colaboração para o TAB, do Rio

04/06/2020 04h00

"Será um ótimo ano, com muita coisa acontecendo e será um ano de prosperidade." "Ano novo promete ser mais leve." Essas previsões têm a cara de 2020? Definitivamente, não.

Quando a pandemia de Covid-19 explodiu, profissionais renomados da astrologia, como Susan Miller, uma espécie de papisa da astrologia mundial (responsável pela primeira previsão), e João Bidu, astrólogo famoso por seus muitos anos de atuação no Brasil (autor da segunda frase), viram seus fiéis seguidores irem às suas páginas nas redes sociais reclamar de cenários previstos que se mostraram um tanto equivocados.

Miller, que em suas leituras costuma ser precisa até em datas, com dicas como: "Não assine contratos entre os dias X e Y", foi alvo de muitas críticas. João Bidu virou meme. Mas será que um acontecimento como a Covid-19 pode abalar a relação da astrologia com seu público?

Um leve bode (temporário)

Para a professora Julia Souza, de 29 anos, entusiasta do alinhamento dos planetas, a resposta é sim e não.

"Sempre gostei muito de astrologia, sempre me interessei. Quando houve esse boom há uns anos, teve muito mais informação disponível, passei a pesquisar e ler muito. Sempre enxerguei a astrologia como autoconhecimento, uma ponte para um entendimento maior de mim mesma. E, ultimamente, trancada em casa, há meses sozinha, tenho estado muito mais próxima de mim mesma, então acho que essa ponte perdeu o sentido", diz ela.

Souza conta que vem acompanhando menos as páginas sobre astrologia do que costumava antes de a quarentena começar.

Cartas à mesa, respostas, nem sempre

A astróloga Tatiane Lisbon, que trabalha com astrologia desde 2015 e estuda o tema há 16 anos, fez uma previsão bem menos otimista para o ano de 2020 para seus mais de 50 mil seguidores. Durante a pandemia, ela diz ter sentido um aumento de procura.

"Pode ser um tanto complexo apontar o que é uma previsão certa e o que não é, primeiro porque cada profissional, cada esotérico, cada místico, cada astrólogo vai ter um jeito de interpretar. Às vezes uma carta de tarô ou um símbolo significa algo para mim que não vai significar para outro, esse é o aspecto mais simples", diz ela sobre os diferentes prognósticos trazidos pelo seu trabalho e de seus pares.

Para a astróloga Bárbara Burgos, que está há 10 anos na profissão, as dificuldades foram apontadas a seus clientes de acordo com o impacto específico que ela via para cada um. "A previsão que é feita para um público muito grande é generalizada. E você não é só o seu signo. Quem é astrólogo há muitos anos e estuda, sabia que a partir de 2019 algo grave se daria. A gente está vivendo um céu muito parecido com o céu da Segunda Guerra, com o céu da Guerra Fria", explica ela, que não comenta erros ou acertos de seus pares Burgos reforça que astrologia não trabalha com precisão.

"Não havia certeza para prever algo como uma pandemia porque a astrologia não é vidência. A decisão que tomei com os meus clientes foi a seguinte: quem estava diretamente afetado por conta dessa tríplice conjunção de Saturno, Júpiter e Plutão foi avisado por mim que enfrentaria muitos desafios. Para pessoas que não tinham seus mapas afetados de forma direta, falei da conjuntura no céu, mas não de efeitos individuais."

O entretenimento, a zoeira e a seriedade

Tatiane Lisbon também reflete sobre o uso da astrologia como entretenimento. No Instagram, por exemplo, são muitas as páginas de memes a partir de arquétipos de signos.

"Quem trabalha com isso ou faz um trabalho mega cabeçudo acaba não atingindo as pessoas. Talvez a pessoa tente um trabalho bem assertivo, que também pode não dar certo. Mas também dá para fazer ali um trabalho com entretenimento, gracinha, que acaba sendo mais bem recebido", diz ela, que na própria página, mistura memes e referências engraçadas com explicações mais densas.

Segundo a percepção da astróloga, a frustração com alguns dos prenúncios advém, também, da noção de que a astrologia deve entregar fórmulas prontas (mágicas e certeiras). "Sinto que se espera, não só da astrologia, respostas prontas, que tudo já venha mastigado. Com esse boom da popularidade que a astrologia vem ganhando, começam cobranças do tipo: 'Bom, sabe ver o futuro, então e aí, quando vou ganhar na loteria?'. E existem as pessoas que ainda vendem isso: 'Você tem um problema aqui, mas por não sei quantos mil reais, eu posso resolver', o que é muito complicado, porque vai da fé de cada um, mas é sempre muito duvidoso arriscar qualquer tipo de certeza em questões e condições que nunca foram estáveis e absolutas", diz ela.

A astróloga não acredita, no entanto, que a pandemia vai afastar as pessoas da astrologia. "Falando de forma muito prática e até cética, acredito que cada vez que o mundo entra em uma crise muito severa, em que nossas certezas começam a ser dissolvidas na nossa frente, a gente começa a se agarrar e confiar em coisas não substanciais. Precisa canalizar a fé em alguma coisa."

A impressão de Lisbon vai ao encontro dos estudos de Milena Lepsch. Em sua dissertação de mestrado "Eis você: a astrologia como sistema de coerência na construção de pequenas e grandes narrativas", ela analisou o discurso de 22 pessoas de classes sociais parecidas sobre a interferência dos signos em suas vidas, e explica o cenário que, antes da pandemia, faz com que tanta gente se interesse pelos astros.

"A gente veio de uma geração anterior que queria passar em um concurso público, estabilidade. Agora, há mais questionamentos e o mundo é mais complexo para se categorizar. Não existe mais apenas o homem e a mulher, o céu e o inferno, o certo e o errado. As relações contemporâneas são tão fluidas, como nos diz Bauman, que a falta de padrões pode levar a uma crise de identidade", diz a pesquisadora. E é justamente aqui que a astrologia entra, para preencher lacunas.

O psiquiatra e psicoterapeuta Dr. Alfredo Toscano, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, já participou de grupos de estudos sobre Jung, psiquiatra que se dedicava a saber como o misticismo e as religiões são ferramentas para acessar a psique. O especialista acredita que a astrologia pode ser reconfortante em momentos como o que a sociedade está atravessando.

"Acredito que existam pessoas frustradas, que daqui em diante vão procurar respostas mais concretas. E outras que, na contramão, vão recorrer mais ainda à astrologia e ao misticismo", diz ele. "Como a realidade se tornou muito hostil, é normal recorrer à magia, como um alívio, para sair da realidade de enfrentamento dessa situação. Quando há muita dificuldade em encarar a realidade, quando o mundo é muito duro, há uma busca por esses outros recursos. E aí, quanto mais as pessoas acreditam, mais frustradas podem ficar quando as coisas não saem da maneira prevista. O que origina essas decepções tão grandes."

Eu <3 astrologia (mas por quê?)

O psicanalista Lucas Liedke conduziu uma pesquisa chamada Peoplestrology, em 2018, em que pessoas voluntariamente revelavam os motivos de seu interesse por astrologia. Alguns resultados: mulheres ainda são maioria. A geração Z (nascidos a partir de 1996) é a mais interessada (47% dos que estão nessa faixa etária), seguida pelos millennials (1981 a 1996), 40%. Fun fact: de acordo com o levantamento, os escorpianos são os mais inclinados a acreditar piamente na astrologia.

"A astrologia tem uma característica de expressão identitária, ela é um prato cheio nesse sentido. Ela entrega autoconhecimento, mas também permite conhecer o outro a partir do signo. Tem um lado muito personificado da identidade, com o mapa e suas singularidades, que é a individualidade total, mas também a ideia de pertencimento, por você integrar um grupo de pessoas que dividem o mesmo signo e as mesmas afinidades", exemplifica ele.

Se, em um primeiro momento, as previsões da astróloga foram atacadas, Susan Miller soube se reinventar rapidamente. Ela preparou um especial sobre novo coronavírus, em que fala especificamente dos desdobramentos da Covid-19. As mesmas redes sociais que a condenaram, aparentemente já a absolveram. Situações similares acontecem com demais astrólogos, mais ou menos famosos, que, agora, usam o vírus e seus desdobramentos (políticos e sociais) como referências para prognósticos para o futuro.

"A astrologia tem uma autonomia interpretativa muito diferente das religiões e seus dogmas, e pode ser muito bem usada sim para o autoconhecimento. As coisas não precisam ser de exatas ou científicas para terem valor. Tudo bem enxergar na astrologia uma linguagem, ver nela uma ferramenta para se conhecer melhor. Mas é isso, ela é apenas uma ferramenta. O grande problema é quando há uma alienação. Então, para saber quando sair do confinamento, por exemplo, é melhor acessar a ciência, e não os astros", afirma Liedke.